Confraternizações virtuais. Dezembro de 2020. Não sei vocês, mas eu estou muito desconfiado com esse fim de ano.

Desejar “feliz ano novo” pode soar falso. Vou tomar cuidado com o que falar aos outros. Eu sempre achei essa saudação ambígua, metade inocente deslealdade e metade necessária etiqueta. A pandemia, com suas dúvidas e mudanças, confirmou essa tese particular. O desejo é politicamente correto, desde que não me venham depois reclamar que “felicidade é um brinquedo que não tem”, como assinalava Assis Valente, na música natalina.

E o ano novo não chega tão novo assim. Sinto muito. Este ano não vai acabar em 31 de dezembro. O que percebo é que o ano velho vai pororocar sobre o ano novo, cobrindo-o com o manto da sordidez e vai ficar assim, grudado por cima, sufocando o novo por quanto tempo, não sei. Tomara que o novo seja bastante forte pra suportar a carga que o espera.

Já era aquela fábula do velhinho saindo com o saco nas costas cheio das desgraças do ano velho e do menino chegando com saco vazio para colher as benesses do ano novo. Isso era antigamente quando a gente era feliz e não sabia. Este ano é diferente. O velhinho está muito doente, perdeu as forças musculares e espirituais, não poderá levar o saco das indignidades e vai deixar para o menino se virar nos trinta, digo, nos 365 dias do ano novo, para resolver o descarte. Essa é a verdade. Não haverá a magia do pirlimpimpim na hora da virada transformando ratazanas do mal em carruagem do bem, num piscar de olhos. O ano velho vai embora, deixando as desditas pra trás para o ano novo dar o jeito. Por isso a gente nem mesmo poderá dizer ao ano velho que ele já vai tarde, porque ele ainda não nos deixou totalmente. Uma porção dele se infiltrou em nós e outra vai vir no pacote do ano novo.

E por outro lado o saco vazio do menino me dá arrepios. Com o quê esse saco vai ser cheio, meu Deus?

Eu vou moderar nas saudações e exagerar nas intenções, convocando a todos para muita reza, muita oração, muita prece, cumuladas de gestos concretos de fraternidade, para que o melhor do ano vindouro seja compartilhado com o universo dos humanos, os próximos e os distantes.

Desejo um forte ano novo pra poder aguentar o tranco.

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Alírio Marques
*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor plantonista.

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