Não me arrojo a vaticanista e muito menos a teólogo, mal posso considerar-me um simples cristão, esforçado em obedecer as regras da Igreja. Assim mesmo de um catolicismo penetrado por procedimentos religiosos mais condizentes com o folclore assimilado na beira do Paraná de Serpa, em Itacoatiara, do que com a liturgia dos missais. Nasci sob o pontificado de Pio XI (1922-1939), e tomei consciência da vida no extenso governo do Pontífice Pio XII (1939-1958). Para mim esse Papa não era um homem, mas um santo, pela forma como era apresentado às criança na farta reprodução iconográfica anterior ao império da mídia eletrônica, principalmente da internet. Nas residências dos católicos de então podia faltar tudo, menos o retrato de Pio II, envergando os solenes paramentos pontificais, ou um quadro na parede com uma bênção apostólica particular em benefício daquela família. De lá para cá muita coisa mudou na Igreja, vieram cinco sucessores de Pedro, João XXIII (1958-1963), Paulo VI (1963-1978), João Paulo I (1978), João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013), que abdicou no dia 28 de fevereiro último.

Aí a chaminé da Capela Sistina fez voar fumaça branca, os nobres cardeais anunciaram o novo timoneiro do Barco do Pescador e o novo Papa apareceu. Foi anunciado o nome que devia usar Francisco e a sua condição de primeiro jesuíta a assumir a mais alta função no comando da Igreja. Com a batina branca, a mais simples indumentária do Soberano, tenso, a revelar um leve sorriso nos lábios, aos poucos, dominado por atmosfera de fé incendiada pelo fervor das setenta mil pessoas que se comprimiam entre a emoção e o espaço generoso da praça medieval e barroca delimitada pela monumental colunata de Bernini, abriu um sorriso paternal e curvou-se para que a multidão de fiéis o abençoasse. Ali se configurava, de imediato, a simplicidade do jesuíta e a humildade do franciscano.

Argentino, Francisco é o primeiro Papa natural da América Latina, terra que os jesuítas ajudaram a criar e a libertar pela fé. Nasceram juntos entre o final do século XV e princípios do XVI. Quando Cristóvão Colombo atravessava os oceanos e descobria a América em 1492, Santo Inácio de Loyola, com alguns colegas da Universidade de Paris, fundava a Companhia de Jesus em 1534. Logo vieram para a nova terra e trataram os gentios não como perigosos selvagens, mas como filhos de Deus. Santo Inácio ainda vivia quando isso aconteceu. Santo Inácio era soldado e incutiu em sua organização disciplina militar. Os jesuítas expedidos ao Brasil, em cuja missão se encontrava o Beato Anchieta, quarenta e nove anos após a sua descoberta, vieram sob o comando do Padre Manuel da Nóbrega. Caracteriza-os a simplicidade e a cultura do humanismo clássico. Sob a batina preta estão prontos a missões libertas de honrarias, eis que hoje apenas existem cinco jesuítas compondo o Colégio de Cardeais e jamais um jesuíta chegara tão alto na hierarquia da Santa Sé. Não por não saberem Latim ou por falta de cultura e carência de fé, virtudes que constituem o fundamento de sua profissão, mas por seu ideal de vida simples, embora sempre aureolada com o carisma de alta intelectualidade.

Já São Francisco não era tão culto assim. Era um homem intelectualmente modesto. Mas um gênio da fé. Na juventude não se interessava pelos negócios do pai comerciante de tecidos finos. Fascinava-o a vida boêmia com os companheiros pelas ruas de Assis, a cantar e tocar mandolinas ante as sacadas severas da cidade de pedra, na camaradagem dos mesmos companheiros que criaram poucos anos depois a Ordem Franciscana. Acontece que, ao usar a língua vulgar para compor os seus poemas, inclusive a obra prima que é o Canto das Criaturas, escrita no dialeto úmbrio, na história da cultura constitui esse um fato relevante por ter acendido, já no século XIII, as luzes do Renascimento, a elevação aos níveis da manifestação estética da poesia a língua usada pelo povo.

Os jesuítas nasceram na Universidade; os franciscanos floresceram nas ruas. Os jesuítas assumiram na simplicidade a vida cristã, os franciscanos na humildade da fé. Aí estão segundo posso perceber, as raízes do apostolado de Francisco.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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