*Basílio Tenório

O presente texto é uma exaltação à condição de mulher, da mulher médioamazônida, pois que se funda em uma história real entrelaçada à implantação do primeiro modelo econômico em Parintins e respectivo entorno. Modelo econômico centrado na pecuária e nas grandes plantações de cacau.

Meado do século XIX. O navio a vapor vindo de baixo, fumaçando preto, atracou noporto de Parintins. No convés de popa, um cercado de madeira roliça continha uma partidade gado, encomenda do pecuarista pioneiro Cláudio Brandão. Aliás, aquela não era a primeira,outras haviam sido trazidas pelo mesmo navio.

Junto à prancha de desembarque, famílias se aglomeravam tentando desembarcar.

Entre elas, José Nepomuceno de Castro e sua filha, uma linda menina de cabelos alourados,Idemila era o nome dela.

Próximo à prancha de desembarque, Cláudio Brandão conversava com o comandantedo navio, que lhe perguntou:

-Então, já conseguiu formar a fazenda?

-Ainda não, infelizmente! – Respondeu o pioneiro.

-Como assim?

-Onça, comandante, muita onça por aqui.

-Sério?

-É você colocar o gado e elas avançam à noite. Na manhã seguinte só encontrocarcaças pelas restingas, pelos igapós e pelos aningais…

José Nepomuceno de Castro, anos depois apelidado de Cazuza Galinha por haver registrado a sua propriedade à margem direita do Paraná do Ramos com o nome de “Canta Galinha”, em contracanto à propriedade “Canta Galo”, de Manoel da Silva Leo cádio localizada, em Parintins, ao longo da estrada que leva à região do Aninga. Por alguma razão eram eles ferrenhos desafetos. Fato é que Cazuza Galinha ouvia a conversa e ficou interessado.Então se aproximou de Cláudio Brandão e, após cumprimentá-lo lhe pediu trabalho.

Foi mais além; empenhando a sua palavra garantiu ao pecuarista pioneiro que ele haveria deformar a sua tão sonhada fazenda de gado em Santo Agostinho, sua propriedade de várzea àmargem esquerda do Rio Amazonas há algumas horas, de canoa, acima de Parintins.

Depois de ouvi-lo, Cláudio Brandão tanto o aceitou como vaqueiro como apostou naquele nordestino cabra da peste.

Fato foi que, do navio, Cazuza Galinha já saiu levando a boiada do patrão. Depois de desembarcada e levada para Santo Agostinho, daquela boiada as onças ficaram na saudade.

Aliás, onça não mais comeu gado naquela fazenda que prosperava mais e mais a cada dia que passava.

Aconteceu, entretanto, que a sua fama de matador de onça o levou a abandonar Cláudio Brandão para trabalhar por conta própria sediado em “Canta Galinha”, sua propriedade localizada um pouco abaixo de Barreira do Andirá, no baixo Paraná do Ramos.

Entre os seus clientes consta, entre outros, Claudio Rocha Brandão e Germano Rocha Brandão, o Géco Brandão.

Foi em “Canta Galinha” que Idemila cresceu, se tornou a linda mulher que foi e aonde aprendeu arte de caçar onças manejando o rifle e a faca.

Por força de ofício Idemila foi a primeira mulher a vestir calças compridas ou a se vestir como homem, em Parintins. Famosa enquanto exterminadora de onças no baixo Paraná do Ramos, seu nome era citado com respeito entre os pecuaristas, os caçadores de onça e a sua beleza era exaltada nos salões de festas entre a plebe e a conjuntura dos coronéis. Inveja da pelas mulheres, todavia, não teve a felicidade de namorar como uma garota normal. Não,porque se aparecia um pretendente, a primeira conversa era com o velho Cazuza Galinha que logo o convidava para uma caçada de onças.

Naquelas caçadas, arma de fogo? …nem pensar porque espantava a caça. As onças eram mortas a facadas, literalmente. Se os cães as faziam subir nas árvores Idemila subia, as fustigava com a ponta do esporão de modo que elas se jogavam e o velho Cazuza Galinha as aparava na faca; elas chegavam no chão já se estrebuchando, morrendo. Se o velho subia era Idemila que esfaqueava as onças em livre queda, onde um erro seria fatal.

É claro que os pretendentes aceitavam. Uma vez a caminho o Cazuza Galinha lhes perguntava: “Você vai com minha filha ou comigo? Com o senhor; é claro respondia o pretendente.

Então eles seguiam em frente. Os cães encontravam a onça que, acuada ou fustigada,subia na primeira árvore que encontrava pela frente. A dupla chegava e quando embaixo daquela árvore o velho Cazuza Galinha lhes perguntava novamente: “Você prefere subir e jogar a bicha lá de cima, ou ficar aqui embaixo e aparar a bicha na faca? ”Ali e naquele instante acabava o quase namoro de Idemila. Vezes houve que ao retorno da caçada os caçadores vinham respirando fedor de merda e os pretendentes de Idemila, envergonhados, desapareciam.

Certa vez o pretendente era um valentão afamado na região do Parana nem a, caboclo raçudo cuja munhecada numa briga de terreiro a enfermidade do vencido era de longa convalescença. Naquela caçada, se ele e o velho Cazuza Galinha seguiam pelo teso da restinga, Idemila seguia beiradeando a mesma restinga. Lá na frente os cães acuaram uma onça e a colocaram na roda. Embiara para a dupla de homens.

Cazuza Galinha há muito aprendera que a onça não saltava sobre o homem quando de frente, mas levantava nas patas traseiras para enfrentá-lo. Em razão disso usava uma forquilha, com a qual a enforquilhava pelo pescoço para que a facada fosse certeira no sangradouro da bicha. Mas ele estava enganado porque daquela vez a bicha saltou, por sorte ele já estava com a faca na mão e a encontrou estendendo para ela a mão armada. Errou o sangradouro e a faca entrou pala boca do felino. Aliás, faca, mão, braço até quase ao cotovelo estava dentro da boca da onça que estraçalhava o velho caçador.

A luta entre o homem e a fera acontecia no chão, terrivelmente dramática. Em perigo o velho Cazuza Galinha apelava ao seu convidado: “Atira na bicha, rapaz!” Mas ele não esboçava qualquer reação. Ao contrário, tremia de medo. Então chegou Idemila e gritou:

-Afaste a cabeça, meu pai!

O velho Cazuza Galinha a atendeu e o rifle calibre 12 “papo amarelo” entoou o seu canto de morte: Pouuuu!.. Ato seguinte, abriu a boca do felino e tirou o braço de seu pai,completamente estraçalhado.

Já de pé Cazuza Galinha empunhou o seu rifle e apontou para o peito do seu convidado. Mas em frações de segundos entre os estágios da ação do velho caçador a bela Idemila interpôs-se entre os dois protegendo a ambos; o rapaz da morte certa e seu pai de ser o assassino dele. Quando o velho baixou a arma, ainda protegendo o rapaz com o próprio corpo, Idemila falou-lhe:

-Ele é diferente de homens como o senhor, meu pai.

-Não, minha filha, ele é a vergonha dos homens desta terra.

-Releve, meu pai!…

-Não, minha filha, ele tem que morrer…

-Releve, meu pai, ele não tem culpa de ter nascido um homem frouxo.

Fato foi que mais uma vez fedeu merda naquele trecho infestado de onças no baixo Paraná do Ramos.

Enquanto isso, as fazendas dos clientes do Velho Cazuza Galinha se tornavam mais e mais prósperas a cada dia que passava, mas aquele “acidente de trabalho” acabou fazendo de Idemila uma caçadora solitária. Afinal, a família precisava sobreviver, uma vez que além dela e seu pai havia seus irmãos menores que dela dependiam.

O tempo também passava depressa, de repente a bela Idemila viu, através do espelho,os seus primeiros cabelos brancos.

Foi nesse estágio de sua existência que ela decidiu se deitar pela primeira vez com um homem, todavia, que ela mesma escolhesse. O escolhido foi seu tio e teve uma filha com ele que se chamou: Adalgisa.

Teve outros filhos e no avançado das primeiras horas do próprio entardecer conheceu Antonio Viana, apelidado de Padeiro, e com ele o amor. Casou-se com ele e tiveram muitos filhos. Foi justamente Antonio Viana que lhe deu o nome que a tornaria mais ainda famosa entre o baixo Paraná do Ramos e o rincão de Parinttin: Idemila Viana, a bela exterminadora de onças no baixo Paraná do Ramos.

Então os anos foram passando, outras fazendas foram formadas, outras ainda em formação e os pecuaristas prosperavam mais e mais, entre aqueles os irmãos: Cláudio Rocha Brandão e Germano Rocha Brandão.

Uma vez realizado enquanto pecuarista na região de Parintins Cláudio Brandão vendeu a sua fazenda e, sem despedir-se do velho Cazuza Galinha, nem de Idemila, mudou separa o estado do Rio de Janeiro onde na cidade do mesmo nome faleceu em ditosa velhice.

Germano Rocha Brandão, o Géco Brandão, vitorioso nos negócios e na política partidária, sua voz era como o trovão rouco no parlamento de Parintins enquanto se tornava dono daquelas terras no baixo Paraná do Ramos em frente Barreira do Andirá. Teve vida longa, tanto que iria falecer nos primeiros anos 1960, em ditosa velhice.

Morreu também o velho Cazuza Galinha e Idemila Viana, a bela exterminadora de onças no baixo Paraná do Ramos envelhecia pobre, doente e esquecida, mas contemplando as grandes fazendas já formadas, bem como as que iam sendo formadas do outro lado do Paraná do Ramos. Fazendas que ela ajudou formar com o desperdício da sua beleza, com a sua coragem suicida, com a pontaria precisa do seu rifle e manejando a faca.

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