*Paulo Hartung

Evento global abre espaço para país discutir relação econômica com natureza.

Economista, presidente-executivo da Ibá, ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)

A mudança do clima já deu o tom de sua gravidade. Agora também reconhecida como emergência climática, está claro que não haverá uma segunda chance para a humanidade. Embora já com atraso, a hora de agir é agora. Os riscos e as oportunidades estão diante de nós.

Recentemente, o Banco Mundial destacou em relatório que 216 milhões de pessoas terão de se mudar de suas regiões até 2050, devido a impactos de escassez de água, aumento do nível do mar, tempestades e outros eventos climáticos extremos.

Não seria exagero afirmar que os desafios ligados à geopolítica do clima hoje se equiparam, em grau de centralidade estratégica, à relevância que tinham, na Guerra Fria, as negociações sobre desarmamento e não-proliferação nuclear.

Sem a efetiva concertação global por uma nova economia de baixo carbono, com alinhamento de posições, propósitos factíveis e compromissos estabelecidos, poderemos nos frustrar mais uma vez, sem avançar nesta que é uma agenda fundamental para a vida humana.

Diante das complexas mudanças que precisamos promover mundialmente, o Brasil tem a chance de sair da posição defensiva em que se encontra na questão ambiental para apresentar-se como uma das soluções. É inescapável nossa vocação de potência agroambiental, detentora da maior biodiversidade do mundo, de ativos florestais e hídricos de vitalidade incomparável.

Nesse cenário, ganha ainda mais importância o Fórum Mundial da Bioeconomia, que escolheu Belém do Pará para, pela primeira vez, realizar-se fora da Finlândia, entre os dias 18 e 21 de outubro. No coração da região amazônica, serão discutidos caminhos e oportunidades verdadeiramente escaláveis, com real potencial de transformação e de sinergia com a natureza. Lideranças e especialistas, do Brasil e do exterior, estarão focados no debate das distintas rotas que se apresentam para o desenvolvimento pleno da bioeconomia.

A Ibá (Indústria Brasileira de Árvores) e a Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) encontraram no Governo do Estado do Pará o apoio indispensável para viabilizar esse importante e inédito evento internacional. Juntos, como deve ser, iniciativa privada e poder público colaboram para construir novos modelos de negócios, que assegurem ao Brasil posição na dianteira do debate e do fortalecimento da bioeconomia.

Essa liderança do Brasil em bioeconomia é compatível com o protagonismo que devemos ter também na COP-26, em Glasgow. Ali, igualmente, teremos momento decisivo para a configuração de um mercado global e regulado de créditos de carbono, a ser definido no Artigo 6 do Acordo de Paris, iniciando etapa vital para evitar reverter a mudança de clima.

Avançar como parte de solução e liderar nesses novos caminhos são a própria negação da inaceitável pecha de que o Brasil seria pária internacional, o que seria o desmonte da respeitada trajetória trilhada, sobretudo a partir da Rio92. Para voltarmos à vanguarda ambiental, é fundamental que a atitude durante as negociações seja de uma nação profundamente comprometida com o avanço de políticas que beneficiem a bioeconomia e coíbam ilegalidades em nossas florestas, especialmente na Amazônia.

Selo é garantia contra a ilegalidade

Trabalhadores da Coomflona durante manejo controlado em área de proteção Coomflona/Divulgação

Indústria de móveis da Coomflona em Belterra, no Pará Coomflona/Divulgação

Imprescindível que o país seja ousado e que demonstre ambição em suas metas, ao mesmo tempo evidenciando que tem caminhos viáveis e definidos para o cumprimento de sua NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada). É fundamental estar completamente comprometido em conservar vegetação nativa e sua vasta biodiversidade, combatendo fortemente o desmatamento ilegal, queimadas, garimpo e grilagem de terras.

Um olhar cuidadoso e moderno exige a criação de políticas, estratégias, metas e planos de ação que abram espaço para uma economia verdadeiramente descarbonizada, com potencial de adicionar R$ 2,8 trilhões ao PIB e gerar cerca de 2 milhões de empregos até 2030. Cabe reconhecer que a sociedade como um todo, e particularmente o consumidor, cada vez mais indicam adesão a essa agenda da sustentabilidade e do baixo carbono.

Ninguém pode estar alheio ao que o atual momento espera de nós, pois seremos todos julgados pela história e pelas futuras gerações. Nossas responsabilidades e potencialidades exigem que o Brasil se reencontre com sua vocação e volte a ser exemplo de protagonismo na agenda ESG –ambiental, social e de governança.

A natureza não é uma pedra no meio do caminho, mas o próprio caminho, para o Brasil e para o mundo. Nosso desafio é transformar crise em oportunidade. A hora é agora.

*Economista e político. Ex-governador do estado do Espírito Santo. Artigo na Folha de São Paulo. Caderno Mercado, de 15/10/2021.
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