Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Civilizações mais longevas conseguiram incluir povos e regiões dominadas na política e na economia, mostram historiadores.

Os cerca de 200 países independentes cujos contornos se espalham pelo mapa-múndi atual são, quase sempre, uma invenção geopolítica, com décadas ou, no máximo, poucos séculos de existência. Ao longo de milênios, o cenário foi dominado por impérios.

Estados com características imperiais, nascidos em locais tão diversos quanto a Índia, a Itália ou os Andes (sem falar no Brasil), forjaram-se invariavelmente a ferro e fogo, mas sua influência histórica transcende a mera brutalidade que hoje associamos ao termo “imperialismo”. A maneira como cada um negociou e definiu identidades e fronteiras segue tendo impacto no mundo moderno.

Esse é o mote de “Impérios: Uma Nova Visão da História Universal”, livro de Jane Burbank e Frederick Cooper, professores de história da Universidade de Nova York. Embora a dupla destaque logo de cara que seu objetivo é analisar apenas alguns impérios-chave, em especial os da Eurásia, a diversidade de instituições imperiais que abordam é grande o suficiente para abordar o fenômeno de forma abrangente.

A maneira como autoridades imperiais exerceram seu poderio determinou, em grande medida, o destino de tais entidades. Isso porque impérios são, por definição, entidades multinacionais –e frequentemente multiétnicas– submetidas a um controle central, o qual muitas vezes (ainda que não necessariamente) não está preso a amarras constitucionais.

Conforme mostra o livro, potências imperiais podem nascer como ferramentas de uma etnia dominante que passa a explorar outros grupos como súditos, mas quase nunca se mantêm dessa maneira por muito tempo. Os impérios longevos são aqueles capazes de encontrar mecanismos de incluir parcialmente povos e regiões dominadas nas entranhas da política e economia imperiais – a questão é como.

A comparação entre Roma e a China antiga, que dá o pontapé inicial à narrativa de “Impérios”, é especialmente instrutiva nesse sentido. Ambos os impérios unificaram por séculos regiões vastas, nas quais antes predominavam entidades políticas muito menores; ambos se definiam como a sede da cultura civilizada, por oposição aos “bárbaros” do lado de fora.

E ambos também criaram sistemas para atrair as elites dos territórios conquistados, e mesmo os tão vilipendiados bárbaros, para o seu lado -mas com diferenças consideráveis. O Império Romano, por exemplo, estendeu paulatinamente os direitos de cidadania a gente que vivia muito longe do núcleo original da cidade-Estado de Roma, até decretar, por fim, que todos os homens livres eram cidadãos romanos.

“[O fato de que a cidadania romana era cobiçada implica que nem todos a possuíam. Mas a forte crença dos romanos na superioridade de seu estilo de vida era acompanhada pela ideia de que todos os povos, por mais bárbaras suas origens, poderiam fazer parte da humanitas, caso fossem devidamente instruídos. Ainda assim, apenas um tipo de humanidade podia ser chamado de civilizado: o romano”. Trecho de “Impérios: Uma Nova Visão da História Universal”

Esse processo foi acompanhado de um sistema que poderíamos chamar de “Estado mínimo”. As províncias pagavam impostos e sustentavam o Exército, mas boa parte do cotidiano do governo e dos gastos com infraestrutura ficava a cargo das elites locais, as quais governavam em nome do imperador algo que, de certa forma, era uma coleção de cidades-Estado independentes.

Já os imperadores chineses tomaram de modo mais direto as rédeas da administração provincial, formando uma classe de burocratas oriundos dos domínios imperiais, mas educados e geridos de forma centralizada. Os efeitos uniformizadores dessa prática talvez expliquem o fato de que hoje ainda exista um Estado chinês de dimensões imperiais, enquanto os domínios de Roma tenham se fragmentado.

A última afirmação talvez seja injusta com os romanos, considerando que a porção oriental de seu “imperium”, governada a partir de Constantinopla (atual Istambul), tenha sobrevivido por mil anos após a queda de Roma no Ocidente. O Império Romano do Oriente, assim como seu maior inimigo imperial, o califado fundado pelos sucessores de Maomé, apostaram na unidade ideológica trazida por uma nova fé monoteísta (o cristianismo e o islamismo, respectivamente) para manter sua coesão e capacidade de expansão.

A estratégia não evitou o desmantelamento progressivo de ambas as potências. Forças imperiais igualmente bem-sucedidas que emergiram mais tarde mostraram que era possível manter o domínio de áreas vastas permitindo e até fomentando as diversas vertentes religiosas e culturais de seus súditos – durante muito tempo, foi esse o caso do Império Otomano, da Rússia pré-soviética e mesmo dos mongóis.

Existem impérios modernos? A resposta dada pelo livro é ambígua, mas não é possível negar, segundo os historiadores, que potências como os EUA, a China e a Rússia ainda empreguem ferramentas típicas do repertório imperial. Eis mais um motivo para ter em mente antes de achar que a história dos antigos impérios se tornou irrelevante.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 04/01/2020.
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