“O rio colossal ainda resiste diante de nós, beijando os pés da igreja catedral embora tenha sido aterrado mais adiante, lá pelas bandas da praia da Ponta Negra (…)

Diz muito bem um dos hinos da nossa cidade – aquele que, mesmo sem ter sido o aprovado no começo dos anos 1900 por interferência de Thaumaturgo Vaz, poeta, secretário da municipalidade e autor de outra letra, e do maestro Nicolino Milano, o autor de outra música, sempre se soube e cantou: “Manaus, terra do Barés, dos igarapés, rios colossais”.

Foi assim, desde muito cedo, que aprendi quando ainda no Grupo Escolar “Antônio Bittencourt” para onde era levado todos os dias pelas mãos de minha mãe e-mestra, Sebastiana Braga, e em cujo colégio nas festividades cívicas cantávamos a pleno pulmões.

O rio colossal ainda resiste diante de nós, beijando os pés da igreja catedral embora tenha sido aterrado mais adiante, lá pelas bandas da praia da Ponta Negra e de tal forma aterrado que teria estreitado em cerca de meio quilômetro de sua largura. Os igarapés foram aterrados ou viraram canal de esgoto, seja nos idos bem antigos por conta do embelezamento praticado no começo da República, seja depois, anos a fio, pela sanha destruidora que o tal do progresso impõe.

O igarapé de Manaus, do qual os aguadeiros e a população em geral recolhiam água boa para beber, desapareceu de vez da paisagem da cidade. Em seu lugar foram erguidas residências em alvenaria, em bom aproveitamento da área para não afastar a população menos aquinhoada de recursos materiais das redondezas do centro da cidade.

O do Quarenta, coitado, é esgoto puro, de uma ponta a outra. O dos Remédios, faz quase cem anos que não se fala dele. O do Mindu, atolado de lixo, continua sendo objeto de esperança do povo para que seja revitalizado, pois a nascente estaria preservada. O do Espírito Santo virou Avenida, tornou-se história, antes mesmo da nossa geração surgir. E nada restou dos igarapés da Bica, do Aterro, da Cachoeirinha, da Cachoeira Grande, da Castelhana, do Monte Cristo e de São Vicente. Até os mais distantes do centro antigo, seja igarapés, córregos, riachos ou pequenos braços que alimentavam de sons e de beleza essa terra dos manaó, tiveram suas margens destruídas, invadidas e estragadas para sempre.

A ocupação urbana, organizada ou não, foi fazendo a cidade crescer e alargar de forma horizontal, e foi se estendendo para mais distante na direção de Flores (que nunca teve jardim nem praça), ou para as bandas da rodovia das itaquatiaras, sempre levando de roldão as águas límpidas como as do igarapé do Leão que, faz pouco, tinha águas frias, geladas, correntes e puras. Do mesmo modo que os igarapés que circundavam a parte inicial da cidade os igarapés mais distantes foram sendo perdidos, um a um, tal como os versos que traduziam a graça e a elegância da cidade e chamavam Manaus de “Cidade Sorriso” que também foram sendo esquecidos e hoje ninguém mais fala deles.

A cidade desse aniversário de 350 anos é também mesma que é recheada de fábricas de alta qualidade industrial com produção de modernos aparelhos eletroeletrônicos, expressivo polo de bicicletas, motocicletas, relógios, telefones, computadores … produzidos por homens e mulheres, quase sempre Jovens ou de meia idade, que acreditaram na nova onda da economia mas vivem sobressaltados com a possibilidade do fim dos incentivos fiscais, porque há sempre uma espada sobre nós que não conseguimos diversificar nossa economia no século XXI, tal qual sucedeu no período da exportação da borracha.

A cada esquina há uma faculdade, duas universidades públicas, colégios estaduais, municipais e federais procurando formar as gerações com a projeção do que deverá ser o futuro. Enquanto isso, como sociedade dita civilizada, ainda não fomos capazes de resolver problemas básicos como esgotos que passam a céu aberto água e energia de boa qualidade para todos, segurança para a coletividade, a situação de crianças abandonadas, pedintes nas calçadas, emprego e salário decentes para os trabalhadores … e por aí afora.

Fica uma pergunta: até quando vamos continuar vivendo em nossa cidade e seguiremos cantando “Manaus, terra dos Barés, dos igarapés, rios colossais”, se, ao mesmo tempo, seguimos destruindo o futuro de nossos filhos e netos?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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