Em 1937 o estado brasileiro retirou a cultura do Sistema Nacional de Inovação. Por Sistema Nacional de Inovação se entende o conjunto articulado de politicas, instituições públicas e privadas, e seus agentes, que conectam, a matriz domestica e a internacional de conhecimento à esfera produtiva. Esta é a definição proposta por consultores do Banco Mundial em 1993 e que completam com a explicação de que o sistema existe a partir de uma estrutura de incentivos econômicos e investimentos a fundo perdido voltados para a inovação tecnológica e direcionados ao aumento permanente da produtividade social fincada numa educação de qualidade. Mas o que acontece quando cultura e educação não fazem parte do sistema de inovação de um país? Desgraçadamente temos de ouvir o Ministro da Educação culpar o atual currículo pelo baixo aproveitamento escolar, supostamente com muitas matérias, o que confundiria os estudantes, ou ouvir do Ministro do Planejamento a afirmação de que 10% do orçamento federal para a educação arruinaria o Brasil. Pois aqui os tecnocratas acreditam que educação e cultura significam gastos e não investimentos. A consequência mais evidente é fragilidade da educação básica, que não consegue ensinar bem o próprio idioma do país, muito menos matemática, ciências e as expressões artísticas. Esta educação deve atingir os jovens entre 7 e 15 anos, ou as gerações se perderão na ignorância. A questão central esta na qualidade do ensino ministrado e o resultado é a incapacidade cognitiva básica gerando uma formação intelectual truncada que impossibilita até mesmo a leitura de uma simples placa de aviso. É exatamente esse alicerce qualitativo do ensino que permite que a estrutura econômica industrial de uma sociedade, por exemplo, possa avançar para um novo paradigma produtivo “pós fordista”. Neste quadro, a avaliação dos programas de desenvolvimento econômico impostos à Amazônia é extremamente negativa. Não vamos agora tratar da desastrosa politica de mineração e fundiária que destroçou a Amazônia Ocidental, especialmente o Estado do Pará. Ficaremos apenas no marco estabelecido pela implantação da Zona Franca de Manaus e seus desdobramento posteriores na nossa cidade. E se insistirmos na cultura como alternativa para o nosso futuro?

Precisamos aceitar o fato de que a Zona Franca, como todo modelo industrial artificial, amparado em renuncia fiscal, é instável e sem futuro, além de pouco deixar no lugar em que se instala temporariamente. Se em meio século não andou é porque sofre de paralisia crônica, na verdade funciona como uma ténia no organismo combalido, drenando os recurso até matar o hospedeiro. O que preferimos? Seguir a esquizofrenia da prorrogação da Zona Franca, agora por um século, no futuro por um milênio, ou abandonar esse entulho autoritário e avançar para além do “pós fordismo”? No mundo atual da supremacia da economia financeira sobre a economia industrial e mercantil, é a economia de serviços que marca a modernidade. Neste admirável mundo novo a cultura é o “soft power” a força virtual que atravessa fronteira. O “soft pawer” é a atração, não a coerção. E qual é a material prima deste “poder macio”? Conteúdo. Melhor, conteúdo criativo. Para nós, que estamos na periferia, é possível a nossa inserção?

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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