Escrevi este texto, que faz parte do livro “A Expressão Amazonense”, publicado em 1977: a Manaus da Zona Franca continua sem bairros. 

Não se pode chamar de bairro o que se vê em São Raimundo, ou na Raiz, ou na Compensa, muito menos no Coroado e Cidade das Palhas. Mesmo os conjuntos habitacionais financiados pelo BNH são verdadeiros exemplos de como não se deve praticar a urbanização, onde a especulação e a má fé dos construtores e incorporadores juntaram se à falácia da casa popular, formando uma monstruosa simbiose de desrespeito ao morador potencial e de completa falta de escrúpulo social. O que eufemisticamente se batizou por bairros são imundas favelas e guetos dos retirantes do interior. Cada um desses aglomerados é um prodígio de improvisação popular pela sobrevivência vegetativa, onde suas “ruas” foram traçadas por sua gente, suas “casas” construídas quase em mutirão, seus “terrenos” loteados pelo senso comum do povo. Muitas vezes esses “bairros” foram fruto de invasão ou grilagem. Sem luz, na poeira e na lama, com improvisadas e repelentes “feiras”, um comércio à altura de suas ínfimas necessidades, essa gente não pertence à Zona

Franca a não ser como mão de obra dócil e barata.

Ela somente caminha no centro de Manaus quando vai enfrentar as filas do INPS ou quando, no domingo, olha as vitrines e se mistura com a marginalidade que habita o coração da cidade. Para essa gente que tirou do nada esses guetos de promiscuidade e proteção: o subemprego, a inexistência de infraestrutura, sem água, sem luz, sem nada, somente a indiscriminada violência policial, que lá, entre os fugidos das enchentes, exercita uma competência que não possui. O “bairro” do Coroado, por exemplo, conta com um Centro Comunitário que se recusa a receber emissários da caridade do poder. Lá não são benvindos nem o MOBRAL nem o Projeto Rondon. Eles sentem na própria pele a inversão de valores que a elite sempre soube promover em Manaus.

A gente do Coroado é composta de lavadeiras e operários de construção. Há também vigias, carregadores e braçais sem qualificação. A composição social não é diferente da gente de São Lázaro e da Raiz. Nem das três Compensas. Mas são esses aglomerados que acolhem os operários das indústrias de esteira de montagem: a mão de obra mais deliciosamente barata a serviço do Ocidente. Para essa gente, bastam os estropiados transportes que não obedecem a horários, que carregam a marca da agressividade dessa população à parte em seus bancos danificados e riscados com impropérios. Mas esses transportes trazem também a marca das vias que atravessam diariamente para receber esses agressivos: lataria avariada, vidraças quebradas ou empoeiradas, crosta de barro no piso. São esses ônibus que enfrentam as “ruas” esburacadas e a paisagem ar “marciana” da Compensa 11, e que precisam se transformar em carros anfíbios para trafegar na Compensa São Jorge, onde as “ruas” estão sempre alagadas pela água fétida de um igarapé poluído. Quanto ao centro, é a menina dos olhos da elite e o foco principal de todo o planejamento. É o delírio dos mascates arrivistas. Caminhando pelas ruas da Zona Franca, não há casa reformada ou construída que não ostente sua fachada de pastilha ou cerâmica, obrigando o visitante, sob um calor de 30 graus, a sentir se num grande banheiro público aquecido. A atual arquitetura Baré vai em sentido inverso às experiências de “Severiano Porto”. Não esqueçamos, o ano é 1977.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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