Juras de amor a dois senhores
Juras de amor a dois senhores

“Respondendo com gratidão a sua própria nomeação para governador, Thaumaturgo não contou conversa e mandou telegrama de apoio ao marechal crônica”.

Manaus vivia os primeiros tempos da implantação da República, tendo passado pelo breve governo da junta de intervenção e dias não muito claros e seguros com Ximeno de Villeroy, e ainda respirava ares de saudade do maranhense que, por pouco tempo, ocupara o palacete governamental da praça da República, antiga do imperador.

Descarregado do Piauí onde exercera quase como relâmpago o cargo de presidente do Estado, Thaumaturgo de Azevedo, agrimensor que conhecia as terras amazonenses onde estivera medindo e demarcando propriedades, foi nomeado para governar o Amazonas, contrariando boa parte das forças políticas locais, inclusive as tradicionais que mandavam e desmandavam desde anos muito antigos do tempo do império.

Chegando à capital com os cargos públicos e a engenharia política resolvida pelo barão de Juruá que era o vice-governador, Thaumaturgo soltou os cachorros pra cima dos políticos, anunciou mudanças profundas e reformas indesejáveis, assinalou caminhos para uma necessária reforma agrária, e se destemperou com quase todas as pessoas influentes da cidade.

Como se não bastasse isso, quando Deodoro da Fonseca e o barão de Lucena resolveram fechar o Congresso Nacional, respondendo com gratidão à sua própria nomeação para governa dor, Thaumaturgo não contou conversa e mandou telegrama de apoio ao marechal, solidário “com todo o povo amazonense”, ao ato desatinado que terminou por levar o velho guerreiro à renúncia da condição de presidente da República.

Assumindo Floriano Peixoto, o marechal de Ferro, determinado a substituir os deodoristas de todos os cargos possuído por essa sanha indomável que se enraizou no país de mudar por mudar para- colocar amiguinhos e correligionários sem reconhecer a competência das pessoas, assumindo Floriano, eis que, com a maior cara de pau o coronel Thaumaturgo passou um novo telegrama, desta feita manifestando solidariedade ao vice-presidente da República, tal como fizera com Deodoro.

De nada serviu o gesto subserviente – como de resto não servem para nada atitudes dessa natureza – porque Floriano não deu bola para a bajulação e mandou sacar do palácio o juramentado governador, fazendo tudo’ de tudo, com forças militares de terra e mar para afastá-lo debaixo de bala e de vara das terras amazonenses.

De volta ao governo, nos braços do povo e dos militares fieis a Floriano Peixoto, Eduardo Ribeiro não deixou por menos, e, na mensagem que apresentou aos deputados naquela ocasião, fez questão de registrar que o antigo governador, piauiense de bons costados, havia adorado a dois senhores de uma só vez, com a célebre fórmula de acender a mesma vela a dois senhores, conforme o plantão da vez.

Thaumaturgo caiu de podre no chão e acabou saindo de fininho do palácio para o navio que o levou de volta para o Rio de Janeiro e nunca mais conseguiu ser governador do Amazonas.

As intrigas e as futricas que rondaram esse período, entretanto, ainda precisam ser recolhidas dos jornais de governo e de oposição para, extraídos os excessos, termos alguma visão do que de fato sucedeu naqueles dias tenebrosos para a vida dos manauenses.

O que ficou, de verdade, e que não é nenhuma novidade no mundo da política, foi a adoração e as juras de amor e solidariedade que Thaumaturgo fez a dois senhores ao mesmo tempo.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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