O que me encanta nas Anavilhanas não é exatamente o espetáculo de animais e pássaros, mas a plácida harmonia entre águas e linhas de floresta. Para o espetáculo de animais e pássaros, há opções melhores, omo atravessar nos meses de junho ou julho, com um bom prático, o furo do Jacaré, que começa em frente à cidade de Parintins e vai até a cidade de Nhamundá, num espetacular conjunto de paranás e lagunas, repletas de nuvens de colhereiros, flamingos, corta- águas, garças e jaburus. Nos lagos e paranás, majestosas arraias, com quase um metro e meio, acompanham o barco como uma escolta de seres de um outro planeta. Quando nos aproximamos da margem, milhares de macacos prego agitam-se a saúdam os humanos com gesticulações cômicas. Nas Anavilhanas, a presença dos pássaros é mais discreta, a não ser as sempre elegantes garças.

Como o rio Negro não tem a mesma riqueza de vegetação aquática do Amazonas, já que suas características químicas e falta de transparência da água não propiciam uma boa flora, apenas nas ilhas com igapó ocorrem comunidades herbáceas, que se tornam importantes nichos ecológicos para a reprodução de algumas espécies de peixes.

Quanto à fauna, as Anavilhanas representam um ponto de transição ambiental entre a sub região rio Negro e rio Orenoco, além de apresentar uma amostragem de animais típicos de floresta de igapó. Isto quer dizer que, embora os estudos ainda estejam no começo, provavelmente a fauna das Anavilhanas apresenta adaptações de comportamento condicionadas pelo ciclo das águas. Na medida em que a cheia avança, as porções de terra ou espaço emerso dos igapós tendem a diminuir ou desaparecer. Isto reduz os recursos alimentares dos animais de terra, que busca a sobrevivência através de migração seletiva, nadando entre as ilhas, ficando em estado de latência ou simplesmente buscando outros locais de alimentação. Mas se a época das cheias é um período de provações aos animais terrestres, para a fauna aquática representa um período de fartura. Na época de cheia, os peixes e mamíferos aquáticos invadem os igapós das Anavilhanas, caçando os animais desafortunados que caem no rio, ou estão nadando em ondas migratórias. Como nessa mesma época um número significativo de plantas está frutificando, deixando cair seus frutos senescentes, a presença de cardumes de peixes é ainda maior. É neste momento de cheia que a maioria das espécies de peixes desova nas partes inundadas da floresta, aproveitando a expansão da área de vegetação alagada como abrigo contra os predadores, além dos nutrientes naturais para o desenvolvimento de fito e zooplâncton. Quando as águas descem, os peixes abandonam a área acompanhando a diminuição dos espaços inundados. A competição é maior, mas para os predadores é época de aumento de suprimentos. Algumas lagunas de interior de ilha, que na cheia se conecta com o rio, diminuem bastante na vazante, reduzindo-se muitas vezes a uma mera poça d’água onde os peixes lutam para sobreviver. O mais comum é ver estas poças pulularem de piranhas, famintas e desesperadas, nadando quase na horizontal. Vistas de uma certa distância, essas poças parecem ferver ao sol inclemente, mas é na verdade a constante agitação das piranhas. Na época das cheias é muito comum encontrar nas plácidas lagunas do arquipélago, peixes como o tucunaré, o matrinchã, o filhote, o tambaqui, o acara-açu, o pacu e o pirarucu. Botos, tantos os tímidos vermelhos, quanto os sociáveis e exibicionistas tucuxís, não são raros entre as ilhas. O peixe-boi é mais raro, e em vinte anos nunca os vi pessoalmente naquelas paragens. Há jacarés, do tipo tinga e açu, mas até hoje só avistei nas margens, pequenos e preguiçosos jacaretingas. O arquipélago é uma das maravilhas da Amazônia.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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