Já vimos que não é simples formar cidadãos leitores. Países como a Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos, entre outros, ‘conseguiram elevar o número de jovens que saem da escola leitores, através de um processo complexo, que exigiu rigor na aplicação dos recursos, continuidade e muita disciplina, embora não tenham escapado do baixo índice de leitores efetivamente formados.

Este índice aparentemente baixo, de outro lado, também indica que o ato de ler não é um hábito que se pegue por osmose ou por saturação. E neste ponto concordo que se trata de uma opção, uma escolha, que a escola aponta o caminho, mas outras instâncias conspiram a favor e contra: ambiente familiar, classe social, etnia e religião. Uma família de não leitores, uma classe social que não sente necessidade de ler, uma etnia que não conhece a leitura e uma religião que segrega seus fiéis, dificilmente produzirá leitores, por melhor que seja a escola. Esta escola produzirá alfabetizados, leitores funcionais, com a habilidade de ler suplementos esportivos, tabloides de escândalo ou publicações confessionais. Na Amazônia, por exemplo, até quase meados do século XIX a língua portuguesa não era hegemônica. Quase todo mundo falava um idioma indígena materna e o nheengatu, a boa língua. Em muitas câmaras de vereadores o trabalho de secretariar as sessões e redigir as atas era confiado a índios alfabetizados nas missões católicas, já que os senhores vereadores não sabiam ler ou escrever. Em 1827, há apenas três escolas na Província do Amazonas, sendo uma na Barra (Manaus), outra em Barcelos e outra em Moura. Em 1800, uma escola de primeiras letras havia sido criada em Barcelos (então, capital da província). Mesmo levando em consideração as diversas mudanças, o currículo escolar era limitado, segregador (apenas os filhos de gente abastada), determinado pelo poder político, que também nomeava o professor e proibia a iniciativa dos particulares. O currículo abrangia as primeiras letras, a educação física e moral, caligrafia, doutrina cristã, numeração e primeiras regras aritméticas, estudo de gramática, noções de geometria aplicada às artes, história natural, história sagrada, história do Brasil e geografia. Para as escolas femininas, estava acrescido o currículo com a matéria de prendas domésticas.

Uma escola melancólica para formar dóceis súditos, nunca uma elite pensante e criativa. Em 1848 é fundado na Barra (Manaus) o que poderia ser chamado de estabelecimento de ensino secundário, o seminário de São José, lecionando gramática, francês, música e canto. Mais tarde, aritmética, álgebra, geometria, filosofia, retórica e geografia, abrigando uma média de cinquenta alunos. Uma transmissão desfibrada do saber, que virou tradição no primeiro reinado, onde prevaleceram as soluções burocráticas. O jovem era obrigado a receber uma educação que se compromete a refletir um sistema tradicional de ideias consideradas universais e desligadas das necessidades do cotidiano, beirando a intolerância e o proselitismo. A educação será outro dever enfadonho da oligarquia iletrada. Com isso, tivemos no Amazonas uma forma de educação incapaz de formar um pensamento original, tão necessário aos processos de transformação. A educação era sempre um momento da infância e da adolescência, necessário e irritante, que provê o jovem de um título para concorrer a certos cargos públicos, bem como de certas habilidades práticas como redigir cartas, assinar o próprio nome e contar o dinheiro. Firmava se, naquela época a mitologia bacharelesca de que a Educação é um título em letras góticas sobre um pergaminho, que alguns poucos um dia poderão receber em tocante solenidade e em trajes domingueiros.

Compartilhar
Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui