Estamos todos perplexos e orgulhosos. Milhares de jovens se comunicaram através das redes sociais a Internet e saíram às ruas externando suas insatisfações.

Todo começou com o preço da passagem de ônibus. De fato, o problema do transporte público se agudizou de tal forma neste país que foi capaz de gerar revolta. As nossas cidades estão congestionadas pela opção governamental de dar incentivos e priorizar o transporte individual. Uma miopia que vem dos anos 70 de optar pelas rodovias em detrimento das ferrovias e navegação de cabotagem. E no Brasil o sistema de transporte público virou território de verdadeiras quadrilhas, que controlam e manipular as autoridades municipais ao seu bel prazer. É mais fácil ter acesso a um documento secreto da Cia que por os olhos numa planilha de custos das empresas de ônibus e formar uma opinião sensata sobre o preço da passagem. O que mais irrita é a atitude arrogante de tecnocrata e alguns prefeitos. No caso do Hadad, de São Paulo, sua mentalidade de tecnocrata frio à favor dos empresários já tinha ficado claro no Ministério da Educação, fazendo encolher as universidades públicas e beijando os pés dos proprietários das escolas privadas. Por isso, lavei a alma vendo os jovens saírem à rua e extravasar a generosidade típica deles. Mas para além do preço das passagens a motivação dos jovens aponta para alguns pontos mais além do horizonte. Primeiro, a traição das esquerdas e a falência dos liberticidas. Quem podia prever que ao fim da longa noite da ditadura civil/militar assistiríamos, envergonhados, as alianças mais espúrias justificadas pelo conceito da governabilidade. Quando da fundação do Partido dos Trabalhadores, imaginávamos uma instituição política moderna, capaz de romper com as oligarquias, varrer de cena o fisiologismo e a cleptocracia, instaurando no país uma sociedade mais justa, mais republicana no trato da coisa pública. Eu sei, eu me lembro, pois eu estava lá. Construindo o partido jamais nos passou pela cabeça que um dia o líder de um governo do PT seria o Eduardo Braga, homem da juventude da ditadura, prócer da ARENA, de caráter antidemocrático e que pensa que o aparelho de estado é privativo de seu grupelho. E repito, não venham me falar em governabilidade, pois esses políticos são os maiores geradores de ingovernabilidade. Pois governar é usar com lisura os recursos do estado, é saber priorizar e buscar soluções para problemas que parecem insolúveis é rechaçar o obscurantismo que luta para acabar com o espírito laico de nossa ainda incipiente democracia. Os jovens que fazem nas ruas esta festa de democracia não parecem muito certos de seus objetivos, atiram para todos os lados, mas a minha esperança é que encontrem um foco, No nosso país tanto a democracia representativa quanto a participativa são legítimas. Por isso não me atemoriza a ojeriza desses jovens pelos políticos e pela política partidária hoje vigente. Eles não se deixam enganar com as migalhas que a Casa Grande deixa cair de suas mesas. É evidente que estas manifestações nada têm a ver com os movimentos de massas do passado, como as Diretas Já e o Fora Collor. O que os jovens querem está ao alcance da mão, desde que nas próximas eleições tomemos como tarefa política varrer os candidatos fisiológicos, os oriundos de seitas obscurantistas e os achadores do erário, O Brasil que soube nos últimos anos promover mais de dez milhões de pessoas da pobreza para a classe média, não pode admitir ter serviços públicos que não condizem com os impostos que o povo paga. Nem é mais possível admitir decisões unilaterais que comprometem o futuro, como está sendo tratada a questão da Copa e das Olimpíadas, que poderiam ser alavancas de melhorias sociais e se tornaram uma Califórnia de enriquecimentos ilícitos e maracutaias, sem falara na subserviência à FIFA. O futuro é dos jovens!

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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