fernanda torres
*Fernanda Torres

O dia 12 de setembro mostra que não há rua sem o campo da esquerda, ou sem a união de um ou mais líderes carismáticos.

Antes do fatídico Sete de Setembro, eu acreditava que tudo iria acabar em conchavo. Jair esticaria a corda, mas passaria a faixa em troca do perdão da família, mirando a campanha para a presidência de algum 00 em 2026.

Dividi a crença com uma roda de amigos informados. Uns reconheceram no conchavo a velha saída à brasileira, mas o filósofo rebateu seco. “Não haverá conchavo porque não haverá eleição. Ou se organiza uma frente ampla pelo impeachment, ou lá se foi a democracia.” A terça-feira golpista comprovou a tese.

Atos de 7 de Setembro de 2021 pró-Bolsonaro tem churrasco, cerveja e música sertaneja n

Manifestantes bolsonaristas em Brasília Sergio Lima / AFP

Churrasco em meio à manifestação em Brasília Vinicius Sassine/Folhapress

A horda de iludidos nas ruas, menos gente do que se esperava, mas, ainda assim, muita gente com a camiseta da CBF a chamar urubu de meu louro, a abraçar o Queiroz e avançar sobre a praça dos Três Poderes.

Seguiu-se o frenesi de memes e postagens. Adnet gênio, Zé Trovão foragido no México, Heleno delirante num vídeo digno do “Zorra Total”, a ocupação comemorando o estado de sítio que não aconteceu e a greve sem controle de caminhoneiros.

Seria aquela a vitória de Pirro de Bolsonaro? A besta-fera atravessara o Rubicão e, quem sabe, até o centrão lhe viraria as costas? Era a deixa para a frente ampla. Ir ou não ir à rua com o MBL? Essa era a questão.

Ato contra Bolsonaro em São Paulo, convocado pelo MBL

Ato contra Bolsonaro, organizado pelo MBL e Vem Pra Rua, na Avenida Paulista Bruno Santos/Folhapress

O governador de São Paulo, João Doria, participa de ato contra Bolsonaro, organizado pelo MBL e Vem Pra Rua, na Avenida Paulista Marlene Bergamo/Folhapress

Foi quando Michel Temer, o do “tem que manter isso aí…”, abriu as asas em São Paulo e se materializou no Alvorada com a carta de arrego na mão. O conchavo. A Bolsa subiu, o dólar caiu, Lira desconversou, Aras fez que não viu e se empurrou, mais uma vez, o caos com a barriga.

Em conversa com Vinicius Torres Freire, um deputado não identificado afirmou que o impeachment é “coisa de artista”. Foi a primeira categoria que lhe ocorreu para dar exemplo de nulidade. “O impeachment é coisa de artista”, disse, da elite, dos jornais, da minoria parlamentar e de meia dúzia de empresários gatos pingados que não têm ideia da “confusão que esse povo do Bolsonaro vai arrumar na rua”.

È vero. O agronegócio está com o coiso, os garimpeiro e grileiros, além das viúvas da ditadura e da classe média oxigenada. Derrotá-lo nas urnas inibiria teorias conspiratórias, a insurgência de seguidores armados e das forças de segurança que o apoiam. Mas o filósofo lembra que não existe, no horizonte do monstro, alternativa que não a do golpe.

Contra a argumentação do deputado pesa a péssima avaliação do atual desgoverno, de 51% da população, e o desejo, expresso nos panelaços de abreviar o mandato do pior presidente da história, seja pela renúncia ou pelo impeachment, ambos improváveis.

Atos contra Bolsonaro

Manifestantes carregam faixa com ‘nem Lula, nem Bolsonaro’ em protesto em Brasília Washington Luiz/Folhapress

Manifestante exibe cartaz contra Bolsonaro e Lula em ato no Rio neste domingo (12) Luís Costa/Folhapress

Mas os 51% não formam a unidade cega e coesa dos restantes. O dia 12 de setembro mostra que não há rua sem o campo da esquerda, sem as comunidades de base, sem o financiamento de empresários, partidos e sem a união de um ou mais líderes carismáticos. Não há.

O restante segue um messias e aderiu a um enredo de fake news consistente, escrito, não sei, por Steve Bannon e Olavo de Carvalho, baseado na salvação da família, da moral, da justiça e de Deus. Os outros 51% seguem em busca de um autor.

E, na impotência de figurante desse coro de vozes inconciliáveis, tirei “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Luigi Pirandello, da estante. Coisa de artista. Na peça, um ensaio é interrompido pela aparição de seis personagens abandonados pelo dramaturgo que os criou.

Os seis esperneiam mágoas, rachas e crises familiares agudas. Eles choram, gritam e se acusam mutuamente, sem dar sentido lógico à emoção bruta que carregam, já que a peça da qual fariam parte jamais foi escrita. Falta o autor.

A ENTEADA – Eu quero representar o meu drama! O meu!

O DIRETOR – Oh, enfim, o seu! Não é somente o seu, desculpe! É também o dos outros! O dele, o da sua mãe! Não é possível que uma personagem venha, assim, demasiada à frente, e se sobreponha às demais, invadindo a cena. É preciso mantê-las todas num quadro harmonioso e representar o que é representável! Eu também sei que cada qual tem toda uma vida dentro de si e que gostaria de exteriorizá-la. Mas o difícil é exatamente isto: exteriorizar só aquilo que é necessário em relação aos demais! […] Ah! Que cômodo seria, se cada personagem pudesse, num belo monólogo, ou… sem mais nem menos… numa conferência, vir despejar, diante do público, tudo o que lhe ferve por dentro! Precisa conter-se, em seu próprio interesse, acredite, porque pode até provocar má impressão, advirto-a, toda essa fúria dilacerante, essa aversão exasperada!

Frente ampla sem um roteiro plausível não é frente ampla, é psicodrama. E suspeito que não há roteiro plausível sem que Lula diga para que lado vai.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 15/09/2021.
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