*Sebastião Vital de Mendonça

 

JOÃO BATISTADE MENDONÇA, meu irmão (04.09.1928/03.04.1957) – Em Itacoatiara, AMAZONAS, ao terminar o curso primário, em geral aos 12 anos de idade, poucas crianças conseguiam continuar os estudos na capital.  Graças ao apoio do Gerson, irmão que morava em Manaus, o João concorreu e foi aprovado no difícil exame de admissão para o excelente colégio público, o Ginásio Amazonense.  Lembro, em criança, que nas férias do meio e fim de ano, ele chegava da capital com muitas novidades, dentre tantas, o jogo de botão.  O time dele era o Flamengo, os botões feitos de   jarina, semente de palmeira amazônica que, por ser branca e muito resistente, chegaram a chamar de mármore vegetal.  O resto da garotada formava seus times com botões de roupa, de madeira ou de caroço de tucumã.  Ele e o Jorge1, que defendia o Fluminense, levavam a sério os campeonatos, com tabelas, campos demarcados no chão das salas, juízes e até locutores.  A mim deram o São Cristóvão, depois, por uma desistência, o João me fez Vascaíno, time pelo qual torço até hoje. Para terem ideia de como o João era espirituoso, alegre e gozador, certa vez o Wilson, um dos irmãos que o ajudavam nos estudos, comentou sorrindo – João, tuas cartas não me trazem notícias, só pedem dinheiro.   Na carta seguinte, ele fez duas páginas só de notícias, não pediu dinheiro, mas todas as letras “S” foram trocadas um “$”!.  Começou emancipar-se trabalhando no IBGE quando também escrevia, com inteligência e humor, uma coluna intitulada Zé Ouvinte, muito lida no jornal A GAZETA.   Sempre gostou de futebol. Certo dia, assistíamos a um jogo dele num pequeno campo nos arredores de Manaus. Em certo momento, o Pedro, nosso irmão, entrou em campo disposto dar uma surra no adversário que dera uma forte entrada derrubando perigosamente o João que, levantando rapidamente, segurou o Pedro dizendo “calma mano, não houve maldade, é do jogo”. João mudou para Belo Horizonte em 1950, para tratar de tuberculose que atingiu muitos de meus irmãos.  Em setembro de 1956, na minha primeira viagem ao Rio, fui visitá-los, viajando de trem Vera Cruz e ele foi me receber na estação. Logo lhe pedi que me indicasse um hotel. Com largo e peculiar sorriso

me respondeu – “teu hotel é lá em casa e tu vais dormir no chão!”. Dessa estada, restam-me lembranças de momentos maravilhosos.   Maria Thereza, gestante de muitos meses, mostrava-se tranquila apesar de ter a casa cheia, pois hospedavam também o Gerson e família. João, fã da rainha do rádio daquele ano, me levou a comprar um compacto de Clara Nunes, que despontava cantando Arriverdeci Roma.  Depois, com Gerson e família, fomos de avião a Campanha do Sul, onde morava a mana Tereza e seu esposo Hélio Mallet. Lá encontramos, também em visita, a mana Ermelinda e o cunhado Gerardo.   O casal anfitrião ficou em casa descansando.  Agora, vejam a bela históriaa seguir:   Como estudante de enfermagem na Faculdade Hermantina Beralda, de Juiz de Fora, Maria Thereza dera inúmeros plantões na Santa Casa de Misericórdia da mesma cidade.   Após formatura, foi designada para trabalhar em Juazeiro, na Bahia, onde foi surpreendida com uma doença pulmonar, certamente adquirida nas frias noites de seus plantões.  Para tratamento de saúde fora deslocada para a sede do SESP, no Rio de Janeiro e, daí, com rápida recuperação, foi encaminhada a Belo Horizonte para, após repouso em quarentena, retornar ao serviço.  Para complementar uma documentação, precisou ir ao Laboratório do IPASE de BH.   Justo nessa mesma manhã de março de 1953, no mesmo horário em que aguardava atendimento, um jovem estranho, de boa aparência, atencioso, simpático e alegre começou a conversar com ela dizendo que estava alí pela primeira vez para realizar um exame.   O mundo conspira!    Mineira discreta e cautelosa – dizem que mineiro é desconfiado – em princípio ela o achou muito apresentado mas, aos poucos o João lhe foi ganhando a confiança para novos  encontros que resultaram em namoro e, em  exatos 18 meses,  no dia 29 de março de 1954, ela passou a chamar-se Maria Thereza Gomes de Mendonça, em casamento realizado na cidade de Resende Costa, terra natal da noiva,  residência de sua  tradicional e numerosa família. Bastante incentivado pelo Sr. Prudêncio Gomes, pai de Maria Thereza, o João decidiu continuar os estudos, interrompido em Manaus, reiniciando na 3ª. Série de Direito.  Nessa época de estudante, ocorreu um fato interessante.  Numa de suas viagens a Rezende Costa, foi convidado a participar improvisadamente como advogado de defesa num evento tradicional na cidade, tipo um teatro, em que todo ano era simulado o julgamento de um réu. Ao final, foram bastante aplaudidos pelo público presente.  Além dos aplausos, João recebeu muitos elogios pelo seu desempenho, tendo sido realçado como brilhante pelo advogado de acusação, que, naquele ano, em vez de um leigo, atuara o competente e respeitado Promotor de Justiça da cidade.  Para concluir os estudos, suas notas finais do 5º ano, lhe garantiam estar entre os Bacharelandos em Direito, porém, sua ausência na formatura, mereceu emocionantes homenagens que as cartas convites dirigidas a Maria Thereza, resumidas a seguir, falam por si só:

Da Faculdade de Direito de Minas Gerais – 20.11.57 – Constando da programação oficial da formatura dos bacharelandos, fazemos-lhe um convite para solenidade em homenagem que prestamos ao saudoso colega, não é mera formalidade, como poderia parecer, pois que num convívio de pouco tempo soube conquistar a nossa eterna amizade e a admiração de todos os professores (a) Marcio Bruno Von Sherling e Adolfo Pereira Filho.

Da Diretoria Acadêmica da mesma Faculdade – Convite para,   em 9.12.1957,  Maria Tereza comparecer à homenagem  para descerrar,  na Sala dos Parlamentos dos Alunos desta Faculdade, a placa “Sala João Batista de Mendonça” na presença de formandos, professores e demais colegas (a) Roberto P. de Cerqueira, Secretário Geral e Olímpio Porto Botelho, Presidente.

Se considerarmos somente a contagem de tempo aqui da terra, o João se fez presente por apenas 4 meses e 11 dias  na vida de  uma linda criança, fruto de muito amor do casal, o Joãozinho, nascido em 20.11.1956, hoje um belo jovem senhor que serve de  orgulho para sua mãe, pelos valores de  caráter, bondade  e inteligência,  com forte lembrança de  traços físicos e espirituais de seu pai.

1Jorge Bonifácio de Lima, em 2019 faz 94 anos, está bem, mora em Manaus, é meu irmão por ser filho de Floro Rebelo de Mendonça, meu pai adotivo.

2Agradeço a colaboração da cunhada Maria Thereza, e do João Batista Filho, que muito me ajudaram com informações que me permitiram prosseguir e enriquecer este texto.

*Natural de Itacoatiara, onde fez o curso primário, no Colégio Coronel Cruz. Ainda, em sua terra natal, trabalhou na Farmácia de Francisco Ferreira Athaide e Jurandir Pereira da Costa; no Escritório do Despachante Floro Rebelo de Mendonça (seu pai de criação); com seu irmão Antônio Vital de Mendonça, em Contabilidade; como cobrador da Prudência e Capitalização no escritório de Ilídio Ramos & irmãos; e em Contabilidade e Atendimento na Agência local da Panair do Brasil. Transferido para Manaus, após servir à empresa I. B. Sabbá, fez concurso o Banco do Brasil e Banco da Amazônia, logrando em ambos o primeiro lugar. No Banco do Brasil trabalhou dois anos em Manaus. Transferido a pedido para o Rio de Janeiro onde se aposentou em 1991, com 41 anos de contribuição ao INSS e 28 anos ao Banco.

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