Este livro, de 1960, li-o por essa época.  Aluno do curso ginasial no Colégio Estadual do Amazonas, era, como muitos de meus colegas,  assíduo frequentador da Biblioteca Pública, na Rua Barroso, e das Livrarias Escolar e Acadêmica, na Henrique Martins, a conhecida Rua das Livrarias. O tempo passou, veio o curso Científico, a Universidade, a vida familiar e profissional.  Enquanto isso o livro desapareceu. Claro, tantos anos passados, período estudando fora, outras preocupações, etc., tudo isso levou a perda de contato com a obra “Fastígio e Sensibilidade do Amazonas de Ontem”, de Genesino Braga.

Jamais, contudo, “Fastígio e Sensibilidade…” saiu-me da mente. Nem das recordações dentre as excelentes obras que tive oportunidade de ler na época de estudante. Genesino Braga, a quem conheci apenas de vista, naquele início dos anos 60 jornalista e escritor importante, trafegava por esferas bem acima daquelas que nós simples secundaristas trilhávamos. Tanto ele, autor, quanto seu livro, contudo, permaneceram vivos em minhas recordações.

Tentei  encontrá-lo por diversos meios. Lamentavelmente, nada consegui. Nem imaginava que estivesse tão próximo de mim. Graças ao Facebook e à minha amizade (dos tempos do Colégio) com o advogado e escritor Paulo Figueiredo, tive acesso direto aos amigos Erasmo e Ursulita Alfaia, justamente filha de Genesino Braga, além de mãe de minha amiga Gisele Alfaia.  Quando, em determinado momento,  fiz, no Face, referência ao livro e às minhas frustradas tentativas de readquiri-lo, tive a imediata resposta de Ursulita, que, tornando meu sonho realidade, dias depois, por especial gentileza enviou-me um exemplar à minha casa.

Uma felicidade indizível tomou conta de mim. Como se tivesse reencontrado um velho e dileto amigo a quem não via há mais de 50 anos.  Na verdade, o caso. Precisamente. Tenho meus livros como se fossem de minha família. Deles cuido com desvelo e até ciúme. O que não impediu, em certos casos, de alguns terem sido emprestados e o beneficiário do empréstimo haver “esquecido” de devolvê-lo. Coisa normal na vida dos que gostam de ler e amam os livros.

“Fastígio e Sensibilidade do Amazonas de Ontem” é uma obra referencial.  Um retrato do Amazonas ao longo dos anos desde a fundação da Província e os tempos “doirados” do áureo ciclo da borracha (segunda metade dos anos 1800 até 1915, aproximadamente). O amazonense, a maioria despida de informações sobre os detalhes da época, mesmo rudimentares, não pode se permitir  ignorar a história, a cultura e a evolução política de sua terra. Genesino Braga descreve com carinho e emoção – e muito talento – aspectos marcantes que fizeram o Amazonas figurar no centro das atenções econômicas, sociais e culturais do Brasil.

Como escreveu o poeta e ex-governador Álvaro Botelho Maia (1893 – 1969) na Orelha do livro: “em seus treze capítulos de recordações, o livro de Genesino Braga vai figurar entre ótimas obras didáticas, imprescindíveis a manuseio de professores e escolares. Gonçalves Dias, Coelho Neto, Conde d’Eu, Eduardo Ribeiro, Charles Richet, Barão de Sant’Ana Nery, Giovani Emanuel, Lobo d’Almada, Joaquim Sarmento, – eis, na sequência de alguns capítulos, os vultos  que perpassam no livro do escritor e em torno dos quais se adensam cenas velhas de Manaus”.

Quem não quer acompanhar, prossegue Álvaro, o conhecido poeta Cabeleira (hábito da época), “as viagens de Gonçalves Dias, como inspetor escolar e etnólogo nos rios Negro, Solimões e Madeira? E a visita de Coelho Neto a Manaus em 1899, do Conde d’Eu a Tabatinga em 1889? E acrônica cintilante da primeira embarcação que subiu o Amazonas em 1853?”.

Genesino Braga, no dizer do “velho” Álvaro foi diretor, animador, atualizador da Biblioteca do Amazonas, em desespero quando a devorou o incêndio de 23 de agosto de 1945, em alegria tumultuante quando a viu reinstalada mediante a solidariedade brasileira e continental”. Quantos têm, hoje, ideia desse infausto desastre? Dos prejuízos causados pelo fogo à nossa principal Biblioteca?

Genesino Braga, prossegue o relato de Álvaro Maia, “lhe reabriu os garimpos das prateleiras a pesquisas, estudos, a escafandristas de raridades. Após os sacrilégios das labaredas, que lhe destruíram  preciosas obras antigas e preciosos arquivos, Genesino dirigiu-se, mendicante e humilde, aos institutos  culturais da América e do mundo: livros começaram a afluir e a Biblioteca retornou aos seus áureos tempos”.

Uma digressão: estudantes nos anos 1950 e 1960, minha geração frequentou quase que diariamente a Biblioteca. Lá estudávamos, fazíamos pesquisas e elaborávamos trabalhos  do Colégio. Certamente a ambiência, a atmosfera  e odor transmitido por aquelas mesas, cadeiras e prateleiras repletas de obras da maior significância em qualquer campo do conhecimento haja proporcionado àqueles jovens o gosto pela leitura e pela formação cultural, por mais incipiente que tivesse resultado.

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A ninguém era dado o direito de reclamar de falta de condições para estudar. A Biblioteca do Amazonas era pródiga, profícua; nos proporcionava abundantes meios para nossa formação educacional.

Não satisfeito, prossegue Álvaro Maia, Genesino Braga “ historiou-lhe a existência, nesse magnífico trabalho – “Nascença e Vivência da Biblioteca do Amazonas”; intensificou-lhe a propaganda e conseguiu  que, aos seus salões de leitura, afluíssem também jovens secundaristas e universitários, unidos, em pensamento, à luz dos mesmos combustores”.

Por fim, o ex-governador do Amazonas, com a humildade que o caracterizava, escreve: “deve o Amazonas a Genesino Braga, em grande parte, a organização dessa nova Biblioteca, assistida por  funcionários especializados em cursos técnicos:  o nome do seu diretor figura entre os raros que, em realidade, têm prestado serviços valiosos ao Amazonas, sem exibições e vaidades, sem falsas glórias politiqueiras”.

Reforçando o que escreveu Álvaro Maia, pessoalmente jamais ouvi ou li de Ursulita Alfaia, de Gisele, de Erasmo ou de qualquer parente palavras ou escritas de autoelogios, eivadas de “exibições e vaidades” em torno desse grande amazonense. Como de hábito ocorre junto ao meio político e governamental contemporâneo, quando se presta homenagens – medalhas e títulos diversos -, muitas vezes descabidos, a quem apenas se locupleta de vantagens econômicas sem praticamente nada dar em troca em favor da valorização educacional, social, cultural, política e econômica do Amazonas. Fingidos benfeitores, enganosos consultores, dissimulados representantes, falsos brilhantes, enfim, são, não raro, simples sanguessugas habituados a extrair ardilosamente o sangue, o vigor, a força, a seiva vital da história e da cultura desta Terra.

Infelizmente não nascem mais Genesinos Bragas como antigamente. Por isso o Amazonas desacelerou dramaticamente seu crescimento em função da involução dos sistema educacional aqui em vigos, e, consequentemente, pouco tem avançado como expressão econômica, social e política no contexto da nação brasileira.

Volto ao assunto.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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