Liberman (1989), acrescenta que a comunidade judaica de Itacoatiara possuía entre seus membros, indivíduos com formação intelectual invejável. Dentre estes, destaca a figura de José Benedito Cohen, que trilhou como personalidade acadêmica, os meandros do mundo literário e do movimento sionista. A autora destaca inclusive, que foi um dos nomes que tiveram papel preponderante na literatura da região. Este, possuidor de uma cultura eclética, escreveu sobre arte e música, traduzindo um artigo do alemão sobre as operetas do judeu Jacques Offenbach. Como crítico social mereceu a desaprovação de muitos de seus amigos marroquinos, quando editou a obra Atravez do Marrocos, onde retratou o atraso e a miséria em que viviam os judeus no Norte da África (A COLUMNA, 1917). A produção literária de José Benedito Cohen foi reconhecida por seus contemporâneos e suas poesias integram a obra: Literatura Paraense [1]  assim sendo comentado por Azevedo (1943):

Só um poeta autêntico que fala o português e que sente perfeitamente a alma dolorosa dos hebreus podia reproduzir o estro e o coração da raça multisecular, dispersa no globo, porém unificada no sentir e no desejo, devorada de sede de Deus, inquebrantável na fé bendita das promessas de Adonay e Abraão, quando a tristeza do infortúnio lhe descia sobre a veneranda velhice. Benedito Cohen encheu os templos maçônicos do Pará e do Amazonas por onde também andou com as belezas de seu verbo empolgante (AZEVEDO, 1943. p. 135-136).

O jornal A Columna (1917) cita a admiração recíproca de Benedito Cohen por Eustáquio de Azevedo tendo por exemplo o poema Alma Doente, dedicado ao amigo. Esse poema consta na Antologia da Cultura Amazônica2 reunida por Carlos Rocque. Além da atividade literária, Benedito Cohen, pode ser considerado, juntamente com o Major Elieser Levy, David José Pérez e Álvaro de Castilho, como um dos ideólogos do sionismo brasileiro.

Polemizou, por suas ideias, com muitos dos judeus da Amazônia, que não compreenderam o sentido e a dimensão de seus escritos. Em artigo denominado Nossos Irmãos da Amazônia3, caracterizou Belém, como: a mais rica, a maior e a mais organizada colônia hebraica do Brasil por sua fortuna, inteligência e finíssima qualidade. Identificou Itacoatiara e Parintins como dois pedaços de Canaã- a Terra Prometida- no centro do Amazonas, e criticou Manaus, que embora possuindo fortunas assombrosas, não tinha até aquele momento, um cemitério e nem sinagoga (A COLUMNA, 1917).

A crítica aguçada de Cohen, endereçada aos leitores da Amazônia, revela a falta de engajamento político das comunidades judaicas da região em prol da causa sionista. No mesmo artigo: Nossos Irmãos da Amazônia, suscitou num tal Sr. A. B., uma reação negativa assim expressa: […] para que me serve ter pátria se ainda não veio o Messias? Eu acho que isso não é mais do que uma palhaçada […] E quem está à testa disso? Uma porção de meninos (A COLUMNA, n. 21/24, ano II setembro a dezembro de 1917). Essa carta desatou em Cohen uma verdadeira torrente de indignação pela omissão demonstrada por esse Senhor. No entanto sua pronta resposta segue demonstrado aos leitores, a situação nefasta que estavam vivendo os judeus do mundo naquele contexto histórico:

Não obstante bandeirolar na flâmula da hipocrisia o dístico de igualdade e da liberdade, o israelita vive sob a pressão esmagadora do antissemitismo mais torpe, da mais baixa perseguição. A própria França, berço da civilização e da liberdade, de espaço a espaço nos vem ferroteando com a manifestação do seu ódio velho e concentrado!  E se não, haja vista para vergonhosa questão Dreifus […]. Sabe Sr. A. B. o que é um judeu na Rússia? Um cão: na Alemanha? Um burro de carga: Em Marrocos, a pátria do Sr. A. B.? Sinônimo de imundice: na Romênia o judeu só tem direito ao ar que respira, não pode ocupar emprego público ou particular que não seja de subalterno e de menor ordenado, não pode estudar, não pode possuir terras, não pode ensinar. No exército apesar de serem obrigados ao serviço militar, não passam de soldados por mais atos de bravura que pratiquem. São considerados vagabundos por serem estrangeiros […] Pois se tivéssemos uma pátria teria, fora dela um embaixador, um ministro, um cônsul, etc. […] Teríamos tratados que nos garantissem as nossas propriedades, teríamos enfim de lançar mão e a quem recorrer, quando nos negassem o direito a justiça, como tem todos os povos desde os mais cultos aos selvagens (Carta aberta ao Sr. A. B.,  redigida em Óbidos, e publicada por A Columna n. 21/24, ano II, setembro a dezembro de 1917 grifo nosso).

Liberman (1989) mensiona que, como forma de resolução de todas essas atrocidades cometidas contra judeus, Cohen sugeria a luta coletiva dentro do movimento sionista nacional e internacional o qual possibilitaria como desdobramento futuro a criação do estado de Israel. O conflito entre judeus contrários e favoráveis ao sionismo, durante e após a primeira Guerra Mundial, criou uma arena comum de debate e interlocução, formada por diferentes setores e agrupamentos judaicos, quer em cidades como Itacoatiara, Manicoré4, ou grandes centros como Manaus e Rio de Janeiro.  Nesta arena por um lado eram reproduzidas visões de mundo, trazidas do velho continente, e, por outro lado criadas novas situações e configurações sociais em consonâncias com as demandas locais. Em suma, organizados em torno de diferentes ideologias esses grupos defendiam suas perspectivas ideais de judaísmo e seus respectivos projetos políticos comunitários.

Esse ativismo social-nacionalista dos judeus de Itacoatiara, para Liberman (1989), possibilitou a criaçao em 1901 da Sociedade Exercício de Caridade de Israel de Itacoatiara – Hebra Guemilut Hassadim -SECIGH, sendo a primeira diretoria5  e sua estrutura administrativa composta por 81 sócios,  com suas  ações dirigida por vários amigos e correligionários, que investiram recurso financeiro, para o apoio material nas atividades assistenciais que a referida SECIGH, se propunha a desenvolver. Dentre outras atribuições, ajuda material aos menos favorecidos, acolhimento e abrigo aos imigrantes, bem como, orientação e apoio profissional para inserção destes no mercado de trabalho local.

Destaca-se com isso, o elevado espírito de justiça social, representado, por esta sociedade, que muito contribuiu, para a manutenção e o sucesso da vida comunitária, articulando e mobilizando a rede de contatos, com seus pares, sobretudo no encaminhamento para trabalho em seringais, castanhais, vilas e cidades da região (LIBERMAN, 1989). A existência dessa sociedade é uma evidência concreta de que os judeus que chegaram à Itacoatiara não ficaram desassistidos, além da maioria já possuir parentes e amigos nesta cidade, o que levou Benchimol (2005), a afirmar que a imigração judaica foi uma imigração essencialmente familiar. A organização eficiente da comunidade criou essa instituição de assistência econômica, social e moral que, atuando como uma rede efetivamente proporcionaram contatos, oportunidades e recursos que facilitaram em muito a inserção e o estabelecimento das famílias na nova sociedade. É claro que tais serviços não estiveram disponíveis aos pioneiros, mas à medida que a comunidade crescia, esforçavam-se por acolher o imigrante com orientação, ajuda assistencial e emprego.

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[1] AZEVEDO, J. Eustáquio de. Literatura Paraense.  Oficinas Gráficas do Instituto Lauro Sodré: Belém, 1943.

2 ROCQUE, Carlos. Antologia da Cultura Amazônica. v. I, poesias. Amazônia Edições Culturais: Belém, 1940.

3  Jornal A Columna n. 20, ano II, 03-08-1917.

4  Moysés Cohen na carta redigida em Manicoré, faz doação ao movimento sionista assim se expressando: “Sabendo que V. S. é um dos maiores defensores de Israel, e coluna de ferro dessa sociedade, o que me enche de orgulho, tomo a liberdade de consignar-lhe a referida quantia de 150 francos para o Fundo Nacional Sionista Internacional (c.f. carta de Moysés Cohen para Max Nordau, Manicoré: 12/03/1901. Arquivo Sinonista Central de Jerusalém ASC –A119/137. Apud: MILIGRAM, 1994 p. 623).

5 A SECIGH, era composta de presidente: Izaac José Pérez, vice-presidente:  Elias Alves da cidade de Rabat no Marrocos, 1° secretário: Leão Elmaleh, 2° secretário: Abrahão Ezaguy, tesoureiro: Abraham Dahan, e orador oficial: José Benedito Cohen (A COLUMNA. n◦ 04, ano I, 07-04-1916). Atas da SECIGH nas datas: 08.07.1900; 15.07.1900; 29.07.1900; 02.08.1900; 22.08.1900 (CENTRAL ARCHEIVES FOR THE HISTORY OF THE JEWISH PEOPLE.www. nli.org.il/>Acesso em 27.03.2016.

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Claudemilson Oliveira
*Amazonense de Itacoatiara. Claudemilson Nonato Santos de Oliveira é professor da rede estadual de ensino (SEDUC), onde atua desde 2000. Tem mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia-PPGSCA/UFAM. É vinculado a dois grupos de pesquisa cientifica registrados na CAPES: Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades da Amazônia Brasileira-NEPECAB/UFAM e Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização Científica-NEPAC/INPA. É membro fundador da Academia Itacoatiarense de Letras -AIL. Atua como militante em defesa das Comunidades Tradicionais Quilombola e Indígena. Articulou em 2014 junto a Fundação Cultural Palmares-FCP, autarquia do Ministério da Cultura a certificação do Quilombo de Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa.

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