*Rodrigo Zeidan

Lua de mel com o governo acabou; caminhamos para o abismo lenta, mas inexoravelmente.

A economia brasileira vai encolher em 2019. Estamos imitando os erros dos nossos hermanos argentinos, mas em escala muito maior.

Assim como nosso presidente, Macri assumiu o governo argentino apoiado por empresários e com mandato claro de fazer reformas econômicas. E, como aqui, o governo só faz fumaça.

Após o desastroso governo Kirchner, Macri assumiu em 2016 prometendo pobreza zero e um ajuste fiscal para conter a inflação.

Os primeiros meses foram de lua de mel com o mercado. As promessas eram de aumentar impostos, reduzir gastos públicos, aumentar a taxa de juros e normalizar a situação do Indec e do Banco de La Nación, equivalentes ao IBGE e ao Banco do Brasil (o Indec estava mutilado, a ponto de não publicar várias estatísticas nacionais).

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Mas Macri fraquejou e acabou não passando nenhuma grande reforma. Subsídios nos preços de energia e transporte foram retirados de forma atabalhoada (ainda são 2% do PIB). Diminuiu-se o controle sobre o câmbio. O déficit caiu aqui ou ali, mas não houve avanço em reformas substantivas.

O governo argentino chegou a negociar pacote de ajuda com o FMIpara limitar a saída de capitais e conter a inflação. Não deu certo. Em maio de 2018, quando finalmente uma medida dura foi tomada, a de subir a taxa de juros de 20% para mais de 40%, o dano já estava feito – o PIB caiu 2,5% em 2018, e a inflação está na casa dos 30%.

O governo Macri escolheu o gradualismo. Deu errado. Muito errado. A pobreza hoje atinge um terço dos argentinos, mais do que no governo anterior. Cada medida meia boca era seguida por mais desconfiança por parte de empresas e consumidores. Isso tornava maior a necessidade de medidas mais duras, mas cada dado econômico ruim limava a capacidade de articulação política do governo.

Esse mecanismo de retroalimentação também aconteceu no governoDilma. Em janeiro de 2014, o mercado esperava crescimento para 2015 na casa de 2,5%. Em janeiro de 2015, essa expectativa já tinha caído para 0,5%. Em junho, já se previa recessão de 1,8%. A economia acabou desabando 3,7%.

Infelizmente, vai acontecer o mesmo agora. Aqui ainda não temos a inflação, mas ela vai acabar voltando. Já vivemos a deterioração das expectativas. Quando o atual governo estava para ganhar a eleição, havia previsões de que a economia ia crescer 3,5%. Cada tuíte estapafúrdio do presidente, e sinal de falta de articulação política, foi limando a confiança de todos.

Hoje, já se prevê crescimento menor que 1%. A incompetência do governo já destruiu 2,5% do PIB. E não vai parar por aí.

Não vai ter boa reforma da Previdência. A cada defesa do astrólogo escatológico, cai o apoio político e social.

centrão já está abandonando o barco. E, embora alguns técnicos do governo tentem fazer algumas pequenas reformas microeconômicas, o que aconteceu nos governos Macri e Dilma vai se repetir aqui: contração econômica com inflação.

Quando o presidente chama manifestantes de massa de manobra e idiotas úteis, a reação do empresário médio é reduzir ou postergar investimentos. E os consumidores travam. Otimismo alimenta investimentos, mas o presidente só passa desconfiança.

A lua de mel, incluindo com o ministro da Economia, acabou (o dólar passar de R$ 4 não é coincidência). Caminhamos para o abismo lenta, mas inexoravelmente.

Eu nunca quis tanto estar errado, mas quem puder se proteja dainflação e da recessão, porque elas já estão virando a rua e vêm com vontade.

*Professor e doutor em economia. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Mercado, de 18/05/2019.
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