*Nabil Bonduki

Nascida na Áustria, perseguida pelos nazistas e levada a um campo de concentração, ela foi a pioneira no desenvolvimento da agroecologia.

A pioneira da agroecologia no Brasil e uma das maiores pesquisadora do tema no mundo, Ana Maria Primavesi faleceu ontem em São Paulo, deixando um legado em favor da vida em um momento de grandes incertezas sobre o futuro do meio ambiente no Brasil e em todo o planeta.

No ano em que a Amazônia ardeu e em que o governo Bolsonaro aprovou a utilização de 439 novos agrotóxicos (recorde histórico), 34% dos quais com substancias proibidas pela União Europeia, as pesquisas e a experiência prática de Primavesi mostram que é possível fertilizar o solo e evitar as pragas utilizando a adubação verde e biológica, sem usar veneno.

Primavesi, que completaria 100 anos em outubro, era como uma Samaúma, árvore centenária da Amazônia, que resistiu ao tempo e à barbárie, fertilizando a terra.

Nascida na Áustria, foi uma das raras mulheres que se formou na Universidade Agrícola de Viena nos tempos sombrios de Hitler. Perseguida pelos nazistas, ajudou na fuga de refugiados judeus, foi levada a um campo de concentração e viu vários membros de sua família serem mortos durante a 2ª Guerra.

Mudou-se para o Brasil em 1946. Como professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (RS), foi a pioneira no desenvolvimento da agroecologia, termo que deriva dos seus trabalhos, contribuindo para a organização do primeiro curso de pós-graduação em agricultura orgânica no Brasil e para a criação da Associação de Agricultura Orgânica (AAO).

Primavesi foi capaz de enxergar e compreender o invisível: a vida microscópica contida no solo. Suas pesquisas apontaram para uma agricultura que privilegia a atividade biológica do solo com um alto teor de matéria orgânica, substituindo o uso de insumos químicos por técnicas como a da adubação verde e o controle biológico de pragas, entre outros.

“Um solo sadio gera uma planta sadia, que não será atacada por pragas pois na natureza “praga” é um grande indicador que naquele solo falta algo e portanto a planta não está bem nutrida”, escreveu Primavesi em um dos seus muitos livros.

Em “Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais”, a pesquisadora inovou em estudo sobre as especificidades da agricultura em regiões de clima quente, que exige um tratamento do solo diferenciado em relação ao realizado nos países temperados. A obra tornou-se uma referência em todo o mundo.

Ela foi, ainda, uma das pioneiras nas técnicas de preservação do solo e recuperação de áreas degradadas, abordando o manejo do solo de maneira integrada com o meio ambiente. A compreensão do solo como um organismo vivo e com diversos níveis de interação com as plantas foi uma das suas contribuições para a agronomia.

Agroecologia gera renda

Temperos plantados no terreno de Delfino Oliveira, 23, na zona rural de Esperança, sertão paraibano Divulgação/FBB

Almir Oliveira, irmão de Delfino, em meio à plantação da família na zona rural de Esperança, sertão paraibano Divulgação/FBB

A agricultora Marlene Pereira, 46, expõe os produtos que vende na feira agroecológica de Lagoa Seca, no sertão paraibano Divulgação/FBB

Após sua aposentadoria, colocou em prática esses conceitos em seu sítio em Itaí (SP), transformado em um laboratório vivo de agroecologia e manejo ecológico do solo. O local estava degradado e infértil nos anos 1980, quando foi adquirido pela pesquisadora; algumas década depois, suas matas e nascentes estava recuperadas e o solo fértil.

Ainda pouco conhecida do grande público brasileiro, apesar de imensa adesão que vem ganhando a agroecologia, Primavesi, como uma árvore frondosa, “lançou tantas sementes que agora o mundo (e o Brasil) está repleto de mudas vigorosas, prontas a enfrentar as barreiras que a impediram de crescer.”, como foi publicado em sua página no Facebook.

Muitas dessas sementes e mudas vigorosas estão em São Paulo. São visíveis nas dezenas de feiras orgânicas espalhadas pela cidade, nas hortas urbanas e periurbanas que mobilizam coletivos e grupos de jovens, no desejo crescente das pessoas consumirem produtos sem agrotóxicos. Os “banquetaços” têm reunido milhares de pessoas em defesa da alimentação saudável.

A mobilização em torno do tema foi essencial para ampliar o escopo do Plano Diretor Estratégico de 2014. A agroecologia apareceu com tanta força nos debates que um instrumento tradicionalmente voltado para as questões urbanas e para o ambiente construído ganhou uma perspectiva mais ampla e holística.

A Zona Rural, equivocamente extinta em 2002, foi recriada e foi regulamentado o pagamento de serviços ambientais, destinado a agricultores que promovessem, entre outros, a recuperação de matas e nascentes (com fez Primavesi em seu sítio) e a conversão da agricultura convencional para a orgânica.

Comida da rua

Terezinha dos Santos Matos em sua horta, em São Mateus, Adriano Vizoni/Folhapress

Sebastiana Helena de Farias, em sua horta, em São Mateus Adriano Vizoni/Folhapress

Como desdobramento, aprovamos uma lei que estabelece a obrigação de toda a alimentação escolar ser orgânica até 2027, criando um mercado forte para estimular a agroecologia. O programa Ligando os Pontos, que busca conectar produtores e consumidores de produtos orgânicos, fortalece essa economia circular.

Em 2016, como uma de suas mudas, tive a honra de homenagear Ana Primavesi com o título de Cidadã Paulistana por sua contribuição para a cidade. Com ela, aprendi um pouco mais sobre a importância da agroecologia para o futuro da nossa sobrevivência na terra.

*Professor e Arquiteto. Matéria na Folha de São Paulo, de 06/01/2020.
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