Um aspecto importante para compreendermos os primeiros contatos dos portugueses com os povos americanos, é que tanto a cultura portuguesa quanto a dos povos indígenas eram bem diferentes do que são hoje.

Ambas traziam um traço de união surpreendente que era o senso de humor. Pode parecer estranho invocar humor para essas duas culturas consideradas tristes, mas o humor estava presente tanto entre os povos portugueses quanto entre os índios. Basta passar a vista no texto de Fernão Mendes Pinto, o mais importante cronista da aventura portuguesa, para se identificar ali no fraseado cafajeste uma parte genética de Macunaíma ou do primo Altamirando. O outro gene pode ser identificado na cultura alegre e sorridente dos povos Tupi em contraponto ao cinzento acabrunhamento dos Guarani. Os Tupi construíram sua existência numa sociedade quase teatral, em que o objetivo principal era a busca permanente da alegria de viver. Quando Oswald de Andrade lançou o desafio “Tupi or not Tupi, that’s the question”, ele não estava fazendo apenas um trocadilho, mas apontando uma opção. O lance do olhar dos portugueses, e seu gestual carregado de significados que se perdem nas ruas de Roma antiga, e a suntuosidade de gesticulação dos povos de Pindorama, por onde espreitavam brumas de magia do neolítico, marcaram o lado humano do choque histórico, sintetizando para o futuro um povo que mantém sua memória romana, mas não esquece o chamado da natureza americana. Onde o humor tem um aspecto canalha, mas a maior filosofia é a alegria de viver, apesar de todas as crises.

Sob a luz intensa gerada por tantas paixões e emoções incandescentes, é possível retirar da penumbra as imagens turvas do artilheiro Hans Staden, de Caramuru e de trovão de pólvora que aterrorizou o povo e encantou Moema, da perplexidade do bispo Sardinha ao perceber que estava no cardápio principal e, se quiserem, nos costumes piromaníacos de certa juventude brasileira a atear fogo no copo do índio pataxó. O que se nota do inesperado encontro é que os índios eram bem menos crédulos e ingênuos que as classes populares de hoje. Apesar da quase inexistência de documentos que registrem a opinião dos naturais da terra, alguma coisa ficou, como as impressionantes palavras do chefe Tupinambá de Pernambuco, Momboré-Uaçú, citadas por Claude d’Abbeville, (…) Vi a chegada dos Peró (portugueses) em Pernambuco. No começo os Peró não faziam mais que andar sem pretender fixar residência. Nessa época dormiam livremente com as moças, o que nossos confrades de Pernambuco acreditavam ser alguma coisa de muito honrado. Mais tarde disseram que deveríamos nos acostumar com eles e que precisavam construir fortalezas para se defenderem e edificar cidades para viver com a gente… (…) Mais tarde afirmaram que não podiam viver sem escravos e acabaram escravizando toda a nação…

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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