Ícone da música amazonense – Porto de Lenha tu nunca serás Liverpool. O fato é que   Zeca Torres, o Torrinho, e Aldísio Filgueiras escreveram a música que se tornou um símbolo para os habitantes de Manaus.

Durante o ciclo da borracha Manaus foi muito influenciada pelos ingleses. Eles investiram muito por aqui. E havia linha direta entre nosso porto e Liverpool. Instituiu-se até o chá das cinco enquanto   as libras esterlinas serviam de lastro para os negócios envolvendo a borracha natural vinda dos seringais da floresta.

Meu avô Phelippe e seus dois irmãos Daou vieram do Líbano para a Amazônia nessa época. Com certeza  atraídos por este “boom” econômico. Manaus tinha o PIB mas alto do Brasil, afirmam os historiadores em uníssono.

Os Daou tinham uma irmã, Amine, que seguiu com o marido para a longínqua Nova Zelândia. O cunhado dos Daou explicou que sua opção por um país de colonização explicitamente inglesa com certeza teria um sistema Judiciário mais justo e eficaz.

Os descendentes de Amine Daou Francis estão estabelecidos principalmente na cidade de Auckland em Nova Zelândia. Enquanto os descentes de seus irmãos estão em grande parte aqui em Manaus.

Maior cidade da Nova Zelândia, com quase 1,5 milhão de habitantes, Auckland está entre os melhores lugares no mundo para se viver, de acordo com um ranking da revista The Economist.

Entre as razões apontadas pela publicação, está o trabalho de controle da pandemia feito pelo governo neozelandês e a subsequente recuperação da vida em comunidade. O país registrou apenas 26 mortes para cada 200 mil pessoas. Na maior parte do ano, foram poucos casos de infecção.

Nessa segunda quinzena de outubro, quando nossa Manaus faz aniversário, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, por meio do Boletim Covid-19 562, informa o diagnóstico de 24 novos casos. Nesse boletim o Amazonas registrava 427.188 casos da doença e 13.456 o total de mortes. Perdemos muitos amigos e conhecidos. Meus primos de Auckland não sofreram perdas.

Auckland , como Manaus, é um ambiente urbano. A maioria das pessoas está a menos de meia hora de belas praias, de mar naturalmente. Nós aqui também temos belas praias, de rios.

Auckland está inserida num ritmo cultural vibrante. Nós também. Enquanto os neozelandeses vivenciam  o ritmo da cultura polinésia nós vivenciamos a cultura amazônica. Parece que eles, como nós, tem   uma paixão por comidas marcantes. Temos muitas coisas em comum. Mas, definitivamente, nosso Porto de Lenha nunca será Liverpool e Manaus nunca será Auckland.

Feliz aniversário, Manaus.

II

Castanhas. De quem é mesmo?

Desde menino aprendi que a nossa castanha tão presente na culinária amazonense em doces, tapiocas, bolos e quitais, se chama castanha do Pará.

No estrangeiro são conhecidas e portanto exportadas como Brazil nuts. Castanhas do Brasil. Adolescente intercambista nos Estados Unidos fui chamado de Brazil nuts. Aquilo foi só uma brincadeira. Não se tinha conceitos de bullying na minha juventude. “Nuts” em Inglês, no plural, é usado para indicar que alguém está louco, maluco, doido varrido.

Li que o Amazonas tem produzido grande quantidade de castanha do Pará. Meu avô paterno, que foi seringalista, com a crise da borracha, também comercializava peles de animais e castanhas. Conhecidas como castanha do Pará.

Uma rivalidade boba instalou-se entre os amazonenses e paraenses que moram por aqui. A grande maioria não é de Belém. São nossos irmãos da região do Baixo Amazonas. Mais precisamente da Região de Santarém, a cidade do Alter do Chão. Banhada pelo lindo rio Tapajós. Assim, são mais tapajoaras que paraenses. Estão chamando, acho que por birra,  a castanha do Pará, de castanha da Amazônia. Ou do Brasil.

A castanha do Pará é um fruto da família das oleaginosas, assim como as amêndoas e as nozes. Segundo as nutricionistas da hora possuem diversos benefícios para a saúde. Ricas em proteínas, fibras, selênio, magnésio, fósforo, zinco e vitaminas do complexo B e vitamina E.

Por conter antioxidantes, a castanha do Pará  promove a diminuição do colesterol total e melhora o sistema imunológico. Ajuda a prevenir alguns tipos de câncer, como de mama, próstata e cólon. Como tudo, se ingerida em excesso, pode fazer mal.

A castanha do Pará é um fruto da árvore chamada Bertholletia excelsa.  São as castanheiras.  Árvores altas e de grande beleza. A coleta da castanha é feita por extrativistas que vivem no interior das florestas e nas margens dos rios. Passam dias e dias caminhando para coletar os ouriços que caem da castanheira. As castanheiras chegam a viver 500 anos, e podem atingir até 50 metros.

Mas para o caboclo extrativista a castanha é da mangavá (ou mamangava): uma abelha muito grande, que lembra um besouro. Essa abelha é a única que tem força para entrar dentro da flor da castanheira e polinizá-la.  Portanto, a castanha não é nem do Pará, nem da Amazônia e nem do Brasil. Pertence mesmo à mangavá!

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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