juizo final
fernanda torres
*Fernanda Torres

Retornei a Santiago de Compostela, 12 anos depois de ter lá estado.

Guardo memórias caras da primeira visita, numa tarde ensolarada, com meu pai ainda vivo. Ele se dizia ateu, mas chorava copiosamente quando entrava numa igreja potente como a da Galícia.

Foi a última vez que viajamos juntos. Do caminho de volta para o Porto, ficou-me a imagem dele no carro, ao meu lado, com uma lua cheia descomunal brotando das serras.

O céu seco, ainda claro, permitia observar as manchas do satélite com incrível nitidez. Talvez por influência do santuário, nunca a figura de São Jorge sobre o cavalo me pareceu tão evidente.

A catedral de Compostela tem algo de herético. Do olho maçom que nos vigia do alto da abóbada central ao sinuoso corredor que leva até os restos mortais de são Tiago, por detrás do altar, tudo cheira a magia e mistério naquele lugar.

Acostumada a missas mortas, ministradas com sotaque de cantilena por vozes murchas de padres tristes, eu jamais havia presenciado um culto católico tão estridente quanto o daquela tarde.

Em meio a centenas de turistas, peregrinos e fiéis barulhentos, o clérigo interrompeu a missa ao microfone para vociferar que enfiar os dedos nos buracos da coluna do pórtico era uma superstição profana, condenada pelo Vaticano.

Foi o que bastou para eu me juntar à fila dos hereges desejosos de meter o dedo mindinho, o seu vizinho, o pai-de-todos, o fura-bolo e o mata-piolho nas cavidades.

Mestre Mateo – arquiteto e escultor encarregado da ampliação do templo no século 12 – esculpiu a árvore genealógica de Jesus na coluna da entrada, que sustenta a imagem de Nosso Senhor cercado de anjos, acolhendo as almas do Apocalipse.

Ao longo dos séculos, a crença de que uma graça seria concedida aos que tocassem as falanges na árvore produziu furos profundos no belíssimo rendado de alabastro.

Tentei repetir a heresia agora, mas o acaso não permite vivenciar duas vezes uma mesma experiência.

Devido a uma frente fria de inverno, a cidade me recebeu vazia, chuvosa e taciturna em 2019. Na igreja, a nave estava sob restauro, com cultos suspensos e um andaime sobre o altar, que impediu a visão do olho maçom da abóbada.

Resignada, me inscrevi na visita guiada que dá acesso ao pórtico. Lá estavam eles, os dez buracos pagãos, mas o ritual do enfia mão foi vetado para todo o sempre. Restou-me a preleção da guia, ignorada por mim na visita anterior, tão plena de significados.

Ouvi com interesse a dissertação sobre as correntes apocalípticas, em voga no início do segundo milênio, que inspiraram a obra de mestre Mateo. O mundo iria, como agora, acabar em breve, e a esperança de fazer parte do rebanho que seria recebido no céu por um Deus benevolente emergiu como saída redentora ao horror do fim de tudo.

Numa ilação involuntária, a imagem do Apocalipse me remeteu às trágicas notícias vindas do Brasil. A lama tóxica, as chuvas destruidoras, a chacina no Fallet, o incêndio do puxadinho do Flamengo e a morte de Boechat num helicóptero pirata poderiam estar imortalizadas ali, naquelas pedras.

Num país sem rumo ou solução, tão condenado à peste quanto a Europa da Idade Média, não surpreende que a histeria cristã domine a política e a moral dos nossos tempos.

Volto hoje para os braços de Crivella e Wilson Witzel. Nunca fomos tão beatos e dedicados ao despacho de espíritos santos e pecadores para o infinito e além.

O Juízo Final deixou de ser profecia, para se tornar plano de gestão.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 15/02/2019.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui