*Pedro Silva Barros

Comércio bilateral Brasil-Equador é marcado por forte assimetria e protecionismo brasileiro.

A expressão República das Bananas faz parte da história e do imaginário político latino-americano. Após o produto passar a ser de interesse da americana United Fruit Co., na virada para o século 20, a banana esteve no centro de várias intervenções militares e golpes de Estado na região.

Gabriel García Márquez eternizou em versão ficcional o massacre das bananeiras de Aracataca (Colômbia) de 1928 em “Cem Anos de Solidão”. Os trabalhadores da empresa fizeram greve por melhores condições de trabalho, os EUA ameaçaram invadir a Colômbia caso o movimento não fosse reprimido.

O governo colombiano, com apoio dos funcionários da empresa estrangeira, matou seus próprios cidadãos acusando-os de comunistas e deixou feridas até hoje não cicatrizadas.

Mario Vargas Llosa mostrou no recente “Tempos Ásperos” o papel da mesma empresa no golpe de estado patrocinado pelos EUA na Guatemala em 1954. Nesse caso, com o apoio de outros países da região onde a empresa também atuava.

Em 2014, a decadente United Fruit Co., que desde os anos 1970 opera com o nome de Chiquita Brands International, foi comprada por dois grupos brasileiros e é dirigida hoje a partir da Suíça. No mesmo ano, em 6 de agosto, Jair Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara dos Deputados para acusar uma famigerada articulação de partidos políticos de esquerda de estar por trás da abertura do mercado brasileiro para a importação de bananas.

PROTECIONISMO BANANEIRO

 O então parlamentar reagia a uma instrução normativa do ministério da agricultura do Brasil que permitia a importação de bananas do Equador com certificados sanitários emitidos por este próprio país. Na prática, a medida abria o mercado brasileiro de bananas, um dos mais fechados do mundo. Bolsonaro alegou que a ideia “com toda a certeza foi da companheira Dilma Rousseff porque o Equador faz parte do Foro de São Paulo”. No início do governo Bolsonaro, a regra foi revogada.

O atual presidente do Brasil passou a infância em duas pequenas cidades do Vale do Ribeira, região mais pobre do estado mais rico do Brasil. A maior parte de sua família segue vivendo na única área do Brasil que tem na produção bananeira sua principal atividade econômica. Argumenta que concorrência equatoriana “beira o terrorismo” e traria pragas que não existem no Brasil.

Na segunda-feira (24), pela primeira vez, Bolsonaro visitou um país onde a banana é tão importante quanto na região onde ele cresceu. As dinâmicas produtivas desse produto no Brasil e no Equador, porém, são bastante diferentes.

Jair Bolsonaro participa da cerimônia de posse do presidente equatoriano Guillermo Lasso, em Quito – 24.mai.2020/AFP

O Equador é o principal exportador mundial de bananas. Em 2020, exportou US$ 3,3 bilhões do produto, enquanto o Brasil vendeu apenas US$ 25 milhões, 44% menos que havia exportado em 2010 e menos de um centésimo das vendas equatorianas.

A produtividade bananeira média do Equador é de 36 toneladas por hectare (t/ha), mais do que o dobro da brasileira. Em Miracatu (SP), onde um irmão de Bolsonaro é o chefe de gabinete do prefeito, a produtividade é de 15 t/ha e em Registro (SP), onde a irmã do presidente está internada em decorrência da Covid-19, a mesma área produz 17 toneladas em média.

OUTRAS FRUTAS

 Em 2000, o Brasil exportava o mesmo valor em bananas e uvas. Nos anos seguintes o mercado de bananas seguiu fechado e o de uvas foi aberto. A qualidade das uvas brasileiras melhorou mais do que a das bananas.

Vinte anos depois não houve mudança significativa na quantidade de bananas exportadas e a de uvas mais do que triplicou. Ainda que o Brasil importe muito mais uvas do que bananas, o superávit na balança de uvas é mais do que o dobro do que o de bananas.

Em relação a outras frutas, como mangas e melões, os resultados comerciais do Brasil são ainda mais evidentes. Em 2000, o Brasil não exportou mangas e exportou US$ 25 milhões em melões. Vinte anos depois, o Brasil exportou US$ 247 milhões em mangas e US$ 147 milhões em melões.

DIPLOMACIA PRESIDENCIAL

 A partir de 2000 o Brasil liderou a integração regional utilizando-se largamente da diplomacia presidencial. A primeira reunião com os doze presidentes da história da América do Sul foi em Brasília no ano de 2000, reunindo presidentes politicamente antagônicos como o peruano Alberto Fujimori e o venezuelano Hugo Chávez em torno de uma agenda comum.

Na década de 2000, houve 12 encontros entre os mandatários de Brasil e Equador. Nesse período, a corrente de comércio entre os dois países cresceu de US$ 151 milhões para mais de US$ 1 bilhão. Em contraste, nos últimos 10 anos foram apenas dois encontros presidenciais bilaterais, um em 2013 e outro em 2016. Em 2019, a corrente de comércio entre Brasil e Equador havia retrocedido para US$ 915 milhões e em 2020 caiu para US$ 686 milhões.

Há 15 anos era padrão que o presidente brasileiro viajasse acompanhado de ministros da área econômica e de empresários de diferentes setores. Em contraste, na delegação brasileira em Quito se destacam os deputados ideológicos, como Eduardo Bolsonaro e o pastor Marcos Feliciano.

Embora tenha participado da posse de Lacalle Pou no Uruguai, Jair Bolsonaro não esteve na cerimônia de início de mandato de outros cinco presidentes da América do Sul nos últimos dois anos (Argentina, Bolívia, Guiana, Suriname e Venezuela; no último caso, reeleição).

AGENDA ECONÔMICA BRASIL-EQUADOR

 O comércio bilateral Brasil-Equador é marcado por forte assimetria e protecionismo brasileiro. O Brasil vende oito vezes para o Equador do que compra do país. As vendas brasileiras para o Equador, assim como para os outros países da América do Sul, são diversificadas e mais intensivas em produtos industrializados. Embora o Equador só responda por 0,5% das vendas totais do Brasil, o país compra mais de 1% dos produtos industrializados que o Brasil vende.

A recuperação do comércio bilateral e a diminuição do déficit equatoriano poderia ser viável com melhoras na infraestrutura e a diminuição de barreiras não tarifárias. Aparentemente, a visita do presidente brasileiro ao Equador será meramente política e não apresentará avanços na agenda econômica.

A estruturação da rota multimodal entre o porto de Manta no Pacífico e Manaus ou a abertura do Brasil para a importação de produtos que o Equador é muito competitivo, como banana e camarão, ficarão para outra oportunidade.

Nos últimos anos, o Brasil abriu mão unilateralmente de seus dois principais instrumentos que tinha para fomentar suas exportações para a região: o financiamento pós-embarque do BNDES e o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR) da ALADI. Ao não apresentar política comercial para a América do Sul, o Brasil vê suas exportações industriais despencarem.

GUILLERMO LASSO

 novo presidente equatoriano foi eleito após ter menos de 20% dos votos no 1º turno e derrotar o novato Andrés Arauz no 2º turno por estreita margem. Politicamente de direita e nascido em Guayaquil, principal cidade da costa equatoriana, próxima das áreas de produção de banana e camarão, Guillermo Lasso se identifica mais com outros milionários autodeclarados liberais que governaram recentemente na América do Sul, como Mauricio Macri ou Sebastián Piñera do que com Bolsonaro.

O que poderia ser um encontro de líderes políticos regionais para retomar a diplomacia presidencial e fortalecer a integração em temas como saúde pública e recuperação econômica, parece que se limitará a mais uma expressão da fragmentação política da América do Sul.

Equador encara disputa acirrada em 2º turno de eleição presidencial neste domingo (11)

Treze milhões de pessoas são esperadas neste domingo (11), aos centros de votação para eleger o próximo presidente no segundo turno das eleições no Equador; na foto, uma mulher chega a uma seção eleitoral na cidade de Pujili Santiago Arcos – 11.abr.21/Reuters

Acompanhada do cachorro, eleitora vota no segundo turno das eleições presidenciais em Quito Luisa Gonzalez – 11.abr.21/Reuters

Nos centros de votação, as urnas são cercadas por proteção em que se lê ‘o voto é secreto’ Luisa Gonzalez – 11.abr.21/Reuters

Nos dias antes da posse os presidentes do Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai desistiram de comparecer. Os presidentes da Argentina, Bolívia e Peru não manifestaram interesse em ir a Quito. O presidente da Venezuela nem foi convidado e o Equador tem poucas relações com Guiana e Suriname.

Dos onze mandatários da América do Sul que poderiam ir à posse de Lasso, apenas Bolsonaro foi a Quito. A presença do presidente do maior país da região não atraiu nenhum mandatário vizinho, refletindo uma falta de liderança e isolamento sem precedentes. Chove em Macondo e nem sobre bananas irão conversar.

*Economista e doutor em Integração Latino-Americana. Artigo na Folha de São Paulo de 28/05/2021.
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