Até então eu era um simples folião acompanhando a brincadeira, inclusive o sobe e desce dos carros do Mocidade Clube com os animados “irresponsáveis”.

Nos últimos dias, aproveitando poucas horas de folga, especialmente nos fins de semana, andei remexendo em papeis dos meus arquivos, especialmente na coleção de festejos populares dentre os quais se encontram registros sobre o carnaval de Manaus.

Interessante rever, passados os anos, algumas das realizações das quais participei, seja como líder dos demais colaboradores, seja como folião anônimo na multidão, ou ainda, como guardador de fotos, notas de jornais, histórico das escolas de samba e dos tradicionais cordões. Interessante por um lado, sofrido de saudade por outro e gratificante por constatar que conseguimos viver bons anos, aproveitando as alegrias do Carnaval.

No meio desse emaranhado de fotos, hemeroteca, relatórios e outros documentos surgiu o noticiário sobre o primeiro desfile da Escola de Samba “Unidos da Selva”, organizado pelo coronel Jorge Teixeira de Oliveira com militares simpáticos a esses folguedos, fazendo sucesso na Avenida Eduardo Ribeiro com bons ritmistas, passistas e belas cabrochas. Surgiram os registros dos passeios dos brigues e dos cordões, dos foliões isolados, assim como das batalhas de confete animadas pelas emissoras de rádio que transmitiam ao vivo, passando pelas bem montadas barracas da Rua Saldanha Marinho que vendiam chapéus de palhaço, bisnagas para água, confetes, serpentinas, cordões havaianos, máscaras de papelão e tudo que servisse para animar a nossa cidade.

Até então eu era um simples folião acompanhando a brincadeira, inclusive o sobe e desce dos carros do Mocidade Clube com os animados “irresponsáveis” dos irmãos Tetenge, Mário Abrahim, Flaviano Limongi, Max Teixeira, José Maria Bichara e outros que foram chegando para arrasar como Luiz Carlos Brandao e Raimundo Limongi & Cia.

Depois vivi a audácia de organizar o carnaval de rua em 1983, no final do governo Paulo Nery, aquele que pode ser considerado o primeiro de formato profissional e para o qual trouxe técnicos da Riotur/Rio de Janeiro. Teve camarote arquibancada, decoração na Djalma Batista, Iluminação especial, som importado da capital carioca, comissão julgadora técnica e o Estandarte do Povo inventado pelo Umberto Calderaro para premiar os melhores, Foi, ainda o ano do sofisticado baile e desfile de fantasias no Tropical Hotel com a Orquestra do Maestro Cipó que veio especialmente para o evento, acompanhando Maitê Proença, Moacir Derikeim, Marlene Paiva que eram os grandes, campeões dos desfiles cariocas. A proposta era fazer crescer o Carnaval de Manaus para fins turísticos, diversificando e qualificando os eventos.

Em que pese o sucesso, e ter sido fácil e de baixo custo a solução financeira então adotada, no ano seguinte nada disso teve continuidade, e o carnaval de rua voltou à mesmice mais atrasada, salvo algumas escolas e blocos que começaram a crescer por conta própria.

Revisando as fotos dos eventos, as notícias de Manaus e do Sul do País, os comentários dos artistas convidados e do público, fiquei pensando, cá com os meus botões, que se tivessem dado continuidade, aprimorado e sofisticado aquele embrião de um ano, o Carnaval manauense teria se constituído em atração para o dinamizar o turismo e incrementar a economia, promover os artistas … cumprir outra boa função como sucede no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, por exemplo.

Recentemente, na Secretaria de Cultura retomei alguns veios daquela primeira ideia, e voltamos a fazer concurso de fantasia, homenagear os vencedores do passado, realizar bailes para crianças a céu aberto, concurso de máscaras, decorar o Largo de São Sebastião, premiar os ateliês das belas e luxuosas fantasias. Fizemos isso durante vários anos e, de repente, como num piscar de olhos, mais uma vez tudo foi interrompido por um ano e retomado, parcialmente, neste carnaval.

Até quando vamos viver nessa gangorra, descontinuando projetos de sucesso e perdendo investimentos públicos, quase sempre por birra ou Incompetência, ou, neste caso, por medo de renovar as folias bem-sucedidas no Carnaval?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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