Tia Idalina me encomendou tucupi, jambu e goma. Levei o desejado líquido em duas garrafas pet e o jambu congelado. A alegria de titia vale a pena aos atropelos de levar tais iguarias em meio a bagagem despachada.

Nada mais inusitado do que um tacacá na casa de tia Idalina em Copacabana. Só havia seis cuias. Uma senhorinha carioca queria tocar tacacá num prato fundo. Com colher. Tia Idalina protestou:

-Não temos pressa. As pessoas vão tomando e eu vou lavando as cuias. Ora, até as mais famosas tacacazeiras de Manaus fazem assim.

De repente chega Tina, sobrinha de Idalina, com um rapaz bonitão e forte. De barba cerrada. A moça apresentou-o como seu “crush”.

-Interessante, disse Idalina. “Crush” era um refrigerante de sabor laranja, que não fabricam mais. Agora significa namorado. Gosto de saber essas novas gírias. Mas não para usá-las. Jamais. E aconselho:

-Depois dos 50 anos não devemos usar gírias. Se não cair no ridículo denuncia a idade. Veja o Luisinho, fica falando gírias dos anos sessenta, como “É uma brasa, mora”. E chama os colegas de bicho! Ele e o Roberto Carlos.

-Então “crush” é a nova palavra para paquera. Há poucos anos usavam com frequência a palavra “ficante”. A moçada ficava. Fulana ficava com beltrano. Também está muito na moda a palavra namorido. Obviamente mistura de namorado com marido.

Alguém pergunta a titia como se dizia “crush” na sua época. A resposta foi hilária:

-Cacho. Dizia-se que fulana era cacho de fulano. Bem ofensivo, por sinal. Usava-se muito a palavra saçaricar. No sentido de saracotear e fazer gracejos.

O papo corria animado e todos se divertiram muito. No final a titia serviu uma deliciosa torta de banana pacovã. Só com suspiro. Sem creme. E perguntou:

– Então, gostaram do meu tacacá amazônico?

Tina foi logo dizendo:

– LACROU! Tia Idalina. É a nova gíria para arrasar. Era usada só pelo pessoal LGBT, mas todo mundo adotou agora.

– Gostei. No meu tempo se dizia abafar. Estou lacrando!

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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