Felipe Vilicic
*Felipe Vilicic

Uma biografia excepcional conta as viagens e descobertas do alemão Alexander von Humboldt,

o cientista que definiu a ideia de ecologia e influenciou intelectuais e estadistas.

Alexander Von Humboldt (1769-1859) não é tão popular quanto Albert Einstein, Charles Darwin ou Isaac Newton. Entretanto, sua importância na história da ciência é inestimável. Ao narrar em sua caudalosa obra escrita as longas viagens que fez nas primeiras décadas do século XIX pelas Américas, pela Europa e pela Ásia, e ao definir revolucionários conceitos acerca da natureza, o naturalista, mineiro, explorador e bon-vivant alemão (nascido na então Prússia) se tornou o cientista mais famoso e influente da primeira metade do século XIX. “Diferentemente do que ocorre com outros pesquisadores notáveis, não há uma descoberta única associada a ele, mas uma série de ideias hoje enraizadas em nosso pensamento. Por isso, as pessoas acabam por se esquecer de que alguém teve de criá-las”, disse a VEJA a historiadora indiana, radicada na Inglaterra, Andrea Wulf, cuja obra A Invenção da Natureza conta, em toada de romance de aventura, a incrível saga de Humboldt.

O frontispício do primeiro livro do naturalista, Ensaio sobre a Geografia das Plantas (que, lançado em 1805, seria o primeiro dos 34 volumes da coleção Viagem às Regiões Equinociais do Novo Continente), ilustra a forma como ele encarava a ciência e o meio ambiente: uma gravura mostra Apolo, o deus grego associado às artes, erguendo o véu de Deméter, a divindade das colheitas e dos ciclos naturais. Para Humboldt, eram necessárias poesia e imaginação, não só biologia ou matemática, para compreender o mundo natural. Seu conceito mais famoso foi apresentado na mesma obra: a Naturgemalde, tese de que o planeta (e todo o cosmo) é uma unidade composta de interconexões.

O naturalista chegou à visão de que cada planta e cada animal, ao lado de fatores como temperatura e umidade, determinam o equilíbrio dos ecossístemas ao escalar, em 1802, os quase 6300 metros do Vulcão Chimborazo, no Equador, então tido como a mais alta montanha da Terra, pois só depois se descobririam os quase 9 quilômetros de altitude do Everest. Ao olhar a natureza de cima, Humboldt concluiu que todos os elementos são interconectados. As condições climáticas de cada região do Chimborazo estabeleciam qual tipo de flora e fauna se mostrava presente. “Um todo natural animado e movido por forças interiores”, assim ele descreveu a Terra, antecipando em mais de 150 anos teses atuais, como a conhecida teoria de Gaia, do inglês James Lovelock, 97 anos. Bem antes dos ruidosos movimentos ambientalistas do século XXI, que apontam o homem como responsável por modificar o clima planetário, Humboldt já via o ambiente feito uma rede de vida que poderia ser destruída a partir do corte de qualquer um de seus fios.

O alemão preconizou o aquecimento global ao afirmar que o desmatamento e gases emitidos pelas nascentes indústrias modificavam o clima terrestre. Também formulou ideia similar à de espécie-chave, fundamental aos estudos ecológicos, 200 anos antes de a teoria ser nomeada: ao observar uma palmeira de buriti na Venezuela, relatou como o fruto atraía pássaros, como as folhas serviam de anteparo ao vento e como o solo úmido no entorno era abrigo para insetos. Tratava-se, portanto, de uma espécie cuja existência era essencial ao ecossistema, feito a viga mestra de uma abóbada. “Ela dissemina a vida”, poetizou.

Tais conceitos podem parecer óbvios no século XXI, mas foram revolucionários há 200 anos. À época, cientistas acreditavam que cabia à humanidade aprimorar o meio ambiente. Esses pensadores se apoiavam na ideia de “degeneração da América”, alardeada no século XVIII pelo francês Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon, para o qual no Novo Mundo as coisas “diminuem sob um céu mesquinho”. Com essa base, sustentava-se que era missão do homem melhorar a natureza. Áreas desmatadas, por exemplo, eram tidas como sinais desse melhoramento.

Em oposição a Buffon, Humboldt explorava a natureza para compreendê-la. Não seguiu o costume da grande maioria de seus contemporâneos de analisar tudo sentado numa escrivaninha. As observações do alemão em suas viagens à América foram as primeiras de um naturalista a se embrenhar na Floresta Amazônica, nos Andes, no México e em tantos outros ecossistemas do Novo Mundo. Humboldt havia conseguido aval da Espanha para se aventurar por suas colônias americanas, normalmente resguardadas de estrangeiros enxeridos. Na natureza, descreveu grandes mamíferos, como onças, provou iguarias, a exemplo da castanha-do-pará (introduzida por ele na Europa), subiu montanhas magníficas e explorou selvas de ricas fauna e flora. Por temor de morrer em campo, enviava cartas a cientistas, governantes e jornais, informando as novas das excursões. Com esses relatos, ganhou fama na Europa e nos Estados Unidos. Ao longo da vida, escreveu 50000 mensagens – e recebeu o dobro disso, principalmente de fãs. Sua chegada a uma cidade, em especial Paris, Londres e Berlim, causava alvoroço, dava mote a banquetes e atraía moças encantadas com o aventureiro. Humboldt não se interessava pelas mulheres. Declarava preferir os companheiros de viagem, normalmente homens jovens com quem chegava a dividir a cama.

Filho de um militar e da rica herdeira de um industrial, o alemão queimou sua fortuna financiando viagens. Morreu, aos 89 anos, em consequência de um AVC, sem dinheiro no banco, embora fosse sustentado por diversos cargos simbólicos que ocupava na corte prussiana. Graças ao berço de ouro e à fama de explorador, cientista e escritor, Humboldt conheceu importantes personalidades de seu tempo. Conviveu com o imperador Napoleão Bonaparte, com czares russos, revolucionários sul-americanos e presidentes americanos. Acreditava que ciência, natureza e política se misturavam. Assim como via a natureza feito um corpo único, também defendia, no melhor espírito iluminista, a tese de que os homens eram todos iguais. Era um abolicionista e um libertário.

Amigo de Simón Bolívar, teria ajudado a incutir no venezuelano as ideias que depois levantaram movimentos de independência na América do Sul. Confidente de Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos, ajudou-o a mapear as Américas e, em especial, o que é hoje o Estado do Texas, área então disputada com o México. Influenciou praticamente todos os biólogos, ecologistas, naturalistas e exploradores que lhe sucederam. Darwin, quarenta anos mais jovem, era seu fã. Demonstrou nervosismo ao conhecê-lo em Londres e disse que Narrativa Pessoal, obra-prima de Humboldt, determinou sua escolha de embarcar no brigue Beagle em direção ao Novo Mundo, onde formulou a célebre teoria da evolução das espécies. As ideias de Humboldt serviram de alicerce para definir como vemos, até hoje, tudo o que existe ao redor. Não é exagero, portanto, chamá-lo de “o inventor da natureza”, como faz a biógrafa Andrea Wolf.

*Jornalista e escritor. Artigo na Revista Veja, edição nº 2493, de 31/08/2016.
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