Finalizando a descrição analítica do livro de Gensino Braga, Fastígio e Sensibilidade do Amazonas de Ontem, de 1960, vou me deter no capítulo 9º (Salve, Emânuel), no qual descreve a chegada a Manaus no dia 12 de maio de 1899, passageiro do paquete “Rio Amazonas”, da Ligure-Brasiliana, procedente de Gênova, Itália, o ator italiano Giovanni Emânuel.  Segundo a observação detalhadíssima de Genesino, o divo “atravessara o Atlântico trazendo  colados à tampa de suas valises os rótulos multicoloridos dos hotéis mais importantes do mundo”.

Para que se tenha uma ideia da importância do ator, ele figurava em cartazes bizarros à porta dos teatros suntuosos de Paris,  Roma, Londres e Lisboa. O eco de sua voz acolhedora ressoara pelas plateias aristocráticas, contentando públicos exigentes, convencendo críticos insaciáveis. Diziam-no, observa Braga, dos cinco maiores trágicos do mundo, em nível com Salvini, Irving, Rossi e Novelli, porém o maior de todos na interpretação de Shaekespeare.

Emânuel,  “de bela figura, educação primorosa e grande ilustração”, desembarcou em Manaus  na direção da Companhia Italiana de Dramas e Tragédias, para exibir-se no palco do Teatro Amazonas sob os auspícios do governo do Estado. Sua chegada à capital amazonense, “precedida da fama que o aureolava, constituíra acontecimento festivo, com culminância nas homenagens que lhe foram prestadas”. Em embarcações especiais, tendo à frente o vapor “Parintins”, com banda de música e mariato aos ventos, os intelectuais da cidade, admiradores e patrícios do grande trágico, foram cumprimentá-lo a bordo do “Rio Amazonas”.

Ao desembarcar na Ponte dos Catraieiros, apinhada de gente,  ao lado da comitiva que o fora recepcionar, Emânuel fazia-se acompanhar da formosíssima dama Nella Montagna, a primeira atriz da Companhia, que interpretaria “Ofélia”, “Desdêmora”, ”Porsia” e “Margarida Gaultier”. Segundo cronista da época, “bela como poucas mulheres que pisam o palco, Nella é mulher para fanatizar plateias”.

A Manaus daquele final de século, como descrito  no “Fastígio e Sensiblidade do Amazonas de Ontem”, era uma cidade de cerca de 50 mil habitantes, encravada no meio da mais densa, vasta e indomável  floresta do Planeta.  Mas, “a flor de uma sociedade culta, de espírito progressivo e gosto apurado, presidia-lhe aos destinos, afeiçoada aos requintes da civilização, nos campos da política, da educação, das letras e das artes”, nas palavras de Genesino.

Para que se tenha uma ideia da pujança da economia da borracha, de acordo com a historiadora Etelvina Garcia “entre 1890 e 1895, as exportações do Amazonas elevavam-se de 1,4 milhão para 8,7 milhões de contos de réis – um crescimento de 500% em cinco anos”.

De acordo com seu livro “A Cidade de Manaus e a Herança cultural da Economia da Borracha”, de 2014, “em apenas um ano (1895) entraram no porto de Manaus 75 navios a vapor procedentes do estrangeiro – mais de seis navios a cada mês -, cobrindo linhas regulares de navegação entre Manaus e Liverpool e entre Manaus e Nova York”.

Segundo Garcia “os navios chegavam superlotados de mercadorias importadas e retornavam aos portos de origem levando toneladas e toneladas de borracha que a cada momento ampliavam as estatísticas de exportação, as receitas tributárias do Tesouro Nacional e da Repartição do Tesouro estadual e a fortuna dos empreendedores econômicos”.

Os benefícios para a cidade foram significativos. Manaus era dotada de uma Academia de  Belas Artes, um  Conservatório de Música, Ginásio, Escola Normal, Biblioteca Pública, associações literárias, Seminário, seis jornais diários (hoje, com mais de dois milhões de habitantes Manaus conta com apenas cinco jornais em circulação), retretas de músicas clássicas nos jardins públicos, vários cursos de línguas, um teatro suntuoso com telas de Capranesi e De Angelis, pontes monumentais, o intenso intercâmbio com as capitais europeias, – tudo isso, ressalta Genesino, poderia ter evidenciado, aos olhos do artista, a presença de uma sociedade de nível cultural elevado, à altura de compreender o seu trabalho e de sentir a pureza de sua arte.

A Companhia Italiana de Dramas e Tragédias deu, segundo a obra de Genesino Braga, 29 espetáculos no Teatro amazonas. Durante sua estada em Manaus representou Kean, de Alexandre  Dumas, pai; A morte civil (três vezes), de Giacometti. De Shakespeare foram encenadas as peças: Otelo, Hamlet (três vezes), O mercador de Veneza , Rei Lear e Romeu e Julieta. Também entraram em cena obras de D’Aubigny (Os dois sargentos). Beaumarchais (O casamento de fígaro – duas vezes), Moser e Schontan (O rapto das sabinas – duas vezes), Alexandre Dumas,filho (A dama das camélias – duas vezes), dentre outras peças teatrais de vasto sucesso internacional.

Finalisando este capítulo, Genesino Braga ressalta: “Giovanni Emânuel e sua Companhia partiram de Manaus a 6 de julho do mesmo ano, no vapor “Continente”.  O seu nome está gravado em uma placa de mármore, nos corredores do Teatro Amazonas, como a pedir mais respeito e mais veneração para aquela sociedade ilustre, que soubera entender e aplaudir, à maneira dos mais evoluídos do mundo, o mais assombroso dos teatros: o shakespeareano!”.

Ao concluir este breve repassar sobre a extraordinária obra de Genesino Braga,  sou forçado a refletir quanto ao passado—presente do Amazonas e da cidade de Manaus. O que efetivamente restou como legado daquela época de fausto, de bonança, de venturas do apogeu, do auge daquele período áureo da borracha?

Uma ocasião questionei o ex-senador Jefferson Peres, meu professor de Economia Brasileira na Faculdade, sobre a pobreza dessa herança. Ele argumentou que, ao contrário, havia sido muito rica e expressiva. Não foi apenas o Teatro Amazonas e a praça S. Sebastião que restaram,  mas também o Palácio da Justiça, O Instituto de Educação, O Gymnasio Amazonense Pedro II (Colégio Estadual do Amazonas), a Biblioteca Pública, o complexo da Alfândega, o Porto Flutuante (Manaos Harbour), diversos monumentos e fontes, o Palácio Rio Negro, o Mercado Municipal, o Paço Municipal (antiga sede da Prefeitura de Manaus), hoje Museu da Cidade;  o sistema de água e esgoto da cidade, o saneamento de igarapés e construções de avenidas eixo como Eduardo Ribeiro, Getúlio Vargas e Sete de Setembro, transporte público a base de bondes elétricos, sólido sistema de ensino e saúde pública, e assim por diante.

De lá para cá, qualitativamente muito pouco foi acrescentado.  Ao contrário, Manaus perdeu sua característica europeia, portuguesa, essencialmente.  Processo agravado com  a destruição do patrimônio urbanístico a partir de 1967 com a instituição da Zona Franca de Manaus, período em que muitos dos palacetes, especialmente  suas fachadas, ruas e logradouros foram completamente descaracterizados.

Deixaram Manaus se transformar num misto de Portugal e favelas. Nesse sentido, Belém soube conservar melhor os traços lusitanos da cidade construída no período Colonial. A capital amazonense não apresenta contemporaneamente um padrão exato de urbanização da cidade. Hoje tudo se mistura num barafunda, um misto desordenado de comunidades surgidas em decorrência de invasões, desprovidas de saneamento básico, transporte, equipamentos sociais adequados e bairros de luxo como Ponta Negra e arredores.

Os contrastes são brutais. Eduardo Ribeiro fez uma cidade planejada, dotada de sistema viário de qualidade, além de avenidas, ruas e bairros, o centro histórico com o monumental  largo da Matriz, e bairros no padrão da Vila Municipal e Cachoeirinha, bem urbanizados e arborizados.

O grande desafio, creio, seria recuperar, não o fastígio, o fausto, a pompa daquela economia do período áureo da borracha, mas, sobretudo, o padrão de civilização que a sociedade amazonense construiu naquela segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do XX. Uma obrigação não apenas de prefeitos e governadores, mas de todos nós.

Assim penso eu.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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