*Antônio Prata 

11 anos na escola e era um analfabeto quando a lateral da folha de PVC rasgava.

A capital do Suriname é Paramaribo. A mitocôndria é a organela celular responsável pela respiração. Metonímia é a parte pelo todo. A área do círculo é ˆr². Os fenícios eram grandes navegadores. Eis aí algumas coisas que aprendi durante os 11 anos cumpridos (e compridos) em regime semiaberto, das sete e quinze da madrugada à uma e meia da tarde, nos cafundós da década de 90.

Não, tô fazendo piada às custas da realidade: estudar não foi uma condenação, frequentei ótimos colégios e sou grato aos professores por me ensinarem o que é uma célula, um poema, por me ajudarem a compreender o que está à minha volta, a 3.000 km ou 3.000 anos de mim.

Uma vez, largado na areia, comecei a especular com uns amigos sobre a distância da ilha à nossa frente.

Como a praia era um semicírculo, sabíamos a sua extensão por conta do meu aplicativo de corrida e a ilha estava bem entre as duas pontas, no centro do círculo, usamos os conhecimentos de Pitágoras para calcular a distância. Naquele dia me senti extremamente grato às minhas professoras de geometria. (E ainda mais grato ao Pitágoras, que chegou àquelas conclusões sem jamais ter sido introduzido a Pitágoras por professoras de geometria nem contava com o sistema de GPS de um celular).

Embora deva muito à escola, tenho algumas críticas à grade curricular. Parece-me questionável que o número atômico do tungstênio seja mais importante do que saber trocar um pneu e por mais que eu concorde que é bacana ter uma noção básica do sistema de vassalagem na alta Idade Média, não valeria a pena incluir no currículo algumas lições sobre como lidar com um pé na bunda?

Sugestão para um dia letivo no primeiro colegial. Literatura: modernismo. Culinária: arroz branco. Matemática: logaritmo. Sobrevivência urbana: troca de pneus em carros Ford (com ênfase no cadeado em caso de estepe externo). História: feudalismo. Comunicação interpessoal: os cunhados e as festas de fim de ano.

Tenho pensado nestes assuntos há uma semana, desde que tive, pelas ondas do rádio, uma das maiores revelações dos meus 41 anos sobre a terra. O responsável pela iluminação chama-se RustyMarcellini. Apesar deste nome de mágico em desenho animado, Rusty é um simpático erudito da culinária e o que ele me ensinou despretensiosamente, no meio da tarde, numa entrada na CBN, é que se guardarmos o rolo de Majipack na geladeira fica bem mais fácil de desenrolar. (Atenção, sonoplastia: gongo).

Eu guardei o rolo de PVC na geladeira. Horas depois, ele se soltou quase como papel higiênico. Não escondeu sua ponta, não rasgou, não se comportou como aquele durex gigante possuído por um exu sarcástico cujo maior prazer é acabar com a paciência e a felicidade de inocentes seres humanos que só queriam guardar meia maçã pra mais tarde.

Fiquei tão empolgado que embalei em Majipack todas as maçãs da fruteira. Depois a própria fruteira. Depois os controles remotos. Depois o sofá. O estepe do carro. O carro. A Joana, que me deu um pé na bunda em 1996, e meus três cunhados.

Onze anos nas salas de aula e era um analfabeto completo quando a lateral da folha de PVC rasgava e eu dava voltas e voltas sem aquela bordinha que ia se avolumando numa das extremidades do rolo como a parede de rochas sedimentares de um cânion cuja sombra obscurecia a esperança no futuro, fazendo com que eu questionasse a possibilidade de qualquer ordem em meio ao caos e duvidasse da existência de um criador onisciente, onipotente e misericordioso. Obrigado, Rusty.

*Escritor. Artigo na Folha de São Paulo, de 18/08/2019
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