Engana-se quem pensa que a globalização é novidade dos tempos atuais. Os portugueses queriam as Índias e encontraram o paraíso terrestre. Ainda assim, se decepcionaram.

Foram necessários trinta anos para que finalmente descobrissem uma finalidade econômica para aquele Éden inesperado. E porque a decepção? Bem, esta é uma polêmica de 500 anos, que tem gerado luz e calor e está nas próprias raízes das nações americanas. Ainda assim, é preciso considerar as circunstâncias. Eram dois mundos que estavam em colisão, mas ninguém percebeu a extensão e a profundidade do fenômeno, ainda que não se tratasse de algo exatamente inédito na história dos homens no planeta terra. Sim, porque a derrocada da era clássica mostrou a volatilidade dos sistemas ocidentais em comparação com a solidez da Ásia. Esta, a Ásia, era o velho continente, enquanto a Europa era a juventude e a instabilidade. Por isso, aos europeus, como aos portugueses, as índias vestiam-se de um magnífico aparato de estabilidade, tradição, sabedoria e riqueza. A expressão “luxo oriental” é dessa época e foi incutida na mente europeia por gente como Marco Polo e Fernão Mendes Pinto. As índias se contrapunham em afluência aos mundos desconhecidos e povoados por uma fauna de pesadelo. Mas os portugueses nunca se interessaram muito por fantasias, na literatura de língua portuguesa os contos e romances fantásticos são quase inexistentes. O pragmatismo lusitano levou os portugueses a encontrarem o único caminho viável para as Índias, contornando a África e atingindo o Oceano Indico, rompendo com o monopólio da rota da seda. O modelo teórico português era essencialmente voltado para a tecnologia e seu raciocínio prescindia de metonímia. Isto quer dizer que, ao desembarcarem numa praia da Bahia, como não foi o luxo da corte de Calicut que encontraram, mas a luxúria do corpo nu e bronzeado das tapuias, o raciocínio lusitano empacou. Levaram trinta anos ruminando como tomar o todo pela parte, e germinaram uma nação continente. Vimos que nunca houve propriamente barreiras de comunicação entre os portugueses e os povos indígenas. Tanto os portugueses como os índios viviam em sociedades com uma enorme diversidade dialetal e de idiomas. Seguindo alguns quilômetros em qualquer direção na Europa podia-se sentir os efeitos da maldição de Babel. Em Pindorama, a diversidade dialetal e linguística não era menor. Falar guarani para um tariana era o mesmo que falar grego para um francês. E os portugueses já traziam sofisticada gesticulação aprendida nas Índias, lapidada a partir das elaboradas etiquetas não verbais dos árabes, dos japoneses, chineses e hindus. Quanto aos povos indígenas, tanto os tupis quanto os aruaques e caribes, cultivavam detalhadas fórmulas comporta mentais, aplicadas nas despedidas, nas chegadas de visitantes, para regular a circulação de homens e mulheres na aldeia.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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