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*Alberto César Araújo

Seus instrumentos já passaram pelas mãos de violonistas como Robson Miguel e Sebastião Tapajós. Mas o luthier Isaias Antônio não perdeu seu jeito caboclo de ser. Itacoatiarense de 37 anos(?), cidade conhecida pelo pólo madeireiro e descendente de uma família com tradição na carpintaria de barcos e outra de músicos.

Isaias conseguiu unir os ensinamentos do tio Francisco, exímio fabricante de barcos, com o gosto refinado da música clássica passando pelos avós paternos. Desde muito pequeno confeccionava seus brinquedos com a madeira encontrada na oficina do tio e depois iam aprender Villa-Lobos, Bach, e Beethoven com os avós. Na adolescência veio o chorinho, a bossa nova, e o desejo de fazer seus próprios instrumentos. Hoje quando entra em algum casarão da “belle epoque” em suas andanças como o “flâneur” pelo centro histórico, com sua visão romântica vê nas portas de jacarandá, sons e formas assim como quem entra pela floresta e ouve o som das folhas e começa a sentir uma paz de espírito invadir o seu ser e ao se deparar com uma árvore caída, imagina tudo em forma de música.

É com esta visão de reaproveitamento da matéria-prima que o luthier amazonense vem se destacando no cenário nacional em busca da sua obra-prima. Conheça um pouco deste artista que como se define: “pacato e humilde”.

ACA – Descreva qual a sensação de ver um instrumento pronto? Por que durante o seu trabalho deve haver todo um processo, desde a escolha da madeira até a sua finalização e em que você se inspira para criar as formas e dar um toque pessoal à arte?

Isaías – Toda obra leva a cara do artista. Por exemplo, assim… a minha inspiração vem através daquilo que eu projeto em minha mente, para passar para o papel e chegar até a madeira.  Para fazer um instrumento leva todo um processo. Mas o mais importante é a primeira coisa, a vontade de fazer e fazer bem feito. Porque quando você vê o instrumento pronto, e ele corresponde a tudo aquilo que você projetou como seria, é uma sensação maravilhosa.

ACA – Porque você optou em trabalhar com resíduos de madeiras, que demonstra ser uma preocupação em ser ecologicamente correto, e ainda não trabalha com madeira certificada?

IA – A madeira certificada com selo verde dado pelo FSC, organismo internacional que regula esta categoria, ainda é um processo novo. Eu tenho uma certa dificuldade em conseguir este material e é muito caro. Mas eu trabalho com a madeira extraída da floresta, mas de forma ecológica também, busco aquelas madeiras que estão caídas, por motivos naturais, chuva, vento, esses troncos que a priori não serviriam mais para nada eu quero transformá-los. Também procuro na cidade no centro histórico. Quando há demolições dos prédios abandonados, entro em contato com o responsável e adquiro portas, janelas. Sempre há nos prédios antigos uma porta de madeira nobre. Dessa forma há agregação de valor no trabalho.

ACA – Como se deu sua participação na OELA – Oficina Escola de Lutheria da Amazônia, fundada em 1998 para atender jovens da periferia de Manaus?

IA – Foi uma experiência muito importante para mim. Porque quanto mais a gente ensina, mais aprende. Fui um dos fundadores e criadores deste conceito de socialização dos jovens, mas tive que me afastar. Toda troca de experiência vale demais para mim. Na época não se tinha os recursos que se têm hoje, a gente sobrevivia de um sonho. Foi uma época muito importante. Mas me orgulho por ter contribuído para que ele tenha acontecido. Tem muita gente lá que merece este projeto.

ACA – Como se deu seu rompimento com a OELA?

IA – (Desconversando) Foram algumas não conformidades. E eu não satisfeito, fui tocar minha vida.

ACA – Quais as perspectivas para a lutheria no Amazonas?

IA – São muito grandes as possibilidades. O Estado possui as últimas reservas de floresta intocadas pelo homem. Já foi o tempo que por nossa ignorância, se derrubavam as árvores para a confecção de instrumentos. Aqui não tem uma tradição de fabricação, o que fica mais reservado ao polo do Rio de Janeiro e São Paulo. Mas aqui tem crescido bastante a arte da lutheria. A própria OELA já formou várias turmas, e lá eles têm essa preocupação com o meio ambiente. Não sei nem o número de luthiers que hoje existem na cidade, porque ela, a OELA já formou muita gente. Antigamente quando a gente ia expor os instrumentos em Manaus, as pessoas viam os violões no valor de 3 mil reais, por exemplo, e riam. Perguntavam se eram feitos de ouro, ou, “por que esse instrumento vale tanto assim?”. Não se tinha o conhecimento do nosso trabalho. Para se fazer um violão no mínimo se leva 45 dias. Não se tinha consciência do valor artístico. A gente tem esperança que isso tenha mudado.

ACA – Como está o mercado, hoje?

IA – Com relação ao mercado,  ainda é restrito, bastante fechado, mas há saídas para se expandir. Hoje fabrico em média 10 instrumentos por ano. É um trabalho rico em detalhes, não se pode acelerar uma colagem. Isso requer tempo. Há o tempo de envelhecimento e maturação da madeira, que tem que ser preparada para poder ser usada. Não pode haver contaminações, sujeiras, alguns elementos químicos têm que ser retirados, a confecção de um braço de violão ou de uma roseta(aquele círculo em volta da abertura), é rica em detalhes. Diferentemente da indústria que pega perfil de consumidores padronizados no caso da lutheria tudo é individualizado, personalizado. Por isso há muita dificuldade nisso tudo.

ACA – Há uma representação da categoria, uma associação, um sindicato? Como vocês estão se organizando para superar as dificuldades?

IA – Associação ainda não temos. Há uma grande quantidade de pessoas que fabricam instrumentos. A OELA já formou muita gente. Antes dela tinham poucos luthiers. Agora a lutheria está em expansão, vamos precisar deste tipo de organização.

ACA – O que você enfatizaria desse conceito de unir lutheria e ecologia e qual o legado desse tipo de lutheria?

IA – O que eu fui não interessa muito, o que importa é o que eu vou ser, e o que eu vou ser para as outras pessoas, as novas gerações, que vão precisar muito do nosso conhecimento de hoje. O que vale é saber que da minha forma pacata e humilde eu contribuí para alguma coisa. Para mim isso é muito importante. O nosso conceito de lutheria ecologicamente correto é novo. Em outros países se derrubam árvores da forma mais brutal possível. E muitas vezes somos criticados por ainda termos a nossa floresta em pé.

Quando a gente entra na floresta já sente aquele ambiente de paz, prazeroso. Quando encontro uma peça não vejo aquilo como um pedaço de pau, uma tora de madeira qualquer, eu já penso na forma do instrumento, dos sons que sairão dele, e ele levando prazer para as pessoas. E o importante é saber que o meu instrumento vai causar boas sensações de prazer e alegria em ver a satisfação da pessoa tocando.

 

* Repórter fotográfico
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1 COMENTÁRIO

  1. Importantíssimo o papel desempenhado por Isaías Antônio. Recordo-me que, há 2 décadas aproximadamente, José Raimundo Lopes (então meu professor do ensino básico) me levou junto com outros alunos para conhecermos o que era Lutheria! Até aquele momento não fazia ideia do que era ROSETA e MACHETARIA, por exemplo! Fomos à velha Casa de cultura de Itacoatiara, e lá estava o luthier Rubens Gomes (estou quase certo que é esse o nome), diante de algumas bancadas com peças de madeira e aquilo que seria transformado em instrumento musical. Foi fantástico para nós, jovens, que não sabíamos como era fabricado um violão! Jamais esqueço da técnica de colar resíduos de madeira de diversas colorações e depois cortá-los para montar a tal ‘roseta’ como uma espécie de mosaico! Tudo bem original! Essa é a ‘machetaria’! Que arte! Hoje, com o meu olhar de poeta, digo que um luthier é primo de um parnasiano, mas que põe em seu produto um encanto a mais! Parabéns, Isaías, continue com o ofício de metamorfosear os resíduos em arte sonora!

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