Reportamo-nos à correspondência da senhora Selma de Mesquita Silva, de 12 de novembro andante, dirigida ao historiador Francisco Gomes da Silva, via e-mail, em que postula informações de seu tataravô, Francisco Domingos do Lago, para dar curso à construção da árvore genealógica de sua família, trabalho sobre o qual vem se debruçando há cerca de seis anos. Efetivamente, o “estudo do parentesco”, como popularmente denomina-se a genealogia – ciência auxiliar da História que estuda a origem, evolução e disseminação das famílias – tem por objetivo central desvendar as origens familiares por intermédio do levantamento sistemático de seus antepassados ou descendentes, locais onde nasceram e viveram e seus relacionamentos interfamiliares. É um trabalho desafiador e de certo modo estressante, que requer dos interessados em fazê-lo paciência e muita dedicação.

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Foto de Francisco Domingos do Lago

Dona Selma de Mesquita Silva reside em Campinas (SP). Nascida no Rio de Janeiro e criada em São José dos Campos (SP), estudou Engenharia Civil na PUC de Campinas. Autorizou-nos a publicar seu interesse na história de Itacoatiara em razão dessa pesquisa. Ela e o marido planejam uma visita a Manaus e a Itacoatiara. Assim que recebida a sua missiva, diligenciamos para atendê-la a tempo e com presteza. Ao longo de mais de meio século, temos nos posicionado na posição de estudar, pesquisar e divulgar Itacoatiara, cuja caminhada histórica alcança mais de 330 anos. Estamos sempre abertos a quaisquer questionamentos a respeito do tema, daí nossa imensa satisfação em acolher bem o pedido da ilustre missivista que, em síntese:

1) Busca informações sobre seu tataravô, Francisco Domingos do Lago. Sabe apenas que ele nasceu no Rio de Janeiro. Foi nomeado “Guarda da Mesa de Rendas” do porto de Itacoatiara. Foi presidente do Club Recreativo Itacoatiarense e tesoureiro da Administração Municipal.

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Foto da Bisavó Lalá

2) Pergunta: quando Francisco Domingos do Lago veio para Itacoatiara? Se se casou aquí?  Tem conhecimento sobre o Club Recreativo Itacoatiarense? Ele foi presidente e acha que um dos fundadores. Parece-lhe que seria um clube cultural. Francisco Domingos do Lago era casado com Antonina Lago, filha de Catharina Rosas? Não sabe se as duas eram nascidas em Itacoatiara. Se suas tias-avós: Merandulina do Lago, Esther do Lago Santos, casada com Manoel da Costa Santos; Maria Christina do Lago Barbosa, casada com Izauro Barbosa; e Dalila do Lago; e sua bisavó: Ernestina Lago Rocha, casada com Tarquino Marques de Oliveira Rocha – nasceram e casaram em Itacoatiara? Acha que sua avó, Alcaciba Lago de Mesquita, nasceu em Itacoatiara, estudou em Manaus e casou-se com José Claudio de Mesquita Junior em Manaus.

3) Que está sendo difícil levantar dados sobre seu tataravô, que morreu em Itacoatiara com quase 100 anos… Que ele tinha um sítio onde plantava cacau e guaraná. O sítio, após a morte dele, foi mantido por duas de suas tias, solteiras, Merandulina e Dalila, que o venderam na década de 1960. Que chegou a conhecê-las, mas era muito pequena.  Que não conheceu sua avó, Alcaciba, e nem seu avô José Cláudio. E agora, ao fazer a genealogia, se dá conta de que não sabe nada sobre eles. E que os mais velhos da família já se foram… Que seu pai, Jorge de Mesquita, nasceu em Manaus em 1918. Dona Selma esclarece que tem mantido contato com a historiadora Etelvina Garcia, em Manaus, a qual está ajudando-a com informações da família Mesquita, do comendador José Claudio Mesquita.

As informações que prestamos à dona Selma de Mesquita são as seguintes:

1) No livro de minha autoria “Cronografia de Itacoatiara”, 1º volume, Manaus, 1997, constam as seguintes menções: Pág. 152: “1º de janeiro de 1874: Instalada a Alfândega de Serpa” – Nota: a vila de Serpa foi elevada à categoria de cidade, com o nome de Itacoatiara, em 25/04/1874; Pág. 155: “Nesse ano (1874) haviam começados os trabalhos da estrada de ferro Madeira-Mamoré e uma das finalidades da instalação da Alfândega era facilitar a importação de materiais para as respectivas obras (…). A Alfândega de Serpa foi suprimida em 1876, para dar lugar à Mesa de Rendas Provincial”. Nota: a estrada de ferro Madeira-Mamoré foi construida em Porto Velho, Rondônia (e dada a pouca profundidade do Rio Madeira – a cuja margem Porto Velho está situado – os materiais eram desembarcados em Itacoatiara de enormes navios estrangeiros e levados em embarcações menores até o local de destino). Atenção: ainda hoje mandarei outros informes… Desculpe o fatiamento das informações, mas os dados são díspares… Estou pesquisando…

2) Conforme consta à página 139 do meu livro Cronografia… 2º volume: O superintendente (cargo equivalente a prefeito, ou seja: Chefe do Poder Executivo) Coronel Francisco Queiroz – eleito a 1º/12/1913, assumiu a 1º/01/1914 e governou até 1º/01/1916. Portanto, nesse triênio, Francisco Lago não continuou como servidor da Superintendência: o superintendente era da oposição!!! No mandato seguinte (triênio 1917-1919), Francisco Lago foi secretário da Intendência (o equivalente à Câmara Municipal: poder legislativo). A respeito, consta no meu livro Cronografia… 2º volume, pág. 149: “No ano de 1916, presidia a Intendência Municipal de Itacoatiara o intendente José de Araújo Barros, SENDO secretário o senhor Francisco Domingos do Lago”. Data da eleição da Intendência: 1º/12/1916; posse: 1º/01/1917; mandato concluído em 31/12/1919 – Isso consta à página 108 de meu livro “Câmara Municipal de Itacoatiara (sinopse histórica)”, Manaus, 2010.

3) Consta, à pág. 143 do livro Cronografia… 2º volume, que em 1914 chegou a Itacoatiara o primeiro imigrante italiano, Ângelo Biase, nascido em 1888 e falecido (em Itacoatiara) em 1939.  Também, nesse ano de 1914, chegou a Itacoatiara (ainda jovem) o cearense Raimundo Perales (foi prefeito de Itacoatiara em 1952-1956). Também nesse ano chegou o imigrante árabe José Abdala Fadul. O juiz municipal era (em 1914) o doutor Manoel Anísio Jobim. E o promotor de Justiça doutor Gaspar Guimarães Maia. O governador do Amazonas: Jônatas Pedrosa.

4) Curiosidades: 1) Nas eleições municipais de 1º/12/1919 Francisco Lago não participou da mesa eleitoral ( o secretário foi Joaquim Francisco Pereira Lemos); 2 – Foi eleito: superintendente Francisco Olimpio de Oliveira (administração em 1920-1922); 3) e eleito intendente ficou na presidência da Intendência Ozório Alves da Fonseca (gestão 1920-1922). 4) O secretário da Superintendência era Vicente Geraldo de Mendonça Lima (conhecido como Vicentinho Mendonça) e o tesoureiro José Pascoal Onety.

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Família vovô Lago – Foto de 1908

5) Págs. 183/184: “1888: Instalada a Mesa de Rendas de Itacoatiara, em substituição à antiga Alfândega. O decreto nº 6.272 [IMPERIAL], de 2/08/1876, suprimira a Alfândega de Serpa e criara a Mesa de Rendas Provincial, considerada de 1ª Ordem”. Segundo os relatórios provinciais seus dirigentes continuaram sendo nominados como coletores até que, em meados de 1888, por Ato de 12/06/1888, em cumprimento à Lei nº 755, de 1º/06/1887, “é instalada a Mesa de Rendas de Itacoatiara’” e nomeado para seu Administrador e Tesoureiro o cidadão Miguel Francisco Cruz Júnior.” Em 1896, o coletor da Mesa de Rendas era o senhor João Antônio Onety.

6) Pág. 187: “1888. 1º de Dezembro – ocorrem eleições municipais em Itacoatiara”.

7) Pág. 188: Valendo para o triênio 1889/1892, nelas [nas eleições acima citadas] votaram 489 eleitores, sendo os votos apurados em 16/12/1888, e ocorrendo a posse dos eleitos em 15/01/1889. Derrotada a facção liderada por João Pereira Barbosa, a Câmara Municipal, secretariada por Francisco Domingos do Lago,passou a ter a seguinte composição: Alvaro Botelho de Castro e França (presidente), Francisco Alves de Lima Verde, Abel Pereira Barbosa, Manoel Plácido de Souza, Pedro Jorge da Silva Ramos e José Joaquim de Sant’Anna. O liberal Alvaro França (presidente da Câmara), filho do português Joaquim José Pinto de França e de Raquel Cândida de França, [foi] caixeiro da Casa Comercial de seu pai, e nasceu em Itacoatiara em 1860… – Nota: verifique, por favor, os sobrenomes [e as famílias] citados. Talvez indiquem possíveis caminhos para elucidar a questão…

8) Pág. 108 do Livro de de minha autoria, Cronografia de Itacoatiara, 2º volume, Manaus, 1998:  O então major (da Guarda Nacional) Francisco Domingos do Lago se fez presente ao ato de lançamento da pedra fundamental do Mercado Público de Itacoatiara (11/setembro/1909): e lá também estavam: O superintendente (prefeito) João Pereira Barbosa, o construtor (português) Antônio Pereira Tavares Retto, o juiz de Direito Enos Alves de Lobão Veras, o promotor de Justiça Albano José Moreira, o tabelião e escrivão da Comarca, Joaquim Francisco Pereira Lemos, o delegado de Policia major Joaquim Alves de Lima Verde, o escrivão da Mesa de Rendas Estadual capitão Jesuíno da Costa Fonseca, o tesoureiro da mesma repartição Jason Hermida e (atenção) o MAJOR FRANCISCO DOMINGOS DO LAGO – tesoureiro do Município.

9) Pág. 113: “1910 – 31 de Outubro: Eleito superintendente Manoel Joaquim da Costa Pinheiro” Manoel Joaquim substituiu ao superintendente anterior João Pereira Barbosa e governou Itacoatiara de 1º/01/1911 a31/12/1913. “Era tesoureiro o major Francisco Gomingos do Lago”. – Portanto (atenção): Francisco do Lago foi tesoureiro da Superintendência (Prefeitura) de Itacoatiara no período de 25/01/1908 a 31/12/1913 – cinco anos? Acredito que não continuou no cargo, porque o superintendente que substituiu Manoel Joaquim da Costa Pinheiro, foi o coronel Joaquim Francisco de Queiroz (DA OPOSIÇÃO!!!).

10) No Diário Oficial do Estado, de 29/01/1897, consta a 28/01 (dia anterior), Jesuino da Costa Fonseca foi exonerado, a pedido, do cargo de prefeito de Segurança Pública do Termo Judiciário de Serpa, sendo substituído por Francisco Domingos do Lago. Prefeito de Segurança Pública equivalia ao atual cargo de Delegado Geral de Polícia do Município.

Por fim, acedendo a nosso pedido, a senhora Selma de Mesquita autorizou a publicação neste blog das seguintes fotografias antigas, que nos enviou, relativas a familiares seus. São fotos de 100 anos atrás, recebidas de sua tia Daisy, falecida há dois anos passados, aos 94 anos de idade.

 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Caro sr. Francisco
    Agradeço sua gentileza, sua presteza e interesse por meu relato sobre minha família. Porém, lamento a falta de “memória” de nosso País. Parece que não temos história.
    Todos temos uma história de família, por mais humilde que sejamos, temos uma história. Nossos antepassados, sem exceção, deixaram em nós seus traços, tanto físicos como suas memórias.
    Não devemos viver do passado ou no passado, mas do hoje. O futuro é construído pelo aprendizado do passado e o aprendizado do hoje.
    Se alguém souber mais alguma história de minha família itacoatiarense, seria para mim de grande valia. Meus tataravós faleceram em Itacoatiara; não sei quando, só que foi aí.
    Espero que tenham apreciado um pouco da história de minha família e degustem as fotos da época. São parte da história, não só minha como de Itacoatiara.
    Bom, é isso!
    Mais uma vez agradeço ao sr. Francisco Gomes da Silva
    Meus sinceros cumprimentos
    Selma Vasquez de Mesquita Silva

  2. Boa tarde, a todos!
    Estava pesquisando sobre o origem da Loja Maçônica Esperança e Harmonia, criada em Itacoatiara no ano de 1901, quando deparei com esse site. Essa Loja Maçônica foi destruída por um incêndio e muitos anos depois foi reaberta em Manaus. Pois bem, em minhas pesquisas, encontrei algumas informações a respeito de Francisco Domingos do Lago. Se for a mesma pessoa que a senhora Selma de Mesquita Silva pesquisa, o Francisco Domingos do Lago foi secretário da Loja Maçônica Esperança e Harmonia nº 11 no período de 1905 a 1909 sob o veneralato de João Pereira Barbosa.
    A titulo de curiosidade: para se chegar ao grau de Mestre Maçom levasse em média uns 3 anos e para ser Secretario de Loja tem que ser Mestre. Então, Francisco Domingos do Lago deveria estar em Itacoatiara no ano 1902 ou já veio Metre Maçom de outro Oriente.
    Att,
    Márcio

    • Caro sr. Marcio, agradeço sua atenção em aumentar o acervo de informações sobre meu tataravô, Francisco Domingos do Lago.
      Sim, ele já estava em Itacoatiara em 1902, pois casou-se em 1875 com Antonina Deolinda (Rosa) do Lago. Consegui esta informação, graças a simpatia e disposição da sra. Joelma e a permissão do sr. padre, pároco da Prelazia de Itacoatiara, para que ela fizesse a pesquisa.
      Quanto a questão de Francisco Domingos do Lago, ser Mestre Maçom, eu sinceramente não sei. As evidências levam a esta certeza.
      Com a pesquisa da história de minha família, cada dia é um novo dia, uma nova descoberta. Hoje, descobri que uma de minhas tias-avós, Maria Augusta Lago, me enganei quando escrevi ao sr. Francisco Gomes e coloquei o nome “Maria Christina”, era casada, exatamente com o sr. João Pereira Barbosa.
      Concluindo, tudo a ver com a Maçonaria.
      Agradeço muito a sua atenção.
      Meus sinceros agradecimentos
      Selma Vasquez de Mesquita Silva

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