*Demétrio Magnoli

Estratégia militar oblitera natureza de conflito enraizado na negação do direito nacional palestino.

O emblema do Hamas retrata o Domo da Rocha, no monte do Templo, em Jerusalém, e os contornos do território de Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza como um Estado palestino unificado. A organização rejeita o conceito da paz em dois Estados. Sua ação assegura a existência de um Estado único na Terra Santa -mas do Estado de Israel.

O Hamas, acrônimo de Movimento de Resistência Islâmica, é uma ramificação regional da Irmandade Muçulmana, organização fundamentalista sunita de raízes egípcias e aspirações transnacionais. Foi fundado em 1988, durante a primeira intifada, uma onda de levantes civis palestinos contra as forças ocupantes. Já naqueles anos definiu uma estratégia de militarização do movimento nacional palestino, engajando-se em atentados suicidas.

As curiosas alianças firmadas com as forças xiitas do Hizbullah libanês e com o Irã propiciaram a evolução para as saraivadas de foguetes contra cidades israelenses. “Os palestinos emergiram como uma nação equipada com mísseis”, celebrou Hossein Salami, chefe da Guarda Revolucionária iraniana, enquanto civis palestinos sofriam os bombardeios israelenses.

A intifada original ajudou a empurrar Israel para a mesa de negociações que resultou nos Acordos de Oslo, de 1993, com a OLP. Mas a paz por meio da partilha territorial foi torpedeada em duas frentes, pela direita expansionista israelense e pela retomada dos atentados suicidas palestinos. A guerra permanente servia à meta do Hamas, que é a implantação de um poder estatal de natureza teocrática.

Veja imagens do maior conflito entre Israel e Hamas nos últimos anos

Forças de segurança e palestinos entram em confronto na mesquita al-Aqsa, em Jerusalém, horas depois do cessar-fogo entre Israel e Hamas Ahmad Gharabli – 21.mai.21/AFP

Palestinos saem às ruas de Gaza para celebrar o cessar-fogo entre Israel e Hamas Mohammed Abed – 21.mai.21/AFP

Foguetes disparados a partir da Faixa de Gaza são interceptados pelo sistema antimíssil de Israel Jack Guez – 15.mai.21/AFP

A Faixa de Gaza caiu sob controle do Hamas em 2007, como fruto da desmoralização política da liderança da OLP. A cisão dos palestinos entre as duas autoridades concorrentes libertou Israel dos últimos escrúpulos que o prendiam aos acordos de paz. Na chefia do governo desde 2009, Netanyahu sabota sistematicamente os cada vez mais débeis esforços internacionais de mediação. O impasse perene ajusta-se aos objetivos do Hamas, que simula comandar um Estado em jihad eterna.

A segunda intifada, nos primeiros anos do século, foi marcada por ataques armados contra alvos israelenses, atentados suicidas e saraivadas de foguetes. Ao contrário da primeira, enfraqueceu eleitoralmente o “campo da paz” em Israel, hoje quase insignificante.

O impasse permanente semeou, entre os palestinos, a utopia de um Estado único binacional, objetivo mais ou menos explícito do movimento de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel (BDS). De fato, devido às dinâmicas demográficas, o Estado binacional teria maioria palestina e implicaria a extinção do Estado judeu. O Hamas gosta da ideia, que sedimenta a paisagem da guerra sem fim.

O conflito suspenso pelo cessar-fogo foi batizado como uma quarta Guerra de Gaza, na sequência dos confrontos entre Israel e Hamas de 2008, 2012 e 2014. O nome esconde o mais importante: tudo começou com o processo de expulsão de residentes árabes de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, que deflagrou protestos palestinos.

Mas a narrativa militar imposta por rodadas de foguetes do Hamas e pelos bombardeios retaliatórios israelenses funciona à perfeição para os interessados na manutenção de um perverso status-quo.

O Hamas finge que já existe um Estado palestino: a “sua” Faixa de Gaza em guerra assimétrica com Israel. A estratégia militar oblitera, na política internacional e nas consciências de judeus e árabes, a natureza de um conflito enraizado na negação do direito nacional palestino a um Estado soberano.

As manifestações coordenadas de cidadãos árabes de Israel e palestinos da Cisjordânia e Gaza, em 18 de maio, um evento inédito, tentaram reavivar a chama da memória histórica. As explosões seguintes abafaram as vozes civis, restaurando a “normalidade”.

O Estado de mentira do Hamas é o pilar que sustenta o Estado judeu único na Terra Santa.

*Sociólogo e doutor em geografia humana. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 21/05/2021.
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