Primeira Parte 

Antecedentes 

1 – Prováveis origens 

Tem uma coisa que deixei de fazer enquanto jovem, e pela qual me entristeço hoje: não registrei a história da minha família enquanto meus antecedentes ainda podiam fornecer informações e provas testemunhais de fatos acontecidos num passado recente, mas desconhecido da grande massa consumidora de cultura. Não porque meus avós tenham realizados grandes e admiráveis feitos históricos e pelos quais esta geração deva lembra-los. Muito pelo contrário, é porque foram pessoas simples que construíram suas vidas sobre alicerces simples de uma sociedade simples, distante dos centros urbanos onde estava se consolidando um contrato social recheados de saberes acadêmicos, de artes, de luxos, de riquezas. Entretanto, a ciência e a tecnologia vieram em meu socorro, oferecendo-me, para reparar meu pecado, uma ferramenta inimaginável há meio século para quase a totalidade dos simples mortais: a internet. Agora, já no avançado entardecer da minha vida, auxiliado por essa ferramenta de utilidade inquestionável, estou me propondo resgatar lembranças, imagens, símbolos, enfim, contar para meus netos e sua geração, talvez para gerações posteriores, um pouco das histórias do homem do interior, do seu cotidiano, dos seus sonhos, do seu labor, enquanto conto a história da nossa família.

Melo e Nogueira, meus sobrenomes, são nomes ou apelidos de famílias portuguesas com raízes no passado medievo.

Segundo a Wikipédia1, a Enciclopédia Livre que a internet oferece à investigação,  “Melo (em ortografia arcaica Mello) é um relativamente frequente apelido de família da onomástica da língua portuguesa. Sua origem provável é o topônimo Melo (em Portugal), cuja origem poderia ser uma corruptela do nome de uma ave, o melro. Descende esta família da linhagem dos de Riba de Vizela.  D. Soeiro Raimundes de Riba de Vizela que em princípios do século XII vivia na sua quinta de Aguiar, freguesia de S. Cosme, concelho de Gondomar, junto ao Porto, foi rico-homem e alferes-mór de D. Afonso II e casou com D. Urraca Viegas. Foi chamado o Merlo – ou «melro» -, (contemporâneo dos reis D. Afonso III e D. Dinis) foi chefe de linhagem dos «de Riba de Vizela» e, por esta via, da dos «da Maia». Vindo para o Sul, fundou na Beira a vila de Merlo, depois Melo, sendo dela senhor, bem como de Gouveia. Do seu casamento com D. Urraca Viegas, filha de D. Egas Gomes Barroso e de sua mulher D. Urraca Vasques de Ambia, teve descendência na qual se fixaria o nome Melo. Assim, de seu filho D. Mem Soares de Melo, que lhe sucedeu como Senhor da vila de Melo, provém a família Melo. De seu outro filho, Pedro Soares, provém a família Alvim”.

A mesma enciclopédia registra que a família Melo tem origem em D. Mem Sores de Melo, que “foi Rico-homem do Conselho do rei D. Afonso III de Portugal em 1248, tendo-o acompanhado na Conquista do Algarve e na Tomada de Faro em 1249. Aparece documentado na Cúria algarvia com o título de privatus regis”. Essa fonte informa que sua biografia comporta o exercício do cargo de Governador na cidade de Gouveia no ano de 1258, e na cidade Leiria em 1254; que foi o primeiro da sua linhagem e usar o nome Melo.

Certamente que da Beira do Sul, onde estava situada a Vila de Merlo, ou Melo, a família espalhou-se para outras regiões, inclusive para o noroeste, especialmente Entre-Douro-e-Minho, de onde séculos mais tarde seus descendentes viriam para o Brasil em busca de melhores dias.

Outra publicação na internet2 diz que “o noroeste português foi o que mais forneceu imigrantes para o Brasil, em especial o Minho (que corresponde aos atuais distritos de Braga e Viana do Castelo). O Sul de Portugal era dominado por latifúndios e grandes propriedades rurais. No Norte, por sua vez, predominavam pequenas propriedades agrícolas. Portanto, quem não adquiria um pedaço de terra estava fadado à pobreza. Sendo a região do Minho a mais densamente povoada de Portugal, formou com o Brasil-colônia – e sucessivamente com o Brasil Imperial e com a República – uma ampla rede de migrações. Sucessivas gerações de portugueses nascidos no Minho emigraram para o Brasil. Isso servia para se ter um equilíbrio entre a escassez de recursos, o crescimento constante da população e a falta de terras. Assim, famílias minhotas incentivavam a emigração periódica de seus filhos para o Brasil como forma de não sobrecarregar a economia baseada na pequena propriedade rural.  Conclui dizendo que “os dados sobre os imigrantes mostram que os trabalhadores agrícolas sem terra formavam o grupo mais numeroso de imigrantes que partiam para o Brasil, correspondendo a 50,3% e a 33,6% dos que chegaram nos anos de 1906 e 1913, respectivamente”.

Fortes evidências me levam a crer que Luís Figueiredo de Melo, português da gema, chegou ao Brasil junto com um dos grupos de imigrantes que aqui aportaram entre 1906 a 1913, embora seus antecedentes o precedessem muitas décadas, talvez séculos.

Bertoldo Antônio Nogueira teve seu umbigo enterrado aqui mesmo no Brasil, embora sua árvore genealógica tenha raízes em Portugal3.  “Existem indícios de que descende da família de D. Mendo Paes Nogueira, sobrinho de D. Mendo Nogueira, cavaleiro da Ordem do Templo, em 1089, e que seu solar é a torre de Nogueira, na ribeira do rio Minho”. Esses ancestrais Nogueira, objeto destes registros, chegaram ao Brasil mais ou menos na mesma época em que os ancestrais Melo chegaram, sendo que Luís Figueiredo de Melo veio diretamente de Portugal, e que Bertoldo Antônio Nogueira descende do patriarca Antônio Guimarães Nogueira, vindo do Pará, mais especificamente de Santarém. Seus ancestrais mais remotos foram trazidos para este continente talvez pelos mesmos motivos: a escassez de terras no noroeste de Portugal em comparação com a abundância existente no Brasil.

É de se esperar que, apesar da origem nobre das duas famílias, seus descendentes séculos mais tarde tenham experimentado grandes dificuldades para sobreviver, uma vez que as grandes áreas de terras que possuíam iam fragmentando-se a cada geração em razão da partilha da herança entre a numerosa prole de cada patriarca.

2 – Em busca do Eldorado 

Parte de uma de tese mestrado4 apresentada por Estefania Souza Silva e Ernesto Renan de Freitas Pinto no XIX ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA5 realizado em São Paulo no ano de 2009, declara que “estudou-se a produção de cacau nos municípios de Coari, Manaus e Urucurituba. Comentam que a carta Régia de 8 de dezembro de 1677 e o alvará de 3 de março de 1680 concediam prêmios e favores aos que se aplicavam a cultura do cacau no Brasil”. O objetivo específico da tese era “compreender por que a cultura do cacau, que já chegou a ser o sustentáculo da região Norte, hoje ocupa o terceiro lugar em escala nacional”. Assinalam que toda a literatura especializada no assunto, seja no aspecto histórico, econômico, social e mesmo técnico, aponta a presença de cacau em toda a Amazônia, seja em regiões de terra firme, seja nas várzeas.

Com a decadência da produção cacaueira, a riqueza nacional passou a depender, em grande parte, do extrativismo. Na segunda metade do Século XVIII um naturalista francês tomou conhecimento de uma pegajosa e espessa seiva utilizada pelos índios centro-americanos para fabricação de diversos objetos do seu cotidiano6. Estava dado o primeiro passo para o período histórico que ficou conhecido como “Ciclo da Borracha”.  A Revolução Industrial pariu a indústria automobilística que, por sua vez, veio a ser a principal consumidora do látex extraído principalmente na Amazônia, onde as seringueiras nativas eram abundantes.

Essas duas principais fontes de riquezas atraíram, cada uma em sua época, muitos imigrantes de outras partes do Brasil e do mundo, especialmente de Portugal. Carlos7 Fontes8 informa que “no final do século, milhares de emigrantes dirigiam-se também para o Amazonas, onde se iniciou a exploração da borracha. A maioria dos emigrantes portugueses eram oriundos do Minho, Douro e das Beiras. As ilhas dos Açores, e em menor grau a Ilha da Madeira, enviaram também grande número emigrantes”.

Na parte que interessa à história dessas duas famílias, antes de tudo é preciso circunscrever os limites territoriais da influência dos Melo e dos Nogueira. Os primeiro estabeleceram-se na Ilha Grande do Soriano, uma ilha que se formou no meio do rio Amazonas, exatamente em frente à desembocadura do rio Madeira, enquanto os Nogueira fincaram suas moradas bem em frente, na Costa da Conceição, terras de várzeas, alagadiças, propícias à cultura do cacau por serem relativamente rica em sais minerais e nutrientes, decorrentes do efeito das enchentes, e onde a seringueira poderia também ser cultivada. Certamente esse foi um dos importantes fatores que atraiu os descendentes dos Melo e dos Nogueira para o interior do Amazonas.

Em Portugal a economia não andava nada bem. “Entre 1715 e 1755 jamais a coroa portuguesa estivera tão rica, porém o reino nunca estivera tão pobre, isto se deve a apatiado povo e pelas loucuras das grandezas e das pompas e esbanjamentos do rei. Na corte portuguesa reinava o máximo esplendor, entretanto a agricultura e a indústria se definhava e o país começava a sentir o efeito da emigração em massa para o Brasil”8.

Silvia Lourenço9 conta que essa situação obrigava as pessoas fugirem às más condições de vida, numa tentativa de sobreviver às dificuldades com que se deparavam. “Como tal, verifica-se um maior número de emigrantes entre os mais pobres, uma vez que estes eram forçados a partir quando o seu modo de vida tradicional se tornava difícil, ou mesmo impossível”.

É impossível saber se os Melo e os Nogueira vieram ao Brasil para fugir às dificuldades econômicas que grassava pras bandas do Minho, Douro e das Beiras, e onde a carestia imperava, ou para ampliar as riquezas traduzidas em grandes extensões de terras nas mãos de poucos estabelecidos no sul maravilha de Portugal da época.

O que há de certo é que esses ancestrais não tiveram dúvidas: “O Brasil é a salvação da pátria. Vamos todos p’ra lá!” Então seus destinos foram colocados nas mãos de agentes contratantes da mão de obra de que Brasil carecia.

3 – Uma realidade não sonhada

 Baseados nas notícias que corriam à época, cada um, a seu modo, construía seu mundo particular de sonhos e ilusões, segundo os limites de sua imaginação. Silvia Lorenço10 informa que “começaram a surgir todo o tipo de mitos, desde ruas cobertas de ouro, a histórias de homens pobres que conseguem, fácil e rapidamente, alcançar a ascensão económica e social que todos ambicionavam”.  Difícil era chegar ao Brasil, mas, uma vez chegando, era apodera-se de uma grande extensão de terras, trabalhar, encher a burra, e retornar à pátria transbordando de poder e glória.

Entretanto, a partir do relato de Joaquim da Costa Leite11, da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, não é difícil imaginar o quanto esses ancestrais sofreram para, primeiro, chegar ao Amazonas, quer vindos diretamente de Portugal quer vindo de outras regiões do Brasil, depois, bater de frente com uma realidade nunca imaginada.

“Com efeito, os emigrantes com destino ao Brasil e aos Estados Unidos enfrentavam na travessia do Atlântico o seu primeiro grande teste; os camponeses, sobretudo, habituados aos espaços abertos e à terra firme debaixo dos pés, sentir-se-iam apertados e inseguros no limitado espaço de um veleiro, entregues durante semanas consecutivas à força imensa do mar e do vento.

Os veleiros da carreira do Brasil eram, na sua maior parte, embarcações de 200 a 400 toneladas, capazes de transportar entre 100 e 200 pessoas. Como passageiros de proa, os emigrantes não tinham acomodações próprias e dormiam no chão de um porão atravancado, escuro e sufocante. Falta de espaço e falta de higiene constituíam as queixas mais frequentes dos funcionários consulares nas suas visitas de inspecção. A ementa tinha como base o arroz e o biscoito duro, carne e peixe salgado; sem qualquer mesa, uma tina de comida reunia à sua volta um grupo de pessoas que, de colher em punho, se iam servindo; todos bebiam pela chupeta, que circulava de mão em mão. Os riscos de saúde podem ser facilmente imaginados; a promiscuidade e a tensão aumentavam ainda mais o desconforto da viagem.”

Uma viagem dessas demandava de trinta a noventa dias, ou mais, dependo do humor do vento propulsor daquelas embarcações rusticamente construídas, ora soprando a favor ora soprando contra, ora nas ilhargas, ou das fortes correntes marinhas, ambas a afastarem-nas da rota. Os desvios de rota levavam dias para serem ajustados. Água potável e alimentação sempre se revelavam escassas porque planejadas para certo número de dias. Não raro havia necessidade racionamento. O grande número de pessoas de todas as camadas sociais, acomodadas de qualquer jeito naquele ambiente inóspito, promíscuo, sem luz e respirando ar viciado, oportunizava o aparecimento de doenças infectocontagiosas que, à falta de cuidados adequados, levavam à morte. Joaquim da Costa Leite diz12 que

“[…] [deu] entrada no porto de Santos, no dia 24 de Outubro [de 1857], [a] barca portuguesa Santa Clara, capitão Lourenço Fernandes do Carmo, conduzindo da cidade do Porto 174 passageiros, contratados ali por António Joaquim de Andrade Villares para o serviço de Campos Júnior & Irmão, da cidade de Campinas, na província de S. Paulo. «Infelizmente, logo à saída deste navio do porto daquela cidade, sobrevieram moléstias de sarampo, febres gástricas, disenterias, etc, que junto à grande viagem de 62 dias, por causa de ventos contrários, ocasionou a morte de 18 indivíduos a bordo, sendo 16 crianças e 2 adultos.”

Os que morriam, eram jogados ao mar. Os que resistiam não tinham a menor ideia do que os esperava quando chegassem à terra firme.

Certamente os ancestrais de meus avós chegaram ao Brasil em viagens semelhantes, os Nogueira principalmente. Sim, porque os Nogueira chegaram ao Brasil no Século XVII e as embarcações propulsionadas por máquinas a vapor só vieram aparecer quase ao final do Século XIX. Sobre os Melo, não há registro de sua chegada ao Brasil antes de Luiz Figueiredo de Melo desembarcar em Itacoatiara no início do Século XX.

Em aqui chegando, meus ancestrais certamente esperaram dias para o desembarque, porque os agentes contratantes dos trabalhadores, que os acolheram, aguardavam a chegada de seus clientes, os verdadeiros contratantes da mão de obra importada, geralmente estabelecidos em lugares distantes dos centros urbanos, para receberem a “mercadoria” encomenda, que representava mão de obra inexistente nas fazendas de todas as regiões do Brasil. O destino final, o Amazonas, ainda demandava muitos dias de desconfortável e semelhante viagem, já que a chegada ao Brasil se dava ou por São Paulo ou pelo Rio de Janeiro, e o Amazonas só era alcançado por embarcações movidas à vela. Mas ainda existia um problema: a partir de Belém, no Pará, os navios movidos a vela não conseguiam chegar ao Amazonas em razão da inexistência de ventos suficientes para lhe impulsionarem.  A solução era transbordar os passageiros para embarcações menores, movidas a vela ou remo, o que tornava a viagem muito mais desconfortável e demorada.

4 – Até onde alcança o olhar da História

 Grande parte da história das prováveis origens dos ancestrais de meus avós está registrada de alguma forma. Faz parte da história dos emigrantes portugueses. Entretanto a falta de registros específicos impossibilita a construção de uma árvore genealógica identificando os verdadeiros troncos de cada uma das duas famílias.

Meu pai, Antônio Nazaré Nogueira, nascido no final da segunda década do Século XX, ainda vivo e lúcido, me contou tudo o que sabe a respeito das duas famílias, a partir da chegada dos Nogueira na Costa da Conceição, e dos Melo na Ilha Grande do Soriano. Aqui, acolá, alguém dos mais antigos da minha parentela confirma uma ou outra passagem. É uma pena que arquivos vivos, como minha avó Maroca, minha tia Ângela, meu Tio Manoel Beckmam, minha tia Tita, minha tia Beny, minha avó Botão, minha própria mãe e todos os seus irmãos, tenham falecido sem registrar nada sobre as suas famílias. Isso é perdoável porque no ambiente em que viviam só tinha lugar para a enxada e tempo para o labor diário na roça, incluindo a manutenção da casa e a criação dos filhos em quantidade inimaginável para os dias de hoje. Ler e escrever, era para pouquíssimos, quer fossem homens, mulheres, meninos, meninas.

Da parte da família do meu pai, ele conta que na segunda metade do Século XIX um certo Coronel13 Bastão14 Serudo vivia em Santarém, no Pará. Homem de grandes posses, proprietário de muitas terras, influência política e financeira que ultrapassava os limites da região onde morava, coração bondoso embora aberto às oportunidades de negócio, tinha interesses no Amazonas, particularmente em Itacoatiara, uma cidadezinha à margem esquerda do grande rio, um pouco abaixo da desembocadura do rio Madeira, então tradicional produtora e exportadora de cacau e produtos coletados na selva amazônica, entre eles a borracha.

O comércio de Itacoatiara chamava atenção pelo grande número de comerciantes portugueses, árabes e judeus, estes dois últimos tidos como “turcos” pelos nativos. Eram, na maioria, empresários exportadores de produtos regionais tanto para o sul do país quanto para o exterior. Essa atenção em grande parte era devida à sua localização geográfica privilegiada: próxima à desembocadura do rio Madeira, próxima ao rio Urubu, regiões ricas em produtos extrativistas, próxima também às ilhas e costas de várzea onde o cacau ainda imperava como sustentáculo da economia regional.

Estefania Souza Silva e Ernesto Renan de Freitas, em trabalho já citado, afirmam que durante o período colonial o cultivo do cacau era desenvolvido pela igreja católica, e teve seu apogeu no período que antecedeu ao governo pombalino.  Com a expulsão dos Jesuítas pelo Marquês de Pombal em 1759, a agricultura da região foi fragilizada, principalmente a produção do cacau. Aqueles estudiosos dizem que

“Posteriormente, os interesses por matéria prima se voltam na busca do ouro, sem mão-de-obra escrava na região e, face das intempéries regionais a agricultura continua em queda. Os governantes da época tentaram incentivar a agricultura na região, mas a mesma foi desestimulada pela descoberta do uso da goma elástica de origem da seringueira. No período gomífero, o cacau sobrevive na região. Após o declínio desse ciclo é a castanha que passa ocupar o cenário já no século XX. Mas o cacau ainda continua existindo.”

Mesmo fragilizada a economia cacaueira, e em plena decadência, o cacau ainda era um produtos interessante para empreendedores do quilate do Coronel Bastão Serudo, uma vez que a produção gomífera ainda sofria as incertezas da indústria incipiente. Mas já prometia futuro brilhante.

Com um pé em Santarém e outro em Itacoatiara, Bastão Serudo criou nesta uma base de apoio para a exploração de grandes cacauais existentes em terras de várzea mais ou menos próximas.  Apossou-se de uma grande extensão de terras na costa da Conceição, entre o igarapé conhecido como “Boca do Padre” e o igarapé conhecido como “Cainamãzinho”, ambos dando acesso ao rio Urubu, e ali passou a explorar o cacau plantado pelos índios durante a hegemonia da Igreja Católica, antes da expulsão dos Jesuítas em 1759.

De Santarém, trouxe Antônio Guimarães Nogueira, detentor da patente de Capitão, com o intuito de usá-lo na aventura gomífera que despontava no horizonte da economia regional como promessa de grande riqueza.

Capitão Nogueira possuía família em Santarém, mas não quis envolver mulher e filhos naquela aventura.  Primeiro iria explorar a região, adquirir terras, ganhar algum dinheiro, enfim, estabelecer-se. Depois…

Foi assim que os Nogueira chegaram à hoje conhecida Costa da Conceição.

Da parte da família Melo, a história só alcança até Luís Figueiredo de Melo, chegado ao Brasil logo no início do Século XX. Vindo diretamente de Portugal, a passeio, para conhecer as fazendas de cacau da família na Ilha Grande do Soriano, desembarcou em Itacoatiara entre 1906 e 1913. Certamente aqueles cacauais imensos foram plantados por seus pais ou seus avós durante o entardecer do apogeu desse produto nativo da Amazônia. Em lá chegando, na Ilha Grande do Soriano, conheceu uma índia mura aculturada, Elvira Josefa de Lira, arrastando pela mão um filho chamado Moacyr, mas conhecido como Ary.  Com ela se juntou em união estável até sua morte (dele, Luís Figueiredo de Melo). Dessa união nasceu Esther Figueiredo de Melo, minha mãe, em 04 de outubro de 1914. Depois vieram outros filhos, mas isso será contado mais adiante.

Segunda parte

A Saga dos Nogueira

Capítulo I

Primeira geração

1 – A Casa Grande

Não cabe aqui detalhar a árvore genealógica ascendente da família Melo Nogueira. O objetivo destes registros é trazer uma luz sobre esses antepassados até a quarta geração, especificamente sobre aqueles que chegaram à Costa da Conceição e à Ilha Grande do Soriano no interstício da última metade do Século XIX. (Estima-se que isso tenha ocorrido pelos idos de 1886). O foco está direcionado para a forma e os meios de ocupação daquelas terras inóspitas, perdidas no beiradão do rio dos rios de uma Amazônia cheia de riquezas naturais e de insondáveis mistérios.

É estimado que o Capitão Antônio Guimarães Nogueira foi trazido à Itacoatiara lá pelos idos de 1886.  O objetivo era dedicar-se à extração do látex e outras “drogas do sertão”, entre elas o cacau e a borracha. Porém ao examinar de perto a situação, percebeu que a realidade não era nada daquilo que havia imaginado. Na verdade os seringais nativos distavam muitos dias de viagem subindo ou o rio Madeira, ou o rio Purus ou o rio Juruá, os dois últimos muito distantes de Itacoatiara, todos pouco explorados, mas ricos em mosquitos das mais diversificadas e agressivas variedades.  Resolveu então ajustar-se com o Coronel Bastão Serudo para que este o agasalhasse numa de suas propriedades, onde pudesse plantar cacau, seringa e outros produtos da agricultura familiar que garantissem sua subsistência e a de seus familiares deixados em Santarém. Como o Coronel já possuía uma grande extensão de terras na Costa da Conceição atendeu ao pedido do Capitão Nogueira concedendo-lhe permissão para que se estabelecesse na área imediatamente acima da sua propriedade, margem esquerda do igarapé Cainamãzinho.  E fez mais: apresentou-o ao eminente comerciante e mais tarde político de Itacoatiara, o judeu Isaac Péres, servindo-lhe como uma espécie de avalista para futuros negócios.

Naquela época a Costa da Conceição era pouco povoada por gente civilizada, os “brancos”, justo porque constituída por terras alagadiças e sem interesse para o Poder Público, por considerar improvável sua utilização para os projetos desenvolvimentistas de então. O Governo tinha planos para fomentar a agricultura naquela região, mas em terra firme. Para isso demarcou a área hoje conhecida como São José do Amatari, nas proximidades da Costa da Conceição, onde pretendia criar uma colônia agrícola. O Projeto não prosperou, ficando no abandono que ainda hoje se encontra.

Quando o Capitão Nogueira chegou ao Amazonas, tudo na Costa da Conceição era ermo, agreste, selvagem. Habitada em sua grande maioria por índios aculturados pelos padres, ali permanecia esse povo como prova viva do domínio da religião católica naquelas paragens: grandes cacauais, restolho de um ciclo econômico que estava sendo sufocado pela nascente indústria e sua carência de matéria prima fundamental: a borracha.

Imediatamente após o Coronel Bastão Serudo conceder-lhe permissão, Capitão Nogueira ergueu sua morada na parte de cima do igarapé Cainamãzinho, nas imediações onde hoje está edificada a residência de Reinaldo Nogueira Soares. Lugar paradisíaco, sempre açoitado pelo vento nordeste que balançava e ainda balança a rede do caboclo nos momentos de lassidão, tinha um inconveniente: durante certo período do ano as terras ficavam submersas e o banzeiro penetrava na casa, deteriorando as paredes levantadas com barro e tornando o piso, também de barro, imprestável para habitar. Mas como estava longe da família, Capitão Nogueira ia levando a vida na mansidão, explorando a região, sobrevivendo da colheita do cacau e de tudo mais que podia colher da natureza, até retornar a Santarém e de lá trazer sua família que se encontrava aos cuidados de sua esposa, Maria Raimunda do Espírito Santo.

Com o peso da família sobre as costas, e para proteger a prole que crescia consideravelmente a cada ano que passava, Capitão Nogueira viu-se obrigado aterrar, com barro de terra firme, o terreno onde construiria sua morada definitiva, e torná-la inacessível às águas do rio que, periodicamente, ameaçavam seus filhos, sua criação, suas plantações.

Como não dispunha de embarcação de maior porte, usou canoas de pouca capacidade de carga, movidas a remo, para transportar barro e pedra da terra firme até aquele local, indo busca-los onde hoje está situada a Vila de São Pedro de Iracema, a uma hora de viagem de canoa rio acima. Para que esse labor não prejudicasse a razão principal de sua vinda para aquele lugar, o transporte do barro era feito aos finais de semana.

Foram meses de incansável trabalho para transportar uns duzentos metros cúbicos de barro vermelho e pedras jacaré, o suficiente para levantar uns oitenta centímetros o piso do nível da várzea, numa aérea de cento e oitenta metros quadrados aproximadamente, logo na boca do igarapé.

Finalmente concluído o aterramento, a “Casa Grande” do Capitão Nogueira foi erguida. O piso, de terra batida, reluzia a vermelhidão do barro de terra firme e refletia o comprometimento de dona Raimunda do Espírito Santo com a higiene, e o caráter e respeitabilidade do Capitão; as paredes, também do mesmo barro, não ficavam nada a dever à moderna alvenaria; a cobertura, em zinco, denotava a prosperidade daquela recém chegada família, como a acenar para um brilhante futuro; portas e janelas diziam da qualidade profissional do Capitão Nogueira no trabalho em madeira: eram primores de peças talhadas artisticamente, as causar inveja às mais elaboradas construções citadinas.

A “Casa Grande” tinha três divisões: a primeira servia de sala de visita, depósito, dormitório para os filhos homens, empregados, e tudo o mais que fosse preciso, inclusive para a realização de festas dançantes; a segunda divisão servia de quarto de dormir para o casal; a terceira era onde ficavam as filhas, empregadas, visitantes do sexo feminino, etc. No centro da primeira divisão, a “sala”, foi instalado um esteio de filhotão de mulateiro15, com uma base fixada no piso e extremo superior muito bem preso ao travessão próximo e, dele, à cumeeira. Bem fixado dessa forma, o esteio servia para amarrar as redes de dormir, que durante o dia ficavam desarmadas em vários lugares das quatro paredes da “sala”.

Embora sendo considerada como parte da “Casa Grande”, mas na realidade uma edificação anexa, a cozinha era o ambiente mais prestigiado durante o dia e as primeiras horas da noite. Era ali que os visitantes eram efetivamente recebidos e alimentados16. Também com duas divisões, a primeira, servindo de sala de refeições, era guarnecida por uma mesa engendrada em madeira e com capacidade para dezoito lugares, dois bancos em cada lado, cada um com capacidade para quatro lugares, e tamboretes bastante para as cabeceiras da mesa e eventuais excedentes de comensais; na segunda divisão ficava a cozinha propriamente dita, guarnecida por um grande fogão a lenha, erguido sobre caixilho sustentado por quatro barrotes. Ali reinava dona Maria Raimunda do Espírito Santo.

2 – A prole

 O Capitão Nogueira fez muitos filhos, povoando várias paragens do Amazonas.  Só com dona Raimunda do Espírito Santo Nogueira foram oito filhos: Bertholdo Antônio Nogueira, Emitério Antônio Nogueira, João Nogueira, Lisboa Nogueira, Maria Eugênia Nogueira do Espírito Santo, Felix Antônio Nogueira, Pedro Nogueira e Januário Nogueira. Mas, ao que se sabe, o Capitão Nogueira filhou com mais duas mulheres, uma no Igapó Açu, e outra na Costa do Varre Vento, das quais é desconhecido o número e o nome dos filhos mas que, estima-se, foram oito filhos com cada uma dessas mulheres.

Além dos filhos legítimos e naturais, o Capitão Nogueira criou vários outros, que se lhe entregavam os pais por ser garantia de sobrevivência.

Desses tantos filhos e aderentes (contam os antigos que mais de trinta), os anos foram se encarregando de romper os laços de fraternidade que os unia, a ponto de, a partir já da terceira geração, muitos dos Nogueira constituírem ilustres desconhecidos entre si.  Atualmente é possível encontrar essa família espalhada por vários municípios do Estado, sem que seja reconhecido qualquer parentesco com seus antecedentes da Costa da Conceição, em Itacoatiara.  Como se perdeu esse elo será esclarecido mais adiante.

3 – O cacaual

 Estefânia Souza Silva e Ernesto Renan de Freitas Pinto17 informam que Simonsen (1978 p. 371) comenta que a Coroa Portuguesa, através da Carta Régia de 8 de dezembro de 1677  e do Alvará de 3 de março de 1680, concedia prêmios e favores aos que se aplicavam a cultura do cacau no Brasil. Mais adiante esses cientistas afirmam que “revendo a literatura que trata da presença do cacau na Amazônia como produto agrícola e econômico no Estado do Amazonas, podemos inferir que, apesar de sua origem ser amazônica e ser inicialmente um produto obtido de forma extrativista, após a chegada dos europeus passou a ser cultivado nas missões das ordens religiosas da Igreja Católica, principalmente na região do atual Estado do Pará”. Essa informação é o esteio que suporta outra informação, esta prestada por Antônio (Dunga) Nazaré Nogueira, de que foram os índios os responsáveis pela plantação dos cacauais na Costa da Conceição, e que o Capitão Nogueira restringiu-se em mantê-la e plantar seringueiras (árvore da família das euforbiáceas) experimentalmente, numa tentativa de domesticar essa espécie natural do agreste amazônico.

Na época do domínio da Igreja Católica e, consequentemente, da plantação dos cacauais, Cainamãzinho era um igarapé relativamente estreito, margeado por restingas que deixavam a impressão de ter sido aberto artificialmente, embora disso não haja notícia. Começa no rio Amazonas e vai serpenteando a margem esquerda no rumo norte, até desembocar no lago Castanha que, por sua vez, verte as águas no rio Urubu. Mata fechada de várzea cobria suas margens, como a desafiar quem quer que fosse a penetrá-la. Pau-mulato, castanha-de-macaco, miratinga, samaúma e suas impressionantes sapopemas, taxi18, e outras árvores de grande porte, eram os únicos seres vivos daquele lugar. Coube aos padres, com a ajuda dos índios, transformar tudo isso num imenso cacaual, com cerca de dois quilômetro e meio de extensão, que ia desde a boca do igarapé até onde residia Gertrudes Nogueira Martins no terceiro quartel do Século XX.

A transformação não aconteceu de uma hora para outra. Demandou anos.  Primeiro foi feita a “broca”19, depois a derrubada das árvores que geravam pouca sombra, seguida do desgalhamento das árvores derrubadas; um período para secar as folhagens; queimada; coivara; limpeza da área; plantio das sementes ou mudas; plantio de espécimes silvestres produtoras de sombras; capina periódica e, permanentemente, o cuidado com as pragas próprias que poderiam prejudicar a plantação, entre elas o carieiro20.

Fazer tudo isso sem qualquer instrumento que não fosse o terçado, o machado e a enxada, fornecidos aos índios pelos padres, naquela época era vencer etapas desgastantes.

Enquanto hodiernamente um trabalhador avança a passos largos o estágio da “broca” usando roçadeiras motorizadas, o mais forte dos homens não conseguia avançar senão alguns metros por dia usando apenas o terçado e o “cambito”21.   Essa tarefa era geralmente realizada durante o verão amazônico, período entre os meses de agosto e setembro, com o sol a pino, embora sob a proteção da sombra das árvores de maior porte, mas sufocado pelo calor causticante causado pela umidade do ar naquele ambiente onde o vento refrescante não penetrava.

A derrubada das árvores era outra etapa da preparação da terra para o plantio do cacau, e certamente faria tremer qualquer ambientalista da atualidade. O caboclo, machado em punho, acercava-se da árvore que lhe cabia derrubar, media-a com um olhar que ia desde o rés do chão até o mais alto da sua copa, como a desafiá-la para um duelo de vida ou de morte, mas na verdade estudando qual seria o ângulo que deveria impor ao corte para que a árvore caísse no sentido leste/oeste, de onde e para onde sopram os ventos. Sem nenhum outro pensamento que não fosse vencer aquela batalha, dava a primeira machadada mais ou menos à altura de sua barriga, cerca de cinquenta a oitenta centímetros acima do rés-do-chão. A árvore deixava cair sua primeira lágrima, em forma da seiva que envolveu o fio do machado, numa tentativa vã de evitar aquele embate. À primeira, segue a segunda, a terceira… tantas machadadas quantas fossem necessárias, ora tendo como guia a destra, ora a sinistra do caboclo. O som de cada machadada ecoava na floresta virgem como grito de terror provindo das profundezas dos pesadelos mais terríveis, num aviso explícito de que, prosseguindo, o homem iria destruir aquela fonte de vida. Mas o caboclo, alheio a esses avisos, continuava sua faina até que outro grito se fizesse ouvir:

“Créhéhéhéhéhéhéhéhéhéhéééééé!!!!!!!!

Era o estalar da madeira anunciando que aquela batalha chegara ao fim, e que ela, a árvore que muita sombra ofertara aos habitantes da floresta, muitos frutos fornecera às aves e peixes de épocas diferentes, estava indo ao chão. A guerra com o homem estava perdida.

4 – Um último grito:

  • Pega filha da puuuuuttttttaaaa!!!!!!!!

Era o caboclo dando seu grito de guerra vencida e, ao mesmo tempo, avisando aos companheiros que a árvore estava indo ao chão; que eles se protegessem.

Como numa corrida desesperada para fugir do seu algoz, durante a queda aquela, até poucos instantes, árvore frondosa ia tropeçando noutras árvores de menor porte que se encontravam no seu caminho, e a elas ligadas ou não pelos cipós que durante muitos anos construíram uma rede de entrelaçamento familiar, levando-as também ao chão. Enquanto caia, o estalar do robusto caule sendo separado do coto que continuava preso ao chão, ia se juntando ao som dos galhos que se iam quebrando, transformando aquela barulheira toda no último alento das vidas que ali terminavam.

Ao final da etapa aquelas árvores, tal qual corpos estendidos no chão, denunciava uma batalha fraticida entre o homem e a floresta, com resultados que só o futuro viria dizer.

Depois da derrubada aguardava-se uns cinco a sete dias para que as folhagens murchassem, e tinha início o estágio do desgalhamento.  Desgalhar era separar, a golpes de machado ou terçado (facão), os galhos que não foram separados do caule durante a queda da árvore derrubada, reduzindo tudo a um amontoado de madeira e folhas, prontas para a queimada. Embora trabalhosa essa etapa não trazia nada de maior relevância, a não ser o registro de que com ela estava-se incrementando grande volume de material combustível e programando-se o estágio do encoivaramento para uma etapa mais amena.

Importante, mesmo, era o estágio da queimada, cerca de vinte a trinta dias depois da derrubada, única sem trabalho algum que não fosse o caboclo, archote improvisado na mão (pano velho de algodão embebido em querosene, preso a um pedaço de um galho qualquer), ao meio-dia dirigir-se à parte mais oriental da área a ser queimada. Riscar o palito de fósforo, acender o archote, impô-lo a um amontoado de galhos e folhas secas, aguardar um instantinho para ver o fogo propagar-se, partir para outro foco, e… continuar, continuar, continuar… até à extrema mais ocidental da área, virar as costas àquela grande fogueira acesa por ele e dela fugir porque o perigo dele próprio ser queimado era iminente. Com grande sensibilidade poética o compositor Ernesto Maia, mais de um século depois da época a que estes registros se referem, retratou esse momento telúrico, tocante, na Toada “Lamento de Raça”22, com que o Boi Garantido defendeu suas cores num dos festivais de Parintins:

“O índio chorou, o branco chorou
Todo mundo está chorando
A Amazônia está queimando
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror
O meu pé de sapopema
Minha infância virou lenha
Ai, ai, que dor
Ai, ai, que horror
Lá se vai a saracura correndo dessa quentura
E não vai mais voltar
Lá se vai onça pintada fugindo dessa queimada
E não vai mais voltar
Lá se vai a macacada junto com a passarada
Para nunca mais, voltar
Para nunca mais, nunca mais voltar
Virou deserto o meu torrão
Meu rio secou, pra onde vou?”

A saracura, a onça pintada, o macaco, ou outro ser vivente qualquer que não tivesse conseguido fugir era, logo no dia seguinte, facilmente encontrado morto no meio daquele mundo de cinza, carvão, árvores e galhos sabrecados.

Uma semana depois, o tempo suficiente para refriamento tanto da terra quanto do madeirame queimado, tinha início o estágio do encoivaramento. Encoivarar era reunir em montes mais ou menos equidistantes todos os galhos que o fogo não conseguira reduzir a cinzas, e, depois, queimá-los, sobrando apenas árvores de maior porte e não muito facilmente queimáveis, até que o tempo, senhor de todos os poderes, se encarregasse de destruí-las e se consumasse o processo de devastação da floresta que ali se iniciara.

Numa boa queimada, ou seja, quando os elementos convergiam para que as árvores derrubadas ficassem bem ressecadas e o fogo destruisse maior parte dos galhos, o encoivaramento era um trablho dificil e desgastante porque feito em pleno sol do verão amazônico, de ordinário entre as sete horas da manhã às dezessete horas, com pequeno intervalo para uma refeição precária (pirarucu seco assado no fogo de lenha, acompanhado de chibé23 de farinha) chamada de almoço, tudo isso num lapso temporal de uma a duas semanas. Entretanto uma boa queimada trazia alegria ao caboclo porque, ele sabia, sua exposição ao sol era bem menor, em que pesasse o abrasamento maior decorrente daquele ambiente infernal em que se transformara a verdejante mata, nada que um gole de água, bebida na boca do balde de cuia, não pudesse refrescar.

Quando a queimada não era boa, esse período estendia-se para até um mês, ou mais, com prejuizos que ia desde o tempo perdido com o incremento do material a ser juntado, amontoado e queimado, passando pela possibilidade de ser perdido o tempo apropriado para o plantio. O perigo de insolação andava junto com o perigo de queimaduras decorrentes da ação dos raios solares diretamente no corpo do caboclo.

Finalmente, quando a última coivara ardia já se via e ouvia ao longe sinais de que o verão estava indo embora, cedendo lugar às chuvas intermitentes que transformavam as cinzas da queimada e das coivaras em adubo para a lavoura.

A terra estava pronta para receber sementes ou mudas!

Modernamente um cacaual pode ser formado conforme ensinado no site Criar e Plantar, isso tudo depois de muita pesquisa de órgãos como CEPLAC e EMBRAPA:

“Um cacaual pode ser formado a partir da semeadura direta ou, então de mudas, previamente preparadas em viveiros… A semeadura é feita também no início da época chuvosa, à distância que oscilam entre 15 as 25cm. Maiores afastamentos são usados no caso de mudas de torrões e no caso de transplantio mais cedo, com apenas seis meses, adota-se o espaçamento menor. A germinação de processa entre 10 a 15 dias após a semeação.

Os cuidados a serem dispensados às mudas no viveiro se resumem em regas, capinas e combate às pragas e moléstias que por ventura apareçam. Muitos preferem a semeadura direta em recipientes, como laminados ou em sacos plásticos de polietileno; trata-se de processo mais trabalhoso, porem, vantajoso na operação de transplantio. Os recipientes são dispostos no viveiro, uns ao lado dos outros, em formato de canteiro, de  modo a evitar o ressecamento dos mesmos.  O transplantio é feito em pleno período de chuvas, procurando no caso de mudas nuas, operar em dias de céu nublado.

As mudas podem ser também obtidas por propagação vegetativa, estaquia, mergulhia ou enxertia.  Esta última é a forma que melhores resultados vem apresentando havendo muitos cacauais formados a partir de mudas obtidas pelo processo de borbulha de escudo. As borbulhas são retiradas de preferência de ramos ladrões, cuja grossura se assemelha à do cavalo, o qual deve ter aproximadamente 8 a 10mm de diâmetro.

 As mudas devem ser plantadas no espaçamento de 3,5×2,5m ou 3,5×3,0m nos solos mais férteis. O plantio deve ser em nível.”24

 No caso dos cacauais da Costa da Conceição, plantados pelos padres com a ajuda dos índios há pelo menos um século antes do período a que se referem estes registros, o plantio era feito de modo um pouco diferente. A broca, derrubada, desgalhamento, queima e encoivaramento era realizado durante o verão amazônico, entre os meses de agosto a outubro. No início do ano anterior, durante o mês de março até junho, fora feito o viveiro e nele enterradas as sementes de cacau que seriam oportunamente mudadas para a área do novo cacaual; o transplantio acontecia no início do período chuvoso, lá pela metade do mês de novembro do ano seguinte, já com as mudas bastante crescidas, com o propósito de evitar que morressem durante o período de enchente do rio. Explica-se: nas áreas de várzeas rio Amazonas, dependendo do degelo nos Andes e das chuvas nas cabeceiras dos rios tributários, as terras ficam submersas por dois ou três meses, e muitas plantações morrem.

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1 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal)
2 (http://www.geni.com/projects/Imigrantes-Portugueses-ao-Brasil-Portuguese-immigrants-to-Brazil/10498)
3 (http://ajaneladobraz.blogspot.com.br/2011/01/origem-da-familia-nogueira.html)
4 ([email protected]) e ([email protected])
5 SILVA, E. S., PINTO, E. R. F. – XIX ENGA, São Paulo, 2009
6 Wikipédia – A Enciclopédia livre / Ciclo da Borracha
7 Memórias da Emigração Portuguesa – (http://imigrantes.no.sapo.pt/page6brasil.html)
8 História de Portugal – (http://www.hirondino.com/historia-de-portugal/portugal-seculo-xviii/)
9 LOURENÇO, Silvia – Emigração no Século XIX – in, http://neh.no.sapo.pt/documentos/emigracao_no_seculo_xix.htm)
10 Ob. cit.
11 LEITE, Joaquim da Costa – Análise Social, vol. xxvi, (112-113), 1991 (3.º-4.°), 741-752.
12 Ibidem
13 Patente militar comprada a peso de ouro, como de ordinário acontecia à época. Dava poder e respeitabilidade a que a possuísse.
14 Seria a corruptela de Sebastião?
15 Dicionário Aurélio Século XXI – MULATEIRO – Árvore da família das rubiáceas (Calycophyllum spruceanum), própria das várzeas do rio Amazonas, que se caracteriza pelo tronco retilíneo e revestido de lisa casca parda. Tem folhas obovadas, com ápice agudo, flores e cápsulas pequeninas, e madeira branca e útil em marcenaria e no fabrico de polpa para papel.
16 Possivelmente o Capitão Nogueira criou um padrão de comportamento, ou hábito, ainda hoje reinante no interior itacoatiarense: oferecer água fria, do pote, e servir um cafezinho fresco a qualquer visitante, transitório ou não, e não permitir que visitante das horas próximas às refeições saísse antes do almoço ou do jantar. Isso, além de ser uma questão de educação, era uma questão de honra.
17 Ob. cit.
18 Árvore (Tachia guianensis) da família das gencianáceas.
19 Na linguagem citadina, corresponde ao bosqueamento de uma área. Ou seja, transformar essa área num bosque.
20 O carieiro, assim conhecido no interior do Amazonas, é uma formiga que recorta as folhas tenras das plantas mais viçosas para transportá-las, em pequenos pedaços, para suas colônias.
21 O “cambito” nada mais é do que o galho de um filhotão de envireira (árvore da família das euforbiáceas), ou outro arbusto qualquer, que se dividiu em dois galhos formando uma forquilha, ou ípsilon (Y) perfeito. Cortada na parte inferior da forquilha,  um dos galhos é aparado num comprimento de quinze a dezoito centímetro e, ou outro, cerca de oitenta centímetros, dependendo da envergadura de quem vai usá-lo. O “cambito” assim produzido forma uma espécie de gancho para o agricultor puxar para junto de si os arbustos que irão ser cortados durante o processo da “broca”, facilitando o trabalho e evitando o risco de fazer isso com as próprias mãos.
22 http://www.vagalume.com.br/boi-garantido/lamento-de-raca.html#ixzz33I1IHZCa
23 O chibé, ou xibé, do caboclo amazônico é diferente da jacuba das bandas litorâneas do Brasil, esta de origem tupi-guarani, na medida em que o chibé  não leva nem açúcar, nem mel, nem cachaça. É composto exclusivamente de farinha da mandioca e água.
24 Criar e Plantar – www.criareplantar.com.br

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Antonio Tupinambá Nogueira
*Amazonense de Itacoatiara. Contador pós-graduado em Contabilidade Gerencial. Membro da Academia Amazônica Maçônica de Letras. Auditor aposentado do Tribunal de Contas dos Municípios do Amazonas, Ex-Subauditor Geral do Estado do Amazonas. Secretário de Governo da Prefeitura Municipal de Itacoatiara. Consultor e Assessor Técnico nas áreas de Contabilidade Pública e Orçamento.

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