Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Só iniciantes acham que conhecer Deus diretamente é ficar babando em cima Dele

A busca do conhecimento de Deus é um clássico. Muita gente de peso já escreveu sobre isso. As críticas que gente como Marx, Freud, Nietzsche, Feuerbach e Spinoza fizeram à religião são coisa séria, tanto que a grande teologia as assimilou e tenta reagir a elas até hoje.

Nem os darwinistas podem provar que Deus não existe. Nem os religiosos podem provar, tampouco, que Ele exista. Deus é uma variável sem controle experimental. Você até pode entender que há motivos racionais para crer em Deus, mas, creio eu, tendo para a posição protestante que considera a fé como o caminho mais reto para Deus. Esse “erro” protestante é chamado de “fideísmo” pelos católicos cultos. Céticos como Montaigne, no século 16, incorreram nesse “erro”, apesar de católico.

Hoje quero falar de mística: o conhecimento direto de Deus. Esse tema também tem um vasto campo na fortuna crítica especializada.

O próprio termo “mística”, segundo o maior historiador da mística cristã vivo, Bernard McGinn, nem sempre significou pessoas que conhecem Deus diretamente. O sentido, originalmente grego (escondido, misterioso), já serviu para descrever camadas ocultas do texto bíblico e as transformações que o conhecimento dessas camadas causam em quem as conhece a fundo, enfim, um longo trajeto. No cristianismo, só cerca de 1.500 anos atrás, grosso modo, chegamos ao sentido de pessoas que conhecem Deus diretamente.

Ainda que o termo só se estabilize como pessoas que conhecem Deus diretamente ao redor do século 16 espanhol e 17 francês, já na idade média (entre os séculos 12 e 15) temos relatos de muitas mulheres e homens que descreviam essa espécie de conhecimento —alguns deles e delas arderam na fogueira por isso.

Um desses homens foi o filósofo Meister Eckhart (Mestre Eckhart) que, provavelmente, morreu em 1328 nalgum lugar na sua Alemanha de origem (que, claro, não existia como unidade nacional na época).

O Meister, como é chamado por quem se dedica ao seu estudo, foi condenado pela inquisição em março de 1329, mas já estava morto. A acusação era justamente de pregar em língua vernácula sobre temas difíceis, como o conhecimento direto de Deus, para pessoas ignorantes, principalmente mulheres, que o seguiam aos montes entre Estrasburgo e Colmar, na França, onde ele viveu alguns anos.

Dentre seus textos mais famosos, um sermão em língua alemã medieval salta aos olhos por conta da definição de intimidade com Deus que ele dá. O conceito usado por ele é “desprendimento”, estado da alma que, verdadeiramente, tem intimidade com a divindade (ou Deidade, como muitos místicos alemães diziam na época). Desprender-se de tudo, inclusive de si mesmo, em termos contemporâneos. Esse tema aparece, ainda que de forma tosca, no blábláblá de “desapego” hoje.

No Evangelho, é famosa a passagem em que Jesus visita as duas irmãs Marta e Maria, suas amigas. Ao chegar à casa delas, elas são tomadas por uma profunda alegria, já que elas o viam como o Messias. Era, portanto, um luxo, um privilégio, Jesus, o Cristo, parar na casa delas pra descansar de sua atribulada vida pública.

Muitas viagens a pé, muitos atendimentos a necessitados, muita gente atrás dele, afinal de contas. Isso sempre cansa. Lembremos que para o cristianismo posterior, Jesus querer descansar na sua casa é Deus parando pra tomar um cafezinho que você fez!

Segundo o relato do Evangelho, Maria, a caçula, fica aos pés de Jesus contemplando sua beleza (a mulherada devia mesmo babar em cima dele) e se põe a lavar seus pés, que deve ter sido uma delícia mesmo para ele. Jesus gostava das mulheres. Aposto que Jesus deve ter adorado isso. Marta, a mais velha, corre pra fazer um cafezinho e lhe oferecer algo, uma água, um suco.

Sempre se entendeu que Maria aproveitou melhor a visita porque ficou contemplando a beleza de Jesus, e Marta se perdeu querendo oferecer um café para Deus. Mas, o Meister inverte a lógica e se pergunta: afinal, quem tem intimidade profunda com alguém fica parado babando na pessoa quando ela aparece ou corre pra servir a ela o seu “cotidiano”, sem se prender a êxtase nenhum?

Ter intimidade com Deus para o Meister não era ficar paralisada diante da Sua beleza, mas sim trocar uma ideia com Ele, fazendo um cafezinho na cozinha, lavando uma louça. Certa feita, um abade trapista (ordem religiosa que vive em silêncio), amigo meu, me disse a mesma coisa – só iniciantes acham que conhecer Deus diretamente é ficar babando em cima Dele.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 01/04/2019.
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