fernanda torres
*Fernanda Torres

O sol, o céu, a terra e o ser humano são parte inseparável da arquitetura dela.

O fotógrafo sugeriu que eu e minha mãe posássemos em frente à Odalisca do Ingres com cabeça de gorila, do grupo Guerrilla Girls, que combate o sexismo e o machismo na arte.

A obra se encontra na parede do fundo do grande salão do Masp, e faz uma pergunta incômoda: as mulheres precisam estar nuas para serem exibidas naquele museu? Dos artistas da mostra permanente, só 6% são mulheres, contra 60% de nus femininos em exposição.

Admiro o Guerrilla Girls, mas não quis ser fotografada em frente ao trabalho. Os percentuais dizem muito, mas a grande invenção chamada Masp é fruto da cabeça de uma mulher: Lina Bo Bardi.

Achei injusto chamar atenção para a supremacia masculina do acervo, em vez de destacar o gênio da italiana que projetou São Paulo para o futuro e, segundo Caetano Veloso, fundou a civilização baiana.

Não conheço nada que se compare ao Masp. Os totens de vidro e a perspectiva vazada, que provoca a sensação de tempo e simultaneidade. A frente e o verso das pinturas à mostra, o quadro como objeto. O protesto das Girls era pequeno, diante daquela obra de arte que incluía todas as obras de arte.

Eu desconfio que o Rio de Janeiro perdeu o bonde da história quando abriu mão de Lina Bo Bardi. Ela passou por aqui, encantou-se com o edifício Gustavo Capanema, pensou em ficar, mas foi São Paulo e Assis Chateaubriand que lhe abriram as portas. O carioca a ignora, seu nome não é mencionado na escola e não há prédios seus para se visitar na cidade.

Graças ao convite do artista plástico Isaac Julien de encarná-la em duas idades distintas, ao lado de dona Fernanda, pude me curar da estupidez atávica. Durante dez dias, entre Salvador e São Paulo, filmamos instantes de Lina para uma instalação cinematográfica do inglês.

Do abandonado restaurante Quati ao Solar do Unhão, do teatro Gregório de Mattos à Casa do Benin, do Sesc Pompeia ao Oficina, habitamos a arquitetura “pobre sem ser indigente, que busca atingir o máximo de resultado com o mínimo de recurso.”

As janelas buraco, que remetem às cavernas, aos escombros da guerra e Platão; as pontes a céu aberto, que não protegem das intempéries; o uso do concreto bruto, feito para resistir ao país do descaso; o valor do artesanato, não como folclore, mas como afirmação de uma necessidade urgente de expressão.

O atropelo com que passamos do neolítico ao modernismo, com Lina, transforma-se em apropriação vantajosa.

O Brasil já teve a ambição de ser singular. Desejo que se perdeu no consumismo duty free de aeroporto, nos musicais da Broadway, que produzimos aos montes; nos teatros de shopping, no apreço por Romero Britto e na cafonice Lacoste de João Doria.

A riqueza de São Paulo viabilizou o Masp. Hoje, prefere emparedar um dos mais belos legados de Lina, o Teatro Oficina, num mausoléu de espigões. O Oficina não existe sem a luz de sua janela, sem o parque do Bexiga, previsto no projeto original.

O sol, o céu, a terra e o ser humano são parte inseparável da arquitetura dessa mulher, do seu olhar feminino, sensível às relações entre as coisas. Sugiro que Bruno Covas e Silvio Santos passem cinco minutos em silêncio, admirando a cidade através de uma das janelas caverna. Não há como não sair dali transformado.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C4, de 29/06/2018.
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