Nos últimos dias, com minha esposa e filhos, três dos quais estudaram com ele, e o amavam, oramos fervorosamente pelo restabelecimento da saúde do professor e amigo Francisco Soares Calheiros, como muitos também o fizeram, em especial seus alunos, a quem o  mestre inspirou e conduziu por anos, desvendando os segredos da língua portuguesa e despertando neles o interesse pela literatura. Calheiros estava acometido de Covid-19, esse mal do século, mas confiávamos na cura. Afinal de contas, ainda jovem (51 anos), no auge de sua capacidade intelectual e laboral, um homem bom e cheio de planos, seria, por certo, mais um abençoado sobrevivente. Os desígnios do Altíssimo, porém, são insondáveis…

Alguém já disse que quando uma pessoa de tanta luz e qualidade é retirada de forma prematura da gente, é porque Deus precisa dela ao seu lado. Não há outra explicação. Calheiros era isso, um iluminado. Fez do magistério o seu sacerdócio e da justiça o ideal de vida, no exercício heroico da advocacia.

Meu filho mais novo, o Rodrigo, o idolatrava. E Calheiros deu-lhe uma bolsa de estudos para acompanhar as suas  aulas virtuais, aos domingos pela manhã. Como disse a minha mulher em um post nas redes sociais, Calheiros ajudou muito o Rodrigo, dizendo-lhe que tinha potencial, que chegaria longe, que era inteligente, trabalhando a sua autoestima, como um verdadeiro educador. Quando eu me candidatei a desembargador, ele me emprestou o seu irrestrito apoio. Mais adiante, dedicou-me uns versos lindos, que mandei enquadrar e guardo no relicário do meu coração. Ficamos amigos e até confrades na Academia de Letras e Culturas da Amazônia (ALCAMA). Ele era um poeta e escritor brilhante. É autor, dos livros “Provável poesia”, “Canções de novembro e algumas preces” e “Quadro negro”, este último eu possuo, autografado por ele.  Ficaram inéditos “Flores da rua Aquilino”, “João Operário” e “Os filhos da Serpa”.

Calheiros foi a célula motriz da fundação e instalação da Academia Itacoatiarense de Letras (AIL), em prédio histórico e antigo, pertencente ao estado, mas reformado por Calheiros e seus amigos e confrades de primeira hora, os quais ele sempre fazia questão de nominar: Auricélia Fernandes, Ester Araújo, Frank Chaves, Antonio Silva, Raimundo Silva, Heloísa Chaves, Aime Câmara, Antonio Valdinei, Leonora Macedo e Francisco Gomes, que colocaram efetivamente as mãos na massa, destacando ainda o apoio, em outras frentes, de Francisco Rosquildes e cabo Maciel. No discurso de inauguração Calheiros disse que também usara recursos próprios, mas não queria ressarcimento. “Muito mais faria pela cidade que amo. Sempre quis ajudar a minha terra natal e agora o faço em grande estilo. Sofro em ver as praças no mais completo silêncio, a Casa de Cultura prestes a desabar, os nossos prédios históricos abandonados”.

Um de seus filhos, o Pedro, já é escritor, herdou o talento do pai. É autor de dois livros. Um dia integrará a Academia. Sua esposa Olívia e demais filhos se devem se orgulhar pelo privilégio que tiveram: o conviver de perto e muito aprender com esse homem extraordinário, com essa grande alma, pai e esposo exemplar, também profissional admirável, o que é uma benção, sem dúvidas.

A última grande conquista de Calheiros, poucos dias antes de ser internado, foi a medida judicial que beneficiou a pequena Isadora Thury, portadora de atrofia muscular espinhal, para que se completasse o pagamento do remédio mais caro do mundo, o Zolgensma, o único capaz de salvar-lhe a vida. A iniciativa de Calheiros, fundamental, garantiu R$ 9,5 milhões, que se somaram R$ 2,5 milhões obtidos em campanha solidária pela Internet para completar o valor. Isadora já tomou o medicamento…

Aqui em casa choramos a sua partida, mas podemos dizer aos seus familiares e legião de amigos, em consolação, por nossa fé, que Calheiros, por tudo o que foi e por tudo o que fez, foi recebido com honras e alegria na morada dos justos pelo próprio Senhor Jesus, que certamente lhe disse,  em meio a um abraço caloroso: “Entre, Calheiros, você não precisa bater. A casa é sua”.  Cremos muito nisso, mas, cá pra nós, com tanta coisa por fazer, por tanta carência de obreiros dedicados e fiéis, por tanta falta de amor e de solidariedade neste mundo, bem que o céu podia esperar…

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Júlio Antônio Lopes
*Amazonense de Manaus, Advogado, jornalista, escritor e editor. Em âmbito regional é membro da Academia Amazonense de Letras; do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas; da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas - seu atual presidente; da Academia de Letras do Brasil-Am; da Academia de Letras e Culturas da Amazônia; da Associação dos Escritores do Amazonas; e da Associação Brasileira de Poetas e Escritores PanAmazônicos. Idealizador e fundador da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas - a Casa de Bernardo Cabral. Integra, como membro efetivo, a Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas; a Academia Internacional de Jurisprudência e Direito Comparado; a Confraria Dom Quixote; a Associação Nacional dos Escritores, sendo, ainda, sócio correspondente da Academia Carioca de Letras; e da Academia Cearense de Direito;) e sócio honorário da Academia Paraibana de Letras Jurídicas. Faz parte também do Conselho Consultivo da Academia Brasileira de Direito.

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