*Editorial da Folha de São Paulo de 3/08/2014.

A cada mês surgem novos sinais de deterioração das contas públicas; país desperdiça chances seguidas de arrumar sua economia

Já deixou de ser novidade para se consagrar como tendência do governo da presidente Dilma Rousseff (PT). A cada mês surgem novos dados que mostram a constante deterioração das contas públicas.

Em junho, houve deficit primário (a soma de receitas e despesas antes do pagamento de juros da dívida) de R$ 2,1 bilhões. Melhor que o rombo de maio, R$ 11 bilhões, mas ainda assim negativo. Com isso, o saldo positivo do primeiro semestre ficou em R$ 29,4 bilhões, menos de um terço da meta para o ano (R$ 99 bilhões, ou 1,9% do PIB). É o pior resultado desde 2000.

Com o país à beira da recessão, a arrecadação de impostos patina. Enquanto isso, as despesas crescem de forma acelerada. Para o governo fechar as contas, sobraram as receitas não recorrentes –espera-se uma nova rodada de refinanciamento de dívidas de empresas e um bom dinheiro com o leilão de 4G na área de telefonia.

O problema é agravado pela tentativa de escondê-lo. Disfarça-se o tamanho do buraco com seguidas camadas de contabilidade criativa: despesas recorrentes são adiadas para o mês seguinte e repasses obrigatórios ficam retidos –suspeita-se que até o pagamento de aposentadorias comece a ser gerenciado com tal propósito.

O governo federal não engana ninguém. Há um exército de analistas para desfazer a ilusão. O único resultado que colhe é a deterioração de sua própria credibilidade, já em níveis típicos das crises.

Em 2009, no auge do colapso financeiro mundial, o aumento de despesas foi justificado pelo combate ao risco de recessão. O contexto mudou, mas a gestão Dilma não percebeu. A partir de 2010/2011, o recomendável teria sido baixar os juros e diminuir os gastos.

Uma nova janela se abriu com a crise europeia, dando a chance de consolidar taxas menores em 2012. A letargia do crescimento, porém, levou o governo ao pânico –afinal, já se pensava na eleição deste ano– e, desde então, todas as amarras das contas foram soltas.

O Planalto embarcou em uma aventura temerária de expansão de gastos, créditos subsidiados e garantias do Tesouro cujo custo ainda não é plenamente conhecido.

O conjunto da obra é o pior possível: uma economia que derrapa, com juros e inflação em alta, além de um Orçamento estourado e uma dívida pública crescente, fazendo aumentar a percepção de risco de emprestar ao Brasil.

Neste ano, os juros internacionais permaneceram baixos, com o que o país ganhou tempo para arrumar seu quintal. Infelizmente, não há sinal de que tal oportunidade esteja sendo aproveitada.

Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui