“O primeiro contato registrado e documentado sobreas lendárias guerreiras, as Amazonas, aconteceu durante a expedição de Francisco Orellana, o primeiro europeu a percorrer o rio Amazonas…

… A expedição de Orellana prosseguia seu curso no dia 7 de junho, véspera de Corpus Christi, quando os espanhóis tomaram um pequeno povoado, quase só de mulheres, de onde começaram a recolher toda a comida que pudessem carregar. No final do dia, os homens da aldeia regressaram e deram com os espanhóis ocupando suas casas. Tentaram um ataque, mas recuaram perante as armas de fogo; reagrupando-se na floresta. Por volta da meia-noite, os índios atacaram e começaram a infligir algumas baixas aos espanhóis, que estavam dormindo. Orellana então gritou para os seus homens: “Vergonha! Vergonha, cavalheiros; eles não são nada. A eles!” E a situação se inverteu contra os índios. Essa foi uma das poucas ocasiões em que Orellana agiu como um típico conquistador espanhol, ordenando que a aldeia fosse incendiada e mandando enforcar os prisioneiros. Em geral Orellana tinha espírito de diplomata e se jactava de ter facilidades com os idiomas indígenas. O que quase sempre provocava muito desentendimento. A diversidade de idiomas falados na Amazônia desafiava qualquer candidato a poliglota. Assim que amanhece na aldeia saqueada, os espanhóis assistiram à missa de Corpus Christi e deixaram para trás alguns índios na ponta da corda e a aldeia em escombros.

Depois desse incidente, Orellana e seus homens nunca mais acampariam em aldeias indígenas, restringindo os desembarques ao mínimo necessário. Mas alguns dias depois, conforme já tinham sido avisados pelo chefe Aparia, eles entraram no território da rainha Amurians, ou a Grande Chefe”. Era uma área bastante habitada, com enorme população, mas bastante hostil. Na primeira tentativa dos espanhóis de desembarcarem para conseguir comida, mereceram um ataque tão feroz que tiveram de disputar cada centímetro de chão até conseguir voltar aos barcos, onde uma esquadra de canoas já os cercava. Entre os feridos estava frei Gaspar de Carvajal, que recebeu uma flechada na coxa e, mais tarde, em outra escaramuça, uma flechada num dos olhos.

O que mais tinha espantado os espanhóis era a presença-de mulheres entre os guerreiros. Carvajal as descreve como mulheres de alta estatura, pele branca, cabelos longos amarrados em tranças, robustas e nuas, vestidas apenas com uma tanga.

Um índio que caíra prisioneiro no primeiro combate serviu de informante a respeito daquelas mulheres. Interrogado por Orellana, ele contou que as mulheres viviam no interior da selva e todo aquele território lhes pertencia. Suas aldeias eram feitas de pedra e somente mulheres podiam viver nelas. Quando desejavam homens, elas atacavam os reinos vizinhos e capturavam os guerreiros. Se a criança nascida fosse mulher, era criada e ensinada nas artes da guerra que elas tão bem conheciam. Se fosse homem, a criança, quando não era morta, era entregue ao pai.

A história narrada pelo índio é a mesma que seria contada para sir Walter Raleigh e repetida 200 anos depois para o cientista Charle Marie de La Condamine, bem como para Spruce, 300 anos mais tarde. Mulheres guerreiras comandada por uma matriarca é um mito comum aos povos do rio Negro, médio Amazonas e Orenoco. Daí talvez a presença constante da história ao longo dos séculos, com uma força capaz de convencer La Condamine, Spruce e o historiado Southey, sem falar da ambiguidade de Humbold a respeito do assunto. Neste primeiro de maio quero homenagear as descendentes da Amazonas guerreiras, que por toda a nossa região enfrenta a pobreza, o abandono e as injustiças, sem perder o charme.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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