Estou morrendo de inveja, São Paulo está ganhando uma biblioteca de 40 mil volumes de obras raras, além de gravuras e fotografias, tudo diligentemente colecionados pelo empresário José Midlin e sua esposa Guita. Conheci esse casal extraordinário porque sou amigo de Bety Midlin, afilha antropóloga, autora de um dos mais deliciosos e esclarecedores livros sobre os nossos índios, o “Moqueca de Maridos”. E foi através de minha amizade com Bety que pude saber mais sobre a personalidade de seus pais, do amor que tinham pela leitura e pelos livros antigos. Este espírito renascentista dos Midlins segue uma longa tradição humanista e foi responsável pela redescoberta e salvação da civilização ocidental, quando o Império Romano desabou e o mundo viu baixar a escuridão da barbárie medieval. No entanto, é importante dizer que esta estirpe é rara por essas plagas. Se você já teve a oportunidade de visitar países como a Inglaterra, a França ou os Estados Unidos poderá testemunhara marca desses magníficos exemplos de amor à cultura e cidadania. Nesses países é comum ao visitar um museu, uma galeria de arte, um teatro, e depararmos com uma placa discretamente fixada numa parede, informando que aquele ‘ equipamento de elevação do espírito foi obra da generosidade de um empresário, de alguém que amealhou fortuna naquela comunidade e está devolvendo um pouco aos seus conterrâneos. Parte da pujança cultural desses países se deve à participação dos seus cidadãos ricos que assim buscaram vincular seus nomes de família às manifestações da beleza.

Infelizmente gente com José e Guita Mindlin são exceções de uma regra mesquinha e perversa. Para começar, ao contrário da vida desses dois seres extraordinários que enriqueceram com muito trabalho e honestidade, a maioria das fortunas brasileiras são mal adquiridas e seus proprietários querem é que a arte vá para o inferno. Nossos plutocratas não querem saberdo Louvre ou da Tate Gallery, eles adoram ir às compras em Miami, antro predileto deles. E quando morrem, se por acaso adquiriram para especulação alguma tela ou escultura, seus broncos herdeiros tratam de liquidar esses ativos mesmo que isto signifique perdas culturais para o país. Um exemplo da brutalidade de nossa plutocracia com as coisas da cultura, é que a Lei Rouanet, por exemplo, só funciona graças ao apoio das estatais. São pouquíssimos os empresários que apoiam projetos culturais usando a lei. Aqui mesmo em Manaus há exemplos dessa insensibilidade, que poderia ser feita sem arranhar a fortuna do empresário, já que ele apenas dispenderia parte do que pagaria de imposto de renda, ou seja, usaria em causa própria dinheiro que já é do erário. Quanto aos colecionadores, quase sempre de pessoas da classe média, estes também são tratados deforma vil, tanto pelos seus herdeiros quanto pelo poder público. Quando era diretor da Biblioteca Nacional conheci um bibliotecário que costumava dizer que os livros das bibliotecas particulares tinham dois inimigos: as traças e as viúvas. Quantas vezes ao visitar os sebos do Rio de Janeiro encontrei volumes ricamente encadernados, restos mortais de uma biblioteca zelosamente cultivada por seu dono, atirados ali por uma viúva que provavelmente odiava aquele hábito do marido. Lembro que testemunhei uma dessas demonstrações de ódio aos livros. As irmãs do professor e poeta Sebastião Norões cansadas de conviver com aquelas estantes empoeiradas, mandaram atirar os livros e LPs no igarapé de Manaus, salvos pela intervenção do professor Artur Reis, então governador, que pessoalmente recolheu os livros à Biblioteca Pública. Por falarem Artur Reis, sua preciosa, biblioteca, rica em títulos de História da América, foi comprada pelo governo do Estado, mas vive fechada, esquecida num andar de um prédio da 7 de Setembro. Que inveja de São Paulo

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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