Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Pesquisadores citam cortes de orçamento e estrutura física precária como razões para aceitar ofertas no exterior.

A única instituição privada cujo objetivo é financiar pesquisas de ponta no Brasil está enfrentando os maiores sobressaltos de sua curta história. O problema, porém, não é a falta de dinheiro, mas o fato de que alguns dos jovens talentos da ciência nos quais ela investe estão deixando o país, mesmo com financiamento garantido.

“É assustador. Para mim, é um grito de socorro”, resume o geneticista Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, sediado no Rio de Janeiro, cujos recursos vêm de um fundo patrimonial de R$ 350 milhões.

“Desde 2017, quando começamos, havíamos tido apenas um caso de evasão. Nos últimos dois anos, já temos três pessoas que resolveram ir embora e seis ou sete que ficaram balançadas ao receber propostas. É muito preocupante porque estamos falando de pessoas que são líderes na sua área, jovens que acabaram de passar em concursos. É exatamente o tipo de pessoa que você não quer ver sair do país.”

O Serrapilheira usa avaliadores internacionais para escolher os pesquisadores cujo trabalho apoiará. A disputa costuma ser acirrada -de cerca de 2.000 candidatos que se apresentam anualmente, pouco mais de 20 acabam sendo selecionados.

Os números são relativamente pequenos, mas o objetivo é contemplar pesquisadores que tenham potencial para se destacar internacionalmente fazendo ciência no Brasil. De início, os que são aprovados recebem um fomento inicial de R$ 100 mil, que pode ser ampliado para R$ 1 milhão e depois renovado. São muito raros os projetos de pesquisa com financiamento público a alcançar valores semelhantes no país.

“O Serrapilheira foi concebido para ser a cereja do bolo no sistema brasileiro. O problema é que acabou o bolo”, compara Aguilaniu. “A gente tinha a ilusão de que R$ 1 milhão segurava as pessoas. A falta de perspectiva derreteu isso. Para um cientista, a instabilidade é fatal.”

“O que me motiva a sair é a falta de estabilidade de alguns processos da esfera científica”, diz Edgard Pimentel, 38, que trabalhava no Departamento de Matemática da PUC-Rio e foi contemplado com financiamento do instituto em 2019.

“Isso fica evidente nos sucessivos cortes e contingenciamentos que afetam o sistema de ciência e tecnologia no país. Recentemente, falou-se em uma chamada de bolsas do CNPq [principal órgão federal de fomento à pesquisa] que atendia apenas a 13% da demanda qualificada. Esse tipo de coisa fratura o sistema científico, cria gargalos na absorção de profissionais de altíssima qualidade. Ciência gera riqueza e, sobretudo, melhora a vida das pessoas -mas precisa de tempo.”

Pimentel está indo para a Universidade de Coimbra, em Portugal, na condição de pesquisador doutorado, um cargo de pesquisa em que não precisará dar aulas. Ele afirma que, a princípio, a saída é temporária, e que deseja voltar à PUC-Rio e ao Brasil.

O doutor em Matemática Edgard Pimentel, da PUC-Rio, que vai para a Universidade de Coimbra, em Portugal – Divulgação

Já o físico Mario Leandro Aolita, 42, nascido na Argentina e professor da UFRJ, tirou licença não remunerada da universidade federal brasileira e está montando seu grupo de pesquisa nos Emirados Árabes, no Instituto de Inovação Tecnológica de Abu Dhabi. Embora continue a orientar os alunos ligados ao projeto do Serrapilheira que deixou para trás no Rio, ele considera o retorno ao Brasil algo pouco provável. Além das mazelas financeiras que afetam a pesquisa no país, ele aponta problemas estruturais, como a estrutura física precária e a necessidade de lidar com uma grande carga de trabalho administrativo e de aulas, o que ele não precisará enfrentar na nova instituição.

“A situação política no Brasil é péssima, mas tem uma coisa mais de fundo, e talvez o fato de eu ser estrangeiro me permita ver isso com mais clareza”, diz Aolita. “Aqui não se tem muita valorização do cientista de maneira geral. O governo Bolsonaro estava alinhado ao de Trump, que também queria diminuir os recursos para a pesquisa. Mas nos EUA, ao contrário do que aconteceu aqui, o Congresso impediu isso, por já existir uma compreensão sobre a importância da ciência.”

Pesquisador da mesma área de Aolita, a chamada computação quântica (que investiga o uso de propriedades das partículas subatômicas para a realização de operações computacionais), o físico teórico Rafael Chaves, 39, tinha passado sete anos na Espanha e na Alemanha (no segundo país, casou-se e teve dois filhos) antes de vir para o Instituto Internacional de Física da UFRN, em 2016.

Ele conta que a ida ao Rio Grande do Norte, além da possibilidade de qualidade de vida para a família, foi motivada pela “anomalia no espaço-tempo” da criação do instituto, que surgiu voltado especificamente para a pesquisa, com forte interação internacional, inclusive com diversos ganhadores do Nobel. “Era uma proposta ousada, moderna, e havia a sensação de poder crescer junto com o instituto, de criar algo importante do zero”, explica.

Ele conta que recebeu sondagens e propostas da Austrália, do Chile, do Canadá e também dos Emirados Árabes, como Aolita. Ainda não se decidiu a partir.

“Se não fosse o Serrapilheira, já teria desistido. Não é só a falta de investimento, é o massacre que tem acontecido: para muita gente, o professor é comunista, parasita, a pesquisa brasileira feita em instituições públicas não vale nada. Achávamos que a pandemia ia melhorar a compreensão sobre o método científico, mas o debate público brasileiro infelizmente é muito pobre”, lamenta.

A Folha consultou a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a ABC (Academia Brasileira de Ciências) sobre o fenômeno da ida de pesquisadores brasileiros para instituições no exterior. Ambos os grupos afirmam que não há levantamentos consolidados sobre a dimensão do problema, embora exista a percepção de que ele esteja se agravando nos últimos anos. ​

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 29/05/2021.
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