“O veículo, rigorosamente elaborado em Manaus, tinha destino certo: transportar a noiva para a cerimônia do casamento, e, quem sabe, causar espanto aos convidados e estimular encomendas que, em verdade, não foi possível saber se foram feitas para estimular a produção de outros exemplares.”

Para os que pensavam que no passado da “belle Époque” vivíamos somente de exportação de borracha e de produtos colhidos na floresta e nas águas, andei constatando algumas experiências curiosas que nestes tempos de 350 anos da presença europeia nessa região manauense, bem se justificam ser relembradas.

É verdade que muitas outras iniciações industriais poderiam ser referidas, mas escolhi apenas duas para indicar o ânimo inventivo que presidia o interesse de alguns amazonenses.

Tratei aqui, há algum tempo, do Silvino Santos que não era o cineasta e fotógrafo português que ganhou fama pela qualidade de seus trabalhos, mas outro, simples chefe da oficina mecânica do Palácio Rio Negro que, motivado pelo seu próprio gênio criativo, conseguiu produzir e levar a experimentos práticos o seu próprio avião com o qual fez demonstração na baía do rio Negro, confronte ao porto, quando este ainda era flutuante conforme os ingleses nos legaram depois de arrancar muitas libras esterlinas de nossos bolsos.

Foi um grande sucesso. O povo se comprimia no “rodo” para ver o pequeno avião fazer bailados de um lado para o outro naquela imensidão de águas, e nem ficou triste ou chocado de constatar que o dito cujo não conseguiu arrancar com força suficiente para alçar voo, para acabrunhamento de seu inventor que não desistiu da ideia e, de volta a Palácio, trabalhou sem cessar nos ajustes que achava necessários.

Alguns anos antes já havíamos tido a honra de conhecer em desfile público, em ocasião bem especial, o que Cerca Nazaré havia conseguido fazer fabricando um automóvel nessa cidade de Manaus, coisa que seria’ impensável naqueles tempos de choro e lastimação pela queda da exportação da hévea.

Parecia surgir a indústria automobilística na capital amazonense, diziam alguns mais afoitos.

Deu-se que Álvaro Sales, funcionário graduado da “Booth Line”,empresa das mais categorizadas na cidade, estava de casamento marcado com a senhorita Margarita Printes de Lemos Salles e as oficinas de Cerca Nazaré que trabalhavam com aluguel de carruagens e carros foram intimadas a preparar, com exclusividade, um carro tipo “coupé”, daqueles nos quais não seria possível colocar defeito.

Pelas notícias de imprensa da época, era “carro luxuoso, perfeitamente acabado, puxado por uma bela parelha de cavalos, que rivaliza pelo seu aspecto e conforto, com os melhores que tenham sido importados para esta capital”, desde 1904 e até por volta de 1918, quando se deu o fato.

O veículo, rigorosamente elaborado em Manaus, tinha destino certo: transportar a noiva para a cerimônia do casamento, e, quem sabe, causar espanto aos convidados e estimular encomendas que, em verdade, não foi possível saber se foram feitas para estimular a produção de outros exemplares.

O que sei, bisbilhotando os jornais antigos com essa mania de arqueólogo da história de nossa terra, é que o carro fez muito sucesso.

No campo da imaginação é de pensar que a noiva tenha ficado satisfeita com a novidade que estreou no dia mais esperado de sua vida, por entre vivas e flores tão comuns nas festas de bodas daqueles anos.

O velho Cerca Nazaré não só se queria se firmar como “industrial” no tempo da decadência da borracha, como se esmerava em bem servir a seus clientes com carros e carruagens bem conservadas e em condições de fazer qualquer serviço, desde um simples passeio pelas cercanias de Flores e dos Bilhares, até ponto mais distante para as bandas do Tarumã, e, se preciso fosse, transportar defunto para o campo santo ou conduzir noivas ao altar.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

1 COMENTÁRIO

  1. Um texto autêntico, verdadeiro e, acima de tudo, muito interessante. A história de manaus é repleta de pontos sociais que nos remete a a uma “belle Époque”, como verdadeiramente é citada no belo texto. Parabéns ao Ilustre historiado, Robério Braga.

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