A cidade de Manaus foi projetada para abrigar 200 mil habitantes. Ao longo do tempo, em especial na época áurea da borracha, por conta de sua beleza, ganhou o simpático apelido de “Paris dos Trópicos”. Havia de fato, muito do que se orgulhar. Prédios lindos, suntuosos, de que são lembranças vivas, entre outros, o Teatro Amazonas, o Palácio Rio Negro, a Alfândega, o Palácio da Justiça, a Biblioteca Pública etc. Havia, também, praças em todo lugar; paralelepípedos nas ruas; linhas de bonde; sistema de captação de água e esgotos eficientes… Tudo isso entrecortado por lâminas de igarapés translúcidos e emoldurado por avenidas arborizadas.

Essa cidade, infelizmente, nem eu e nem a esmagadora maioria dos leitores chegou a conhecer. O tempo se encarregou de apagar aqueles dias azuis, somente sobrevivem em forma de belíssimos cartões postais, acessíveis, inclusive na Internet, e na memória dos abençoados com a longevidade.

O advento da Zona Franca, que trouxe inegáveis benefícios para a região e para o nosso povo, porém provocou drásticas e deletérias mudanças no cenário urbano. Administradores insensíveis ou relapsos, com honrosas exceções, transformaram o sonho do governador Eduardo Ribeiro num terrível e contínuo pesadelo. A explosão populacional, aliada à falta de planejamento, acabou por contribuir para a descaracterização e para abandono do centro da cidade (prédios históricos negligenciados ou destruídos), para a tomada de seus arredores pelas ocupações (a maioria de seus bairros foi resultado de invasões), bem como por todos os demais problemas, a mobilidade urbana, o meio ambiente degradado (e o aumento tormentoso do calor), a violência e outras questões que nos afligem e que gostaríamos de ver equacionadas. Claro, justiça seja feita, houve intervenções pontuais e significativas, mas insuficientes para a alteração urgente, necessária e radical desse quadro.

Mesmo a Manaus da minha infância, ali entre o final da década de 60 e o início da década de 70 do século passado, tinha muito mais, e a redundância aqui é cabível, qualidade de vida, do que a dos dias presentes. Ainda colhi jambo, manga, ingá, goiaba e outras frutas em terrenos do centro da cidade, acreditem! Ainda peguei palacetes e casario antigos preservados; lindos chafarizes operantes, onde cansei de tomar banho com meus amigos; e até pescar era possível, quando o rio enchia, entre as ruas Pedro Botelho e Quintino Bocaiúva ou, então, nas proximidades das pontes da rua Sete de Setembro.

Quanta saudade!

Hoje Manaus completa 352 anos e a sensação que resta é a de que precisamos, mais do que nunca, pensar no seu futuro com os olhos fixos no passado, a fim de que erros tão graves nunca mais se repitam e seus males sejam minorados. Todos amamos Manaus, que nasceu para a glória e para a luz, que um dia já foi chamada de “cidade-sorriso”, mas que necessita urgentemente de um resgate, de uma parada para reflexão e de traçar um novo e sensato caminho. Com boa vontade, com espírito construtivo, com honestidade e trabalho – há muita gente imbuída desses propósitos – será possível recolocá-la num patamar aceitável de cidadania.

(Texto adaptado e introdutório do projeto “Pensar Manaus, um roteiro para o futuro”, que estou começando a desenvolver.)

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Júlio Antônio Lopes
*Amazonense de Manaus, Advogado, jornalista, escritor e editor. Em âmbito regional é membro da Academia Amazonense de Letras; do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas; da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas - seu atual presidente; da Academia de Letras do Brasil-Am; da Academia de Letras e Culturas da Amazônia; da Associação dos Escritores do Amazonas; e da Associação Brasileira de Poetas e Escritores PanAmazônicos. Idealizador e fundador da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas - a Casa de Bernardo Cabral. Integra, como membro efetivo, a Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas; a Academia Internacional de Jurisprudência e Direito Comparado; a Confraria Dom Quixote; a Associação Nacional dos Escritores, sendo, ainda, sócio correspondente da Academia Carioca de Letras; e da Academia Cearense de Direito;) e sócio honorário da Academia Paraibana de Letras Jurídicas. Faz parte também do Conselho Consultivo da Academia Brasileira de Direito.

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