Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Animal encontrado no Ceará seria membro de um grupo de répteis semiaquáticos.

Ney Matogrosso, que um dia hipnotizou o Brasil ao proclamar a inexistência de rastro de cobra e couro de lobisomem, estava errado -pelo menos no que diz respeito ao primeiro quesito. Foi o que afirmou em 2015 uma equipe internacional de pesquisadores, os quais teriam descoberto fósseis de uma cobra de quatro patas (plenamente capaz, portanto, de deixar rastros) em rochas de 120 milhões de anos, vindas do Ceará.

Um novo estudo, no entanto, indica que a serpente quadrúpede não era cobra coisíssima nenhuma. E esse é apenas um dos aspectos problemáticos que cercam o fóssil da Tetrapodophis amplectus, criatura que quase certamente deixou o território brasileiro de forma ilegal.

Comecemos, porém, pelo lado científico da controvérsia, ainda que não seja tão simples separá-lo dos aspectos legais e éticos que fazem parte dela. A nova avaliação sobre a espécie extinta, um bichinho cujo comprimento não ultrapassava muito o de um dedo indicador, sairá em breve na revista especializada Journal of Systematic Palaeontology. Entre seus autores estão o veterano paleontólogo Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, no Canadá, e o brasileiro Tiago Simões, pesquisador da Universidade Harvard que é um dos principais especialistas na evolução do grupo de répteis que inclui cobras e seus parentes próximos, os lagartos.

Aliás, convém deixar claro que não há dúvida nenhuma quanto à ideia de que as serpentes surgiram a partir de ancestrais com patas. Isso certamente aconteceu; algumas cobras atuais ainda carregam estruturas ósseas associadas aos membros, e coisas semelhantes podem ser vistas em outras linhagens de répteis também. E já foram achados vários fósseis de serpentes com patas traseiras. A questão é se as quatro patas que emprestam à Tetrapodophis seu nome em grego realmente são de uma cobrinha da Era dos Dinossauros.

Para Simões, Caldwell e companhia, a resposta é um retumbante “não”. Uma das chaves da reavaliação deles foi ter acesso à contraparte do fóssil, que até hoje não tinha sido descrita. Trocando em miúdos: o que acontece é que os ossos do bicho foram preservados em dois blocos gêmeos de rocha. Um deles contém o crânio do réptil e uma espécie de carimbo da estrutura do resto do esqueleto. Já o outro, a tal contraparte, traz o “carimbo” do crânio e os fósseis propriamente ditos do esqueleto.

A análise detalhada mostrou que o correto seria classificar o animal como um dolicossauro –ou seja, membro de um grupo de répteis semiaquáticos que, mais tarde, dariam origem aos gigantescos mosassauros marinhos (se você assistiu ao filme “Jurassic World”, sabe de que bicho estou falando – embora o longa tenha exagerado muito o tamanho do monstro).

Fósseis de volta ao Brasil

Pterossauro que será repatriado para o Brasil Ascom MPF/CE

Peças do Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri que são similares (foram encontradas na mesma região) às repatriadas Ascom MPF/CE

Peça do Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri similar (encontrada na mesma região) às repatriadas Ascom MPF/CE

Peça do Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri Ascom MPF/CE

Peças do Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri que são similares (foram encontradas na mesma região) às repatriadas Ascom MPF/CE

E há, claro, os problemas éticos. O espécime brasileiro foi parar na Alemanha, nas mãos de um colecionador privado, e acabou sendo emprestado para um museu também privado. A questão é que fósseis achados aqui são bens da União -pertencem ao Estado brasileiro- desde 1942. É quase certo que a “não cobra” saiu do Brasil na moita. Para piorar, um dos responsáveis pelo estudo original, o britânico David Martill, costuma ridicularizar a legislação nacional sobre o tema.

O novo estudo pede a repatriação do fóssil, um objetivo que tem avançado no caso de outros fósseis brasileiros que também foram parar no exterior. Fica o alerta para pesquisadores que ainda têm visões colonialistas da ciência, nas imortais palavras entoadas por Ney Matogrosso: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo. Caderno Ciência, de 13/11/2021.
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