“A preparação foi cumprida em 15 dias. Desenhado o conceito de tudo que desejávamos em alguns poucos dias que não me deixaram dormir”

Desde o passado ano da visita do Papa João Paulo Il ao Brasil [em 1940], e em particular ao Amazonas, que surgem, aqui e ali, contações de episódios que teriam sucedido nesse evento políticoinstitucional e religioso. Curiosidades, fantasias e assertivas retiradas do noticiário de imprensa, nem sempre fiéis aos acontecimentos.

Para quem teve o privilégio e a responsabilidade de estar no meio do furacão desde os primeiros momentos até a apresentação dos relatórios finais dessa visita oficial, como eu estive, é dever, nessa data simbólica, contar verdades sucedidas na intimidade da Comissão Organizadora Estadual da qual fui o secretário, com os encargos civis de toda a organização.

Após a notícia de que “João de Deus” viria ao Brasil e queria conhecer a floresta amazônica e falar com os povos tradicionais, o governador José Lindoso atribuiu ao vice-governador Paulo Nery e seu gabinete – que era bem estruturado – a responsabilidade de gerir a visita em toda a extensão. Foi nessa que entrei e ganhei alguns dos muitos cabelos brancos que ostento, quando ainda na cercania dos 30 anos de vida.

Feitos os planos iniciais entre setores do governo, entidades civis, militares e a igreja, o governador foi informado do cancelamento da extensão da viagem a Manaus. Deu-se um correcorre. Lindoso, católico e de boa-fé, com relações em Brasília, procurou resolver o impasse. Paulo Nery determinou a sustação das medidas em curso. Cônego Walter Nogueira, principal interlocutor da igreja ao lado de dom Milton Corrêa Pereira, preferiu se articular direto no Vaticano com o cardeal Casaroli. Depois disso, foi confirmada a chegada do Papa quase em cima da hora.

Era tempo de correr e fazer de tudo para que as providências dessem certo, em extenso programa desejado pelo papa e ansiado pelos amazonenses. A preparação foi cumprida em 15 dias. Desenhado o conceito de tudo que desejávamos em alguns poucos dias que não me deixaram dormir, todos caímos em campo, e o Gabinete do vice-governador se voltou inteiro para superar o desafio. Vera Ferreira, Regina Lobato, Suely Viana, Telma Ignês, José Luiz, Bento Brasil, enfim, todos nós, corríamos de um lado para o outro.

Jair Jacqmont fez o desenho do altar da Missa pública, do lago, dos bancos em forma de trono, da vela com os símbolos do Vaticano que foram usados na Bola da Suframa. César Seixas foi encarregado da decoração e instalação do Lago em derredor do altar, o qual insisti e teimei que fosse feito. A igreja de Manacapuru, a pedido de Paulo Nery, cedeu o altar em forma de canoa. Mário Guerreiro (o pai), deu as peças de juta tingidas

para servir de passadeira usada no altar da praça. Empresários da Associação Comercial reformavam a Catedral de Manaus, estimulados por Phelippe Daou e o Portela. A firma Paulo Braga Sondagens e Fundações fazia a estrutura do lago e do altar na Bola da Suframa. O Exército, por meio da 2° seção, com o brilhante coronel Monerat, organizava as questões de segurança, inclusive junto a Polícia Federal, o Vaticano e todas as Forças.

Em outra frente, artistas, escultores, desenhistas, artesãos, grupos da população negra e indígena produziram presentes entregues ao Sumo Pontífice. O Hospital Militar teve o Dr. José Cabral selecionado como médico do Papa em qualquer situação. O Novotel virou base de apoio para atendimento de urgência. A Marinha do Brasil aparelhou um dos seus navios para o Papa participar da procissão fluvial de São Pedro, que foi antecipada. O Canto da Peixada foi escolhido para servir as refeições oficiais. O cerimonial distribuía os convites de última hora. A Aeronáutica adotava as medidas de proteção do espaço aéreo. O aeroporto foi remodelado. A sede da Arquidiocese, simples por demais, ganhou um banheiro no quarto que o Papa usaria… há muitos detalhes e fatos curiosos que, em verdade, aconteceram.

Vencida a correria, na véspera da Missa, noite adentro, o povo se comprimiu na Praça Pereira da Silva e a programação foi cumprida com rigor, firmeza, paciência, carinho e generosidade, e, aqui comigo, filho de baiano que sou, entre uma oração e outra para que tudo desse certo no meio daquela agonia e da alta responsabilidade que me pesava sobre os ombros, não conseguia desatar os dedos em uma figa atada que levei o tempo todo, na mão direita.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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