“Trata-se de edificação que teve fama e tradição, mas terminou seus dias como Cabaré Chinelo depois de muitas glórias no período áureo da “belle époque” amazonense.”

A anunciada restauração do prédio do antigo Hotel Cassina tem dado o que falar, seja em roda de políticos como de técnicos, especialistas, jornalistas, professores e, notada mente, daqueles que são, verdadeiramente, apaixonados pela nossa cidade. Trata-se de edificação que teve fama e tradição, mas terminou seus dias como Cabaré Chinelo depois de muitas glórias no período áureo da “belle époque” amazonense. Mesmo assim, pertence ao imaginário coletivo.

Bem sei que não é tarefa fácil conseguir desenvolver projeto de restauração de prédio situado no Centro Histórico de Manaus, principalmente porque a legislação é rigorosa e todos os estudos devem ser submetidos ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -IPHAN que tem seus próprios

métodos e procedimentos e, por incrível que pareça, também faz as suas escolhas em relação à soluções que possam vir a ser adotadas em quaisquer obras desta natureza.

O que andei vendo pela imprensa – não sei secoincide com o projeto final de recuperação do Hotel -, confesso, com todo respeito pelo autor, não estaria em conformidade com os melhores padrões técnicos que foram adotados para outras edificações igualmente importantes em nossa terra, e diverge; profundamente, da feição tradicional do imóvel ou da conformidade como ele sempre se apresentou aos nossos olhos.

Não se diga, entretanto, que ao autor do projeto não seria permitido promover adaptações internas para ajustá-lo ao uso a que se destina, aliás, bastante meritório o novo uso anunciado.

De outro lado, vale uma pergunta: porque restaurar um imóvel considerado patrimônio da cidade se não for para restabelecer, o máximo possível, a sua presença na paisagem conforme é reconhecido pela sociedade local?

Neste sentido foram procedidas restaurações anteriores em Manaus, restabelecendo a forma pela qual os prédios sempre foram apresentados, o que diz respeito ao próprio nome do serviço: “restauração”.

A criação, ou a livre criação, importante para firmar os traçosdo arquiteto, o seu bom gosto e qualidade profissional, cai muito bem em edificações novas ou que não digam ao sentimento e à tradição do povo, e, ainda melhor, àquelas que livremente podem fluir de sua inspiração.

Assim andaram Oscar Niemeyer e Lúcio Costa em Brasília, e muitos e muitos outros mundo afora, e, em nosso meio, osemprefestejado Severiano Porto, inaugurando traços, formas, materiais e modelos.

No caso do Hotel Cassina, seja pelo que ele simboliza para a cidade como também pela elegância e classe do edifício, salvo melhor juízo como dizem os juristas, não vejo razão para que sobre suas fachadas e seu conjunto arquitetônico seja promovida interferência de qualquer natureza, forma ou fim.

Ele se basta, tal como sempre foi desde os primeiros anos de 1900 e conseguiu permanecer ao longo dos tempos mesmo quando debaixo de todos os temporais, inclusive com seus gradis rendados e sofisticados (belos e únicos gradis), cobertura em telhas de barro, portais, janelas e revestimento peculiar, e, a meu ver, com alguma experiência em tais serviços, creio que bastaria recompor os danos que o tempo deixou como marcas de sofrimento e abandono, implacável como sempre.

Na condiçãode apaixonados pela cidade é o que esperamos que seja feito e nos daremos por satisfeitos e felizes.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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