“A maioria dopovo não se veste de chita nem de seda importada; não usa chapéu de palha, de coco, de sol oude chuva; não caminha pelas calçadas- porque as calçadas são raras-, muitomenos usa cadeiradebalançoaofimda tarde para conversas amenas.”

É costume ouvir nas esquinas e nos salões depoimentos que procuram recuperar a história dopassado distante de Manaus, principalmente da época áurea de sua transformação em grande cidade e capital do Estado Federal do Amazonas, como se dizia nosprimeiros anos da República. Sobre ela, desvendam-se véus nem sempre límpidos nem tão turvos, e o olhar do pesquisador mais arguto vai procurando recompora paisagem dos tempos antigos.

O marco histórico que a civilização ditaeuropeia estabeleceu, a partir de 1669 com a construção do fortimdeSão José da Barra do Rio Negro, nos confere a consagração de 350 anos, rompendo com período mais longínquo e igualmente importante, mas cujos registros são raros e quase sempre indecifráveis pelas nossas Linguagens e simbolismos gráficos.

Fugindodo passadosem assombrações, ponho os olhos nopresente de frente paraa cidadeem que vivemos no século XXI, ou melhor, as múltiplas cidades que temos e que vão se espraiandode forma horizontal para ficarem cada vez mais distantes do centro tradicional de onde tudo começou: as margens do rio Negro.

Há a cidade dos arranha-céus, tanta que foi a multiplicação do IAPETEC, a dos condomínios chiques e fechados como se fossem clubes parapoucos visitantes.

Cada vez mais a cidade crescesem se aperceber das mazelas que vai provocando nos igarapés e nas áreas de florestas nativa e segue formando fila e paredãocomo em qualquer lugar do mundo que se diz desenvolvido.

Pela cópia malfeita de muitos empreendimentos dessa natureza, Manaus não consegue ter a beleza plástica e a elegância de poucas cidades nas quais os edifícios foram bem planejados.

O povo padece com transporte coletivo prestado por empresas privadas quase sempre emgreve, retalhando o Poder Público que procura reagir às investi das do poder econômico; osigarapés aterrados se transformaram em canais de derrame de esgotos; a iluminação pública, mesmo não sendo feérica, em grande parte atende
às necessidades da população; e, embora os esforços dos que se empenham em campanhas de arborização, estamos muito distante doque tivemos nos anos 1960, e, por isso, padecemos com o calor insuportável que aumenta pelo asfalto das ruas, os prédios de grande altura, à perda das praças e parques centrais, e pelo conflito entre a nova arquitetura com uso de espelhamentoe a circulação dos ventos.

A maioria do povo não se veste de chita nem de seda importada; não usa chapéu de-palha, de coco, de solou de chuva; não caminha pelas calçadas – porque as calçadas são raras -, muito menos usa cadeira de balanço ao fim da tarde para conversas amenas.

Quando em casa, a população fica trancada assistindo a novela que trata de tudo da vida dos outros lá do Sudeste e vai levando de roldão nosso jeito simples de falar, nosso modo próprio de viver, nossos hábitos mais saudáveis.

Os campos de futebol de areia que dominavam o interesse da garotada não mais existem.

As quadrilhas, que alegravam as quermesses e serviam de ponto de encontro dos namorados insistem em dançar fora do dia de São João, mas fazem desafio com duelo e tudo mais.

Até o bumba meu boi perdeua tradição -virou show -, e somente o amo consegue tirar um verso, vezenquando, sabe Deus como.

A Ponta Negra ficou um luxo. O Parque Dez de Novembro, a ponte da Bolívia, o igarapé da Pancada, as Pedreiras, o Las Palmas, o Guanabara foram acabando, pouco a pouco.

Empinar papagaio de papel, posar de famão, fazer bailado no céu azul de verão em luta de titãs demonstrando sabedoria e habilidade, foi es mirrando.

Quem brinca vai de jogos eletrônicos e não sabe fazer carrinho de rolimã, jogo de botão de caroço de tucumã e perna de pau, nem brinca de manja-pega porque vem logo o ladrão e abafa sem direito a perdão.

Não é que não veja flores, beleza ou alegria pela cidade que temos, mas esta cidade de 350 anosàs vezes parece que não é a minha.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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