Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

No mesmo dia em que fizerem um monumento às 500 mil vítimas da Covid, farão uma foto comemorativa.

Meu amigo esquisito, conversando comigo sobre as redes sociais, disse uma frase que fez eco. “O povo de hoje tiraria selfies em Auschwitz.” Quem seria esse povo de hoje? Será que já não fizeram essa foto? Aposto que sim, legendada nas redes com alguma frase idiota do tipo #todoscontraopreconceito.

Seria, por acaso, o mesmo povo que faria uma selfie com os 500 mil mortos pela Covid-19 para bombar a carreira e o engajamento nos seus perfis? A mesma gente que o grande Nelson Rodrigues dizia adorar a pobreza do Nordeste, porque a fome dos outros tornaria essa pessoa famosa? Sim. Em cena, há a banalidade do mal na sua versão 6G -o marketing digital é o mal banal na sua forma disruptiva.

Talvez se a Hannah Arendt (1906-1975) estivesse viva hoje, ela escreveria uma continuação ao seu “Eichmann em Jerusalém”, lançado aqui pela Companhia das Letras, para descrever a banalidade do mal na sua versão digital.

Esse comportamento ascendeu à categoria de ferramenta de mercado, de reconhecimento, de autoestima. Enfim, se fez ethos de uma época. Ele não se refere mais apenas a estados totalitários, mas, também, ao mais comum dos indivíduos no seu dia a dia público e privado. O mofo que caracteriza o estado banal do mal, hoje, vem com aromas harmonizados para cada personalidade.

Veja imagens da filósofa Hannah Arendt

Hannah Arendt, autora de “Eichmann em Jerusalém” e outros textos fundamentais sobre filosofia e política, em 1944 Fred Stein

Arendt e seu segundo marido, Heinrich Blücher, em 1950 Reprodução/Reprodução

Vejamos uma hipótese para tamanho mau-caratismo. Se o totalitarismo depende do não engajamento da razão na ação política, arriscaria dizer que o apagão da razão pública se dá pelas mãos da humilhação da vida do espírito -título da obra inacabada de Arendt. Não existe pensamento público quando ele é capturado pela fúria da razão instrumental, que evoluiu para se transformar na ciência do marketing contemporâneo.

A ação política racional, que cultiva a vida do espírito como o ar que respira, sabe que uma vida pública sem isso é uma vida desumanizada. Essa seria a verdadeira função da política: humanizar.

Platão já sabia que uma cidade corrupta desumaniza o homem. Arriscaria dizer que a banalidade clássica do mal se capilarizou e se tornou, como está na moda dizer, fluída, não binária. Dos burocratas do extermínio aos idiotas das selfies, que não percebem que Auschwitz é um monumento à vergonha humana, a capitulação da vida do espírito se arrasta pelo mundo inteiro.

Por que fazer uma fotografia de si mesmo em um monumento à vergonha humana? Para fazer viva a memória? Não. Memória é um evento público, não da ordem de um espaço no celular ou na nuvem. Isso é simples narcisismo, outro nome para a miséria subjetiva.

Campo de concentração de Auschwitz

Janela mostra cápsulas vazias do gás venenoso Zyklon B, usado para matar os prisioneiros de Auschwitz James Hill/The New York Times

Próteses, muletas e outros equipamentos usados no campo de concentração foram guardados no museu James Hill/The New York Times

Os óculos das vítimas dos nazistas no campo de concentração viraram uma montanha de ferro retorcido e vidro James Hill/The New York Times

Fotos dos prisioneiros do campo de concentração foram preservadas e passaram a fazer parte do acervo James Hill/The New York Times

E o que dizer dos que aproveitam os 500 mil mortos pelo coronavírus no Brasil para promover a carreira, com lágrimas de crocodilo, e engajar seguidores? As juras de mal-estar não resistem à primeira taça de vinho ou a um piscar de olhos. No dia em que fizer um monumento aos milhares de mortos pela Covid-19, este mesmo idiota das selfies fará uma foto comemorativa.

O século 21 será do marketing -logo, da mentira- e da psiquiatria -logo, da doença mental-, que hoje é um importante objeto do capital.

Os profissionais de mercado colocaram o bloco na rua e agora sabemos que o homem é um animal idiota que só quer agradar e brilhar. Eles são sempre mais argutos do que os intelectuais almofadinhas, que posam de arautos da ética, brincam com o niilismo de cátedra e espalham que tudo é poder, tudo é relativo, tudo é narrativa -e, por isso mesmo, acabaram perdendo o bonde da história.

Afinal, fazer uma selfie em Auschwitz, com cara de conteúdo, é chique. Quem sabe você até coma alguém graças a essa “selfie profunda”. Ir à Polônia não é para qualquer um. A maioria vai apenas até a horrorosa Miami.

Fingir empatia com intenções estratégicas em relação a cada coração desconhecido que parou de bater na pandemia é o clímax da desumanização. A simples indiferença seria um ato de honestidade sublime. Ou até o silêncio.

A sinceridade hoje encanta como um milagre. Como diz o filósofo Simon Critchley, no seu “Tragedy, the Greeks and Us”, lançado pela Pantheon Books, a filosofia é fruto do desencanto. Desencanto com a religião, com os deuses, com a política, com os homens. Os gregos desencantados criaram a filosofia. E o desencanto continua sendo o motor da filosofia até hoje.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 27/06/2021.
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