fernanda torres
*Fernanda Torres

Emoldurados por estantes de livros, quadros e mobiliário, revelamos o conforto de nossa intimidade pandêmica.

Participei, no início do mês, de um encontro virtual com Eduardo Giannetti e Fernando Gabeira para o Fórum do Amanhã. O tema sugerido foi o da construção de um sonho coletivo, algo que meu pessimismo arraigado teima em encarar como quimera.

Sem o currículo acadêmico e de vida dos meus dois companheiros, preferi me ater às dificuldades que uma artista como eu enfrenta, hoje, para traduzir os anseios dos que ainda consomem cultura no Brasil.

A própria janela virtual evidencia o abismo entre o cotidiano de muitos de nós, que produzem, pensam e vivem de arte, e a realidade brutal dos que estão do outro lado da tela.

Emoldurados por estantes de livros, quadros e mobiliário, revelamos o conforto de nossa intimidade pandêmica, enquanto procuramos diagnosticar as causas que nos levaram a um afastamento dos dramas dos que se aboletam em casas mínimas.

As lives e obras de ficção domésticas, toda a produção realizada nesse período de resguardo esbarra nessa moldura, revela mais o fundo do quadro do que o close em si. E fica a pergunta: como fugir do “problema de branco?”. Como atingir o sonho coletivo que o Fórum do Amanhã propôs debater?

Volta e meia, vem à tona a pergunta do porquê da arte, hoje, não ser capaz de assumir o papel que exerceu durante o período da ditadura, de defensora da democracia e da liberdade de expressão. É uma questão que caminha junto com a do porquê de sermos incapazes de criar uma frente ampla de oposição a um governo tão nocivo e incapaz.

Terminado o fórum, André Lara Resende me escreveu, traçando um diagnóstico preciso sobre “a perda do papel de intérprete do país e de porta-voz de todos, inclusive dos excluídos e desassistidos”. “Somos órfãos do fim do elitismo da democracia representativa, que sucedeu ao fim do elitismo aristocrático.”

Touché.

O povo do cinema novo, o FALA POVO! do extraordinário “Terra em Transe”, não tinha voz. Cabia ao intelectual traduzi-la. Mas a massa desassistida não só cresceu, como adquiriu meios de se expressar por conta própria. A opinião pública não é mais aquela formada por uma dezena de canais de televisão e jornais, ela se comunica através das bolhas, nas redes, para o bem e para o mal.

O intelectual e o artista não servem mais de farol. Sua atuação se restringe ao nicho ao qual pertencem, conseguindo, em meio à surpresa, dialogar, no máximo, consigo mesmos.

A hora é delicada e é preciso estar atento.

Nas peças apresentadas no Zoom, elenco não se conhece e cenários mudam num clique

Cena de ‘A Arte de Encarar o Medo’, espetáculo dos Satyros desenvolvido para o aplicativo de teleconferências Zoom Andre Stefano/Divulgação

Os atores Nicole Cordery e Mauro Schames em cena da peça ‘Pandas, ou Era uma Vez em Frankfurt’, desenvolvida para o aplicativo de teleconferências Zoom Divulgação

Os atores Mauro Schames e Nicole Cordery em cena da peça ‘Pandas, ou Era uma Vez em Frankfurt’, desenvolvida para o aplicativo de teleconferências Zoom Divulgação

Vi, outro dia, um post bolsonarista que ironizava publicações de colegas em suas casas bem mobiliadas, dando dicas para enfrentar o tédio da quarentena com brincadeiras em família no terraço com piscina e noitadas de queijos e vinhos em cozinhas de aço inox.

O mau hábito de expor a própria vida teve início na revista Caras e se perpetuou de maneira patética nas redes sociais, nos transformando em alienadas Maria Antonietas a caminho da guilhotina.

Os cultos evangélicos, com todo o seu teor moralista, retrógrado, criacionista e, por vezes, explorador, se mostraram mais conscientes das necessidades de seus fiéis. Nos templos, se pratica um senso de coletividade, educação e cultura baseados nos preceitos bíblicos. Pena que, neles, prospere a visão ipsis litteris dos salmos, em detrimento da misteriosa transcendência de sua poética.

O avanço das igrejas pentecostais desafia o Estado laico, artistas e intelectuais a oferecerem, longe dos dogmas religiosos, uma alternativa igualmente potente. Algo que o Sesc em São Paulo concretizou, sob o comando de Danilo Miranda, e Marta Suplicy ampliou, por meio dos CEUs. Iniciativas que foram interrompidas ou se encontram ameaçadas.

É preciso recuperar a compreensão de cultura de Lina Bo Bardi, eliminar a barreira entre o popular e o erudito. Lina tanto preservou a herança de feira de bairro do Sesc Pompeia quanto projetou o vão comunal do Masp, a praça do povo, sob o requintado acervo de pinturas, tão incrivelmente disposto nos pedestais futuristas de vidro do museu.

Gabeira diz que as ambições de Darcy Ribeiro e tantos pensadores que sonharam com um Brasil capaz de influenciar o mundo por meio de uma experiência única de civilização, nesse momento, devem se render a urgências mais modestas, como a do fornecimento de água e esgoto para as periferias carentes.

Fico com a modéstia do Gabeira e, no desespero do meu quadrado, me limito ao sonho nostálgico de um discreto Itamar Franco, que, em meio ao desastre de Collor, soube, sem pretensões de líder, justiceiro ou salvador da pátria, pôr a casa em ordem.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 11/07/2020.
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