Luiz Felipe Pondé

*Luiz Felipe Pondé

Estes são uma confissão envergonhada de sentimento de inferioridade.

A literatura especializada em política tem falado de “recessão democrática” (o filósofo nipo-americano Francis Fukuyama, por exemplo), no sentido de que estaríamos vivendo um período de retração das democracias, depois de um crescimento do número de democracias pós-queda do muro de Berlim, em 1989.

Atribui-se essa retração ao desmantelamento dos sistemas de pesos e contrapesos da democracia, como na Venezuela, Turquia e Rússia, ou ao retorno do populismo no seio da maior democracia da história, os EUA; ou por causa da incapacidade da democracia de resolver questões básicas como crime endêmico, desigualdade social crescente ou corrupção sistêmica como na quase totalidade da América Latina e na Índia.

Um outro detalhe importante é a crescente polarização das posições (o que não significa apenas duas posições em conflito), levando a violência do debate. Nesse caso, a “grande vilã” seriam as mídias sociais.

É sempre importante lembrar que a democracia é um regime que aconteceu na história, e, portanto, submetido às contingências. Como surgiu, pode desaparecer, pelo menos na forma que conhecemos.

Mas não quero discutir política propriamente dita. Quero pensar um pouco nos humores, como se dizia nos séculos 17, 18 e 19 na França. “Humores” aqui significam comportamentos, temperamentos, costumes, e humores mesmo, no sentido de bom ou mau humor.

Vivemos na era dos humores ofendidos. E aqui, também, há quem ponha a culpa nas mídias sociais, que trouxeram para perto da superfície da comunicação toda uma gama de pessoas que viviam no silêncio, na irrelevância e na invisibilidade.

Na hora em que esse “contrato de exclusão social da invisibilidade” foi rompido, o ressentimento, o rancor e o ódio mostraram sua face antes escondida. E a democracia pode não sobreviver a essa participação popular aguerrida, cozida no ressentimento, no rancor e no ódio.

O que são os humores ofendidos? Você sabe bem do que falo. Trata-se da destruição crescente da capacidade de discussão de ideias sem que alguém ache que alguém faltou com o respeito com alguém. Tem “alguém” demais nessa frase? Sim, tem. A presença demasiada de “alguém” aqui é a representação da saturação de sentimentos narcísicos que assola o mundo hoje.

Os humores ofendidos podem destruir a democracia porque esta exige pessoas que não se ofendam com tudo que os outros dizem. A democracia é um regime argumentativo, inclusive na dimensão social do debate. E retórico.

É possível sobreviver aos humores ofendidos? Para além de um fato evidente (uma cultura dos ofendidos é um mundo de chatos ressentidos), seria possível voltarmos aos tempos de uma democracia sem ofendidinhos? Por ora, parece que não.

Alguns especialistas, como Steven Levitsky e Daniel ​Ziblatt, entendem que você só pode discutir ideias de forma educada e distanciada se elas, as ideias, não significam, de fato, um risco para as formas de vida dos agentes envolvidos no debate de ideias. Se houver risco concreto, há risco de violência destrutiva da democracia.

Logo, podemos manter um debate elegante se nenhum de nós, de fato, colocar em risco as formas de vida do outro. Exemplo dessas formas de vida seriam patrimônio, cotidiano, futuro, autoestima, crenças religiosas ou quem de fato chega à condição de representantes do povo, com poder político de fato.

Dito de outra forma: só há tolerância quando não há razão de fato para não ser tolerante. Nesse sentido, toda a “ética de respeito ao outro” seria uma noite de queijos e vinhos entre outros que não são outros de fato.

Humores ofendidos ocorrem como decorrência da interação entre agentes na qual um dos lados sente que o outro é melhor do que ele. Se não achasse isso, não se ofendia. Ria, respondia, ia jantar fora, transava com sua mulher, enfim, tocava suas formas de vida.

Humores ofendidos são uma confissão envergonhada de sentimento de inferioridade.

A ofensa hoje nada tem a ver com a noção antiga. Na antiguidade, a ofensa era uma virtude pública. Hoje é uma miséria privada, um sentimento de inferioridade vivido no isolamento de um apartamento de dois quartos, diante da tela do computador ou do celular.

Na antiguidade, a ofensa era signo de força (nietzscheanamente falando), hoje é de ressentimento. Um ofendido se sente humilhado pelo que entende como superioridade do outro. Sensação que destrói sua autoestima, construída no silêncio de sua invisibilidade.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C6, de 09/07/2018.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui