Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Ideia acaba de ganhar mais peso graças a estudos genômicos feitos por pesquisadores brasileiros.

A ideia de que os indígenas da América do Sul descendem, em parte, de grupos aparentados aos mais antigos habitantes da Oceania acaba de ganhar novo peso, graças a estudos genômicos feitos por pesquisadores brasileiros.

Eles descobriram que o DNA de uma grande variedade de indígenas atuais -hoje presentes numa região que vai da costa do Pacífico a Mato Grosso do Sul, passando pela Amazônia- abriga resquícios desse parentesco distante com povos como os aborígines da Austrália e os nativos da Nova Guiné.

A distribuição geográfica e a variabilidade desse “sinal genético australasiano”, como é chamado, sugerem que ele é muito antigo, tendo sido incorporado aos ancestrais dos nativos sul-americanos muito antes que eles se separassem e formassem a imensa variedade de etnias que conhecemos atualmente.

Detalhes sobre os novos achados estão em artigo na edição desta semana da revista científica americana PNAS. No entanto, eles ainda não permitem imaginar uma travessia oceânica direta entre lugares como a Austrália e a nossa parte do continente, diz Tábita Hünemeier, geneticista da USP e coordenadora do estudo.

“Eu acho bastante improvável qualquer rota que não seja pelo hemisfério Norte. Outro ponto é que esse sinal australasiano parece ser muito antigo, enquanto o povoamento das ilhas do Pacífico mais próximas da América é muito recente”, explica ela.

Em trabalhos publicados na década passada, Hünemeier e seus colegas, como Maria Cátira Bortolini, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), já tinham identificado o misterioso sinal em grupos amazônicos. O grupo apelidou os seres humanos que carregavam esse material genético de População Y (de “Ypikuéra”, termo tupi com o significado de “ancestral”).

Em síntese, a ideia é que ao menos duas grandes populações teriam dado origem aos ancestrais dos indígenas, provavelmente em algum momento entre 20 mil anos e 15 mil anos antes do presente. A contribuição maior teria vindo de grupos siberianos, associados a etnias que ainda vivem nessa região da Ásia, e que atravessaram a chamada Beríngia (língua de terra que então unia o Alasca, no norte do continente americano, à Sibéria) rumo às Américas.

No entanto, a essa travessia, possivelmente terrestre, juntam-se as evidências de uma rota mais rápida pela água, margeando o litoral do Pacífico e chegando ao extremo sul do continente com relativa rapidez. Afinal, o sítio arqueológico mais antigo das Américas é, para a maioria dos estudiosos, um lugar chamado Monte Verde, no sul do Chile, com pelo menos 15 mil anos de idade.

O pulo do gato do novo estudo é justamente a descoberta da assinatura genômica da População Y em grupos da costa do Pacífico, como os chotunas (descendentes da antiga civilização mochica, no norte do Peru), bem como sua confirmação numa série de etnias brasileiras, como os caritianas e suruís da Amazônia, os guaranis-caiovás de Mato Grosso do Sul e os xavantes do leste de Mato Grosso. Os resultados vieram depois de uma análise do DNA de quase 400 pessoas, pertencentes a dezenas de etnias sul-americanas diferentes.

Outro detalhe importante: o sinal genético australasiano parece ser variável dentro de cada população. Isso significa que alguns indígenas carregam um legado genético mais claro da hipotética População Y, enquanto em outros esse sinal quase não aparece.

Segundo a pesquisadora da USP, isso ajudaria a explicar porque é difícil identificar o sinal australasiano no DNA extraído de esqueletos antigos das Américas. Com a obtenção de material genético de poucos indivíduos, de raras populações cujos restos chegaram até nós, a detecção tenderia a ser mais difícil.

Por outro lado, uma jornada pela costa durante a Era do Gelo também poderia estar por trás de outro mistério: a ausência do sinal genético australasiano em grupos indígenas da América do Norte. “Uma rota costeira diminui os pontos de contato e estabelecimento de populações. Já uma entrada pelo continente provavelmente deixaria grupos dispersos pelo caminho com essa ancestralidade Y”, afirma Hünemeier.

Para a geneticista, o mais provável é que os grupos que carregavam esses genes também tenham chegado à Beríngia e se misturado aos outros ancestrais dos primeiros americanos, espalhando-se depois pela rota do Pacífico.​

Tribos isoladas

Indígenas isolados Mascho-Piro, no Peru, em foto de 2011 Jean-Paul Van Belle

Vista aérea de indígenas isolados na Amazônia em foto de 2010 G.Miranda/Funai/Survival

Homem pintado com tinta de semente de urucum pertencente a tribo isolada no Acre G.Miranda/Funai/Survival

Indígena Kawahiva, no Brasil, tirada em raro encontro com a Funai Funai

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 01/04/2021.
Compartilhar

1 COMENTÁRIO

  1. Interessante este estudo pois nos permite entender melhor sobre este bravo povo ameríndio, com seus hábitos e costumes que, certamente deixaram um grande legado e que devemos sempre defender seus descendentes, dos quais fazemos partes, sejamos na maioria aculturados pelo sistema capitalista selvagem que não valoriza a nossa história, menospreza a nossa cultura e incentiva a destruição do que resta desses povos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui