Para Godim (2007), esse envolvimento voluptuoso acentuava-se com o colorido vivo da vegetação, acima de tudo com aquela simulação do Paraíso, do Jardim do Éden, onde a Eva cabocla de tal maneira surgia sedutora, a ponto de o próprio tempo ficar suspenso, e com ele todo o imaginário e a memória dos antepassados. Essa desvirtuação da moral judaica, significava que, um novo maravilhoso tomava conta de si, hipnotizando-o, como um canto de sereia ou o guiso de uma sucuri. A mesma irresistível excitação que muitos náufragos, soldados, aventureiros e toda sorte de gente vinda de Portugal, França ou Holanda, sentiram, ao deparar-se nas praias brasileiras com índias formosas e sensuais, estes mesmos imigrantes marroquinos sentiram, ao trocar o deserto pela floresta. Pressionava-os uma dualidade sentimental/moral, que cotidianamente, oscilava entre a opção representada pelos tefilin – preces – todas as manhãs, e o amor carnal estonteante às noites. Como exemplo desse encontro entre o deserto do Magreb e a floresta Amazônica, vale a pena rememorar a narrativa de Rubem Israel[1]:

O igarapé de Caburi era de águas muito claras e tinha muito peixe, sendo que uma das minhas maiores distrações era ir pescar, e pegava peixes de várias qualidades. Ao redor de nossa loja existia um cacoal que margina o igarapé. Pouco abaixo de nossa loja, existiam várias casas de moradores, todas marginando o Amazonas e, bem perto de nós, morava a família de seu Maneco. Ele era um pescador bonachão e sua única preocupação era pescar pirarucu, vendê-lo, comprar o necessário para sua casa e somente pescar de novo quando acabavam os mantimentos. Vivia quase sempre numa embriagues inofensiva. A mulher, Nhá Tereza, passava a maior parte do tempo em casa do vizinho. Era uma cabocla forte e ainda bem bonita. Tinha uma filha, Orminda, de 18 anos, cabocla pura, olhos grandes, boca pequena, lábios grossos, e cabelo até a cintura, muito viva e sempre censurando o pai. Era a Orminda que quase sempre ía à loja fazer compras e sempre conversava comigo. Um dia passei-lhe as mãos pelos cabelos e lhe disse que era muito bonita. Ela retribuiu e galanteou-me, passando a mão pelo meu rosto. Esta simples carícia despertou em mim instintos desconhecidos e passei, daí em diante, a pensar nela. No dia seguinte, ela veio novamente à loja e eu não estava, perguntou por mim e lhe disseram que eu estava no igarapé pescando. Ela foi pra lá. Me viu e disse que eu era um boboca, não sabia pescar, tomou-me o caniço, procurou com a vista outro lugar e imediatamente pegou um belo matrinchã. O igarapé distava uns 300 metros da loja e estava encoberto pelas árvores do cacoal. Orminda acariciou-me de novo e eu dei-lhe um beijo. Foi o rastilho que se incendiou, rolamos na relva e eu cometi o primeiro pecado e, se a esse ato se pode chamar de pecado, então eu fui um grande pecador. Ainda hoje, apesar de meus 80 anos, com saudade me lembro da Orminda, de olhos grandes, seios duros, o corpo exalando patchouli, que todos os dias vinha me procurar, ora no igarapé, ora no cacoal. E após oito meses assim, chegada a hora, chorando, nos despedimos (Memórias de Rubem Israel.  manuscrito em poder da família, Apud: HELLER, 2010. p. 147-148).

Souza (2000) comenta, que esse encontro afetuoso e intenso, entre dois mundos tão diferentes, não raro resultou num casamento, diríamos mesiânico. Isto é, quando as diferenças são, não apenas toleradas, mas exaltadas e benquistas, convivendo lado a lado como o leão e o cordeiro, no dizer profético. E, para a difícil decisão de entregar-se, ao encanto da assimilação, miscigenação ou aculturação, uma escolha equivale a abrir mão de todas as outras, a própria adaptabilidade ao espaço/tempo amazônico construiu uma solução: a família cabocla. Mesmo aqueles judeus imigrantes que trouxeram suas famílias, ou mandaram trazer suas futuras esposas do Marrocos, não raro se amancebavam com caboclas pelo interior, mantendo duas ou mais famílias. Pois, se passavam meio ano viajando pelos rios da Amazônia até os confins da Bolívia e Colômbia, enquanto a família permanecia em Manacapuru, Maués ou Manicoré. Nesse caso, não se pode surpreender, que constituíssem novas proles. Um procedimento que jamais seria admissível na terra de origem, ou mesmo na comunidade à qual se integrava nas pequenas cidades ribeirinhas. Mas, que na imensidão da Amazônia, era a própria essência da liberdade, espécie de caboclização do judaísmo marroquino. Afinal, quem saberia? Quase impossível a conexão entre as partes dispersas na grande região.

Benchimol (1998), sustenta, que essa caracterização carnal do judeu marroquino na Amazônia, não fazia parte da personalidade de Izaac José Pérez. Nascido em Breves, portanto brasileiro, de pais imigrantes marroquino, cursou educação básica até o segundo grau na AIU no Tânger, instituição de origem francesa, recebendo assim, educação escolar formal, com base na cultura ocidental. Sua atividade comercial em Apipica Boa Fé, região de Itacoatiara, ultrapassou os limites do sucesso que a vida tentou lhe impôr. Os ganhos acumulados pelo comércio extrativista, deram-lhe condições para estabelecer-se na sede do município, tornando-se sócio dos irmãos Ezagui, em diversificadas áreas comerciais que iam de fretamento de embarcações, consignações, aviamento, à venda de produtos importados, tendo como exemplo, a pujança e a variedade de produtos exibidos na Casa Moysés. Este estabelecimento comercial, transacionava quantidade considerável de produtos extrativistas como: jarina, couros de animais silvestres, borracha, castanha, cacao, plumas de garça entre muitos outros.

Sendo assim, de acordo com Falbel (2005), com a vida profissional relativamente consolidada, Izaac Pérez viaja em 19032 para Belém, onde casa-se com Rachel HilelBenchimol. Rachel Benchimol era descendente de uma família de judeus marroquinos quevieram de Gibraltar para se estabelecer em Cametá no ano de 1850. Residiu por algun tempo nesta cidade, e, anos mais tarde transferiu-se definitivamente para Itacoatiara, onde fixou residência, integrando-se a comunidade marroquina pré-existente, que a essa altura, de certo modo, já dominava boa parte do comércio extrativista e as atividades dele decorrente. Da união matrimonial entre Izaac Pérez e Rachel Benchimol, nasceram, os filhos Leon Izaac Pérez e José Izaac Pérez.

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[1] Rubem Israel, veio de Lisboa para morar e trabalhar, com os tios Jacques e Moacir Bentes em Parintins. Regateou por algum tempo na região da fóz do rio Autaz, contexto geográfico da narrativa supracitada. Foi casado com Dona Alegria, natural de Aljaciras, cidade do Marrocos (HELLER, 2010, p. 140).

2 Nesse ano, administrava em Itacoatiara o superintendente Joaquim Alves de Lima Verde (SILVA, 1970).

(Continua próxima semana)

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Claudemilson Oliveira
*Amazonense de Itacoatiara. Claudemilson Nonato Santos de Oliveira é professor da rede estadual de ensino (SEDUC), onde atua desde 2000. Tem mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia-PPGSCA/UFAM. É vinculado a dois grupos de pesquisa cientifica registrados na CAPES: Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades da Amazônia Brasileira-NEPECAB/UFAM e Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização Científica-NEPAC/INPA. É membro fundador da Academia Itacoatiarense de Letras -AIL. Atua como militante em defesa das Comunidades Tradicionais Quilombola e Indígena. Articulou em 2014 junto a Fundação Cultural Palmares-FCP, autarquia do Ministério da Cultura a certificação do Quilombo de Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa.

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